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Criador do Prêmio Atabaque de Ouro quer trazer à tona a cultura afro-brasileira

"É mostrar que existimos em um cenário de invisibilidade de nossas tradições", diz Marcelo Fritz

Por Portal Eu, Rio! em 09/09/2025 às 10:47:39

Foto: Divulgação

Realizado no último domingo (07), o Prêmio Atabaque de Ouro, maior encontro de curimbeiros do Brasil, chegou à sua 19ª edição reafirmando sua força como um espaço de resistência, celebração e memória da cultura afro-brasileira. Criado para reconhecer intérpretes, compositores, líderes religiosos e comunidades que mantêm vivas tradições ancestrais, o prêmio já homenageou nomes como Alcione, Ivone Lara e Leci Brandão.

Este ano, os escolhidos foram Bira Presidente e o Cacique de Ramos, símbolos da luta, da música e da responsabilidade social no samba, além do Grupo Afro Tafaraogi e da Mãe Selma de Omolú, que traduzem em suas trajetórias a essência da continuidade, da fé e da preservação cultural. Mais do que um evento, o Atabaque de Ouro é um manifesto pela liberdade religiosa, pela diversidade e pela valorização de um legado que atravessa gerações.

O Portal Eu, Rio! entrevistou o criador do prêmio, Marcelo Fritz.

Portal Eu, Rio!: O Prêmio Atabaque de Ouro nasceu em 2005. O que mudou no cenário cultural e social do Brasil de lá para cá em relação ao respeito às tradições afro-brasileiras?

Marcelo Fritz: O mais importante é mostrar que existimos em um cenário de invisibilidade de nossas tradições. Existimos! Após nossa premiação, o movimento foi reativado em São Paulo e hoje cresce, plantando sementes em vários estados, como Paraná, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Brasília, Goiás, Minas Gerais, Maranhão, Amapá, entre outros que estamos assessorando e regando com sementes já plantadas. O poder público não pode continuar nos desprezando.

PER: A premiação é também uma forma de luta por liberdade religiosa. Como você enxerga os desafios atuais diante do avanço da intolerância?

MF: Não dá para desistir. Precisamos mostrar à sociedade quem realmente somos. Nunca nos preocupamos em fazer política em movimentos de massa, e isso nos prejudicou na hora de conquistar nossa fatia do bolo, pois somente com políticas públicas poderemos avançar na velocidade que necessitamos. Nossa cultura é linda e precisa ser difundida. É um trabalho árduo, que temos de enfrentar a cada dia, pois só assim avançaremos rumo ao respeito e à liberdade.

PER: Este ano o evento celebrou representantes de vários estados do Brasil. Qual foi a importância desse encontro nacional de curimbeiros no Rio de Janeiro?

MF: O Rio é palco do maior encontro de curimbeiros, que fazem vaquinha e ações entre amigos para comprar passagens. Poderia ser muito maior se tivéssemos o reconhecimento da prefeitura e do governo do estado, que hoje reconhecem o samba — que também já foi marginalizado e hoje não é mais. Vamos conseguir.

PER: O Atabaque de Ouro já homenageou nomes como Alcione, Ivone Lara e Leci Brandão. Como você escolhe os homenageados e qual o critério para manter essa relevância?

MF: São "paqueras", às vezes, de anos. Não temos grana para cachê, mas a causa é nobre e, com persistência, conquistamos. Aí é lindo demais. Escolhemos pelo que representam, pelo que cantam e por estarem engajados nessa luta por liberdade e direitos iguais. Não é sobre religião ou opção, e sim sobre direitos humanos. Todos os que vieram, fortaleceram nossa luta e contribuíram para que nossa história fosse forte, inesquecível e inspiradora.

PER: Quais os principais obstáculos para realizar um evento desse porte e manter o prêmio vivo por tantos anos?

MF: O que mais dói é a desigualdade no tratamento. Assistimos as marchas para Jesus ou shows gospel com investimentos registrados nos diários oficiais, enquanto nós recebemos pouco ou nenhum apoio. É uma desigualdade pública. Estamos nos discursos e nas falas, mas, na prática, é porta na cara e chá de cadeira. Mesmo assim, enfrento sorrindo e não perco o ânimo.

PER: Na sua visão, que mensagem o 19º Prêmio Atabaque de Ouro deixou para as novas gerações que ainda enfrentam preconceito e exclusão?

MF: Quando comecei, disseram que eu era maluco. Quem sairia do Rio Grande do Sul ou de Mato Grosso para vir ao Rio? Como um artista pisaria em um palco para homenagear curimbeiros, artistas da cultura popular, pessoas muitas vezes simples? Nossa herança é valiosa, forte, resistente e libertadora. Não ouçam palavras, vejam a realidade da história e da trajetória. É real. Quem falou que não seria possível, o que diz agora?

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