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Sete de cada dez casos no Rio

Negros sofrem maioria dos abusos no Estado, pelas denúncias à Comissão de Direitos Humanos na Alerj

Saúde física e mental responde pela maior parte das queixas, e só 24% têm resposta oficial das autoridades


Ano ficou marcado pela operação policial mais letal da História do Estado, com 122 mortos, 17 deles pessoas sem registro criminal. Foto: Agência Brasil

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj (CDDHC) divulga, nesta quarta-feira, Dia Internacional dos Direitos Humanos, o Relatório Anual 2025. O documento reúne dados, análises e o resultado de 203 atendimentos e 383 registros de denúncias contabilizados até novembro. O material aponta a permanência da violência institucional, a falta de transparência do Estado e o impacto desproporcional das violações sobre a população negra.

Desses casos, 69,5% envolveram pessoas pretas e pardas, evidenciando que essa grande parcela da população segue sendo a principal afetada por violações e pela ausência de políticas públicas. O sistema prisional permanece como o principal contexto dessas denúncias. Pela primeira vez, temas como saúde e saúde mental aparecem entre os motivações de busca mais frequentes, revelando sobrecarga dos serviços essenciais e fragilidade das políticas sociais.

Ouça no Podcast do Eu, Rio! o depoimento da presidente da Comissão de Defesa de Direitos Humanos e Cidadania d Alerj, deputada estadual Dani Monteiro.

O relatório ainda destaca o profundo e absurdo silêncio institucional. A CDDHC enviou 116 ofícios a órgãos públicos, sendo parte desse volume sobre operações policiais, com a finalidade de obter informações, mas apenas 24% do total receberam resposta. A Comissão alerta que essa falta de transparência compromete o controle público sobre ações do Estado, especialmente nas favelas e periferias, onde as violações são mais graves.



A deputada estadual Dani Monteiro, presidenta da Comissão, afirma que os dados exigem responsabilidade imediata das instituições: “A falta de resposta aos nossos ofícios é uma das expressões mais vergonhosas do silêncio institucional. Nós não vamos recuar e segui­remos cobrando respostas de todos os órgãos possíveis. Cada número deste relatório carrega uma vida marcada pela negligência do Estado. Lutar por direitos humanos é lutar pela proteção de todas as vidas. Este documento não é mera prestação de contas e está aqui para reafirmar em números que a violência de Estado permanece cotidiana e que a população negra segue pagando essa conta. Seguimos firmes em colocar a vida no centro de todos os debates políticos e exigir o que é básico: dignidade, transparência e compromisso real com a justiça.”

O relatório marca ainda a adoção de uma nova metodologia de coleta e classificação que ampliou a precisão dos dados e tornou visíveis cenários antes subdimensionados, especialmente nas áreas de saúde e demandas jurídicas.

“Os dados deste relatório desmontam, mais uma vez, o discurso que tenta criminalizar os direitos humanos. Não existe exagero quando denunciamos a violência de Estado; mas existe sim realidade, nome, território e cor de pele. Os dados provam. Defender direitos humanos é defender o direito fundamental de existir sem ser alvo. Então, divulgar este relatório é reafirmar que não vamos aceitar retrocessos nem permitir que o silêncio oficial se imponha sobre as vidas que seguimos protegendo.” concluiu Dani Monteiro.

Destaques do Relatório 2025

Relatório Anual 2025 (íntegra): https://www.calameo.com/read/0081117106637e0b4ead7

Atendimentos e denúncias

* Até 7 de novembro de 2025, a CDDHC registrou 203 atendimentos e 383 denúncias de violações de direitos humanos.

* A média foi de 1,5 atendimento por dia de trabalho.

* Foram registrados 180 acompanhamentos, que somados aos atendimentos, resultam numa média de 2,84 por dia, com tempo médio de duas horas por encaminhamento.

* Em 2024, a Comissão havia recebido 385 denúncias e acompanhado 225 encaminhamentos ao longo do ano. O número de denúncias se manteve estável em relação ao mesmo período analisado do ano anterior.

* Os dados referentes à operação do Complexo da Penha e do Alemão ainda não estavam registrados no sistema no momento do fechamento do relatório.

Observação: as denúncias são recebidas através de diversas portas de entrada, incluindo atendimento presencial, telefone, Zap da Cidadania, e-mails e cartas, sendo que um único atendimento pode abranger múltiplas denúncias, