Assinatura das parcerias para vacina contra VSR e remédio biológico que combate a esclerose múltipla acontece durante solenidade de posse da nova direção da Anvisa. Foto: Ascom MS
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, assinou, nesta quarta-feira (10/09), uma parceria de transferência de tecnologia da vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR). Com isso, o Brasil passará a produzir o imunizante, garantindo a sua oferta no Sistema Único de Saúde (SUS). As primeiras 1,8 milhão de doses adquiridas por meio do acordo envolvendo o Instituto Butantan e a farmacêutica Pfizer serão entregues até o fim deste ano. A distribuição da vacina na rede pública de saúde para proteção de gestante e bebês começa na segunda quinzena de novembro.
A vulnerabilidade do país na oferta de insumos durante a pandemia de Covid-19 e os recentes episódios relacionados a aplicação de tarifas abusivas às exportações brasileiras, reforçam a importância da soberania do SUS para garantir o acesso da população a medicamentos e tratamentos.
"Nós vamos incorporar ao sistema de saúde uma vacina contra o vírus sincicial respiratório, fruto de uma cooperação coordenada pelo Ministério da Saúde com o Instituto Butantan, uma instituição pública, com o governo do estado de São Paulo, governado por um partido diferente, e com uma indústria que tem sede nos Estados Unidos. Nada disso é obstáculo para que nós, do SUS, do Brasil, do governo brasileiro, sob a liderança do presidente Lula, construamos esse arranjo, essa Parceria para o Desenvolvimento Produtivo, assinemos o contrato e possamos oferecer ainda este ano, de graça, às gestantes brasileiras. É uma proteção dupla: protege a gestante e o recém-nascido. E, ao mesmo tempo, garante transferência de tecnologia, incorporação de inovação e geração de emprego, renda e conhecimento ativo no nosso país", afirmou o ministro Alexandre Padilha.
Gestantes serão imunizadas contra o vírus sincicial respiratório a partir de novembro
Em novembro, o Ministério da Saúde iniciará o envio das primeiras 832,5 mil doses da vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e, até dezembro, distribuirá mais 1 milhão para todo SUS. A distribuição aos estados e municípios permitirá a organização de calendários locais, com aplicação nas unidades básicas de saúde e pontos de vacinação de cada região.
Atualmente, o Comitê Técnico Assessor do Ministério da Saúde seguindo o que recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS), recomenda uma dose a partir da 28ª semana de gestação. Com a implementação da vacina, será possível avaliar, no Brasil e em outros países, a necessidade de novas doses em futuras gestações. O vírus é responsável por 80% dos casos de bronquiolite e 60% de pneumonias em crianças menores de 2 anos. A vacina tem potencial para prevenir cerca de 28 mil internações por ano, oferece proteção imediata aos recém-nascidos e beneficiará aproximadamente 2 milhões de bebês nascidos vivos.
A cada cinco crianças infectadas pelo VSR, uma necessita de atendimento ambulatorial e, em média, uma em cada 50 acaba hospitalizada no primeiro ano de vida. No Brasil, cerca de 20 mil bebês menores de um ano são internados anualmente.
O risco é ainda mais elevado entre os prematuros, cuja taxa de mortalidade é sete vezes maior do que a de crianças nascidas a termo — grupo que representa 12% dos nascimentos no país. Entre 2018 e 2024, foram registradas 83 mil internações de bebês prematuros por complicações associadas ao vírus, como bronquite, bronquiolite e pneumonia.
A imunização materna favorece a transferência de anticorpos para o bebê, contribuindo para a proteção nos primeiros meses de vida, período de maior vulnerabilidade ao VSR.
País terá tecnologia para fabricar medicamento biológico que combate a esclerose múltipla

O Brasil também passará a produzir por meio de Parceria de Desenvolvimento Produtivo (PDP) o natalizumabe, medicamento biológico usado no tratamento da esclerose múltipla. A transferência de tecnologia será da farmacêutica Sandoz para o Instituto Butantan. O Ministério da Saúde, por meio de parcerias como essas, busca fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde e reduzir a dependência do país no setor.
O natalizumabe que passará a ser produzido no Brasil a partir do acordo de transferência de tecnologia é indicado a pacientes com a forma remitente-recorrente de alta atividade, que corresponde a cerca de 85% dos casos, e que não responderam de forma adequada a outros tratamentos.
O SUS oferta o natalizumabe desde 2020, mas atualmente há apenas uma empresa com registro na Anvisa. Com a nova PDP, o Ministério da Saúde amplia a concorrência, reduz vulnerabilidades e fortalece a política de acesso universal ao tratamento.
A parceria entre o Instituto Butantan e a farmacêutica Sandoz prevê a transferência completa da tecnologia do natalizumabe, permitindo que o laboratório público passe a dominar todo o processo produtivo — desde o insumo farmacêutico ativo (IFA) até a formulação final do medicamento.
A esclerose múltipla afeta cerca de 2,8 milhões de pessoas em todo o mundo e, no Brasil, atinge aproximadamente 40 mil pacientes. É uma doença autoimune que compromete o sistema nervoso central e afeta principalmente adultos jovens, entre 18 e 55 anos. É caracterizada pela desmielinização da bainha de mielina, camada que reveste os axônios e possibilita a condução dos impulsos elétricos responsáveis pelo controle das funções do organismo.
Governo Federal mira que em dez anos produção doméstica supra 70% da demanda do SUS
Desde 2023, o Governo Federal retomou a agenda voltada ao fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde com medidas para reduzir a dependência do Brasil. A expectativa é que, em até dez anos, 70% das necessidades do SUS em medicamentos, equipamentos e vacinas sejam produzidos no país.
A estimativa é de investimento de R$ 57,4 bilhões com envolvimento do setor público e privado. Além das parcerias de inovação e transferência tecnológica, os recursos são destinados para a infraestrutura do setor.
Os anúncios foram realizados durante a cerimônia de posse de três novos diretores da Anvisa: o diretor-presidente, Leandro Pinheiro Safatle; e dois diretores da Gerência e Administração do órgão, Daniela Marreco Cerqueira e Thiago Lopes Cardoso Campos. Com a posse, a Diretoria Colegiada está completa.
Ouça no Podcast do Eu, Rio! a reportagem da Rádio Nacional sobre a parceria do Butantan com laboratórios estrangeiros para transferência de tecnologia de vacina contra o VSR, vírus da bronquiolite, e do remédio biológico que combate a esclerose múltipla.
Veja trechos dos discursos dos novos diretores:
Leandro Safatle – diretor-presidente:
“A Anvisa é respeitada porque enfrentou desafios e avançou. Ao lado dos colegas diretores e dos trabalhadores da Anvisa, reafirmo o meu empenho em lidar com os desafios atuais e futuros. O mundo vive uma aceleração tecnológica sem precedentes, acompanhada de um aumento da complexidade de inovações tecnológicas. Ao mesmo tempo, a indústria nacional de mostra preparada para dar o salto para a inovação e produção local. Esse cenário exige uma visão regulatória integrada, que garanta excelência técnica com estímulo ao desenvolvimento produtivo e tecnológico. É aqui que reforço um dos principais princípios dessa gestão, o de promover soberania e acesso à saúde.”
Daniela Marreco, diretora:
“Se na minha gestão na diretoria da Anvisa eu puder representar e honrar os nossos servidores e servidoras, terei feito um ótimo trabalho, com certeza. Aqui, aproveito para agradecer ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, por todos os esforços que ele tem feito para a recomposição da nossa força de trabalho e para o fortalecimento da nossa Agência, juntamente com a ministra Esther Dweck. Contem com meu compromisso para que todo esse esforço seja revertido na melhoria do acesso da população a produtos e serviços com qualidade e segurança. Chego à diretoria com uma obsessão por reduzirmos os tempos de espera para registro dos produtos que regulamos. A Anvisa precisa ser uma agência do acesso, promotora do desenvolvimento e da inovação. Não podemos ser barreira, mas sim ponte para o acesso.”
Thiago Campos, diretor:
“A presença negra nos espaços de poder segue muito aquém da sua representatividade no nosso país. Uma sub-representação que fere a equidade, fere e machuca. Hoje, ao tomar posse como diretor da Anvisa, trago comigo a responsabilidade de escrever uma nova página dessa história. Para alguns, esse fato pode não ter grande significado. Para mim, para a minha ancestralidade, para aqueles que vieram antes, para os que virão depois e para todos que se reconhecem nesse momento, isso significa muito. E é justamente esse significado que move meus desafios, meus compromissos, meus desejos nessa nova função. O desafio de compreender que cada decisão negligenciada, cada atraso, afeta principalmente os nossos, os meus, a população negra desse país. Assumo, portanto, esse cargo com o compromisso de trabalhar para que a Anvisa continue sendo uma instituição capaz de proteger vidas, reduzir desigualdades e garantir o direito à saúde para todos os brasileiros e brasileiras.”
Veja a gravação completa do evento em Cerimônia de posse dos novos diretores da Anvisa - 2025
Fonte: Ministério da Saúde e Anvisa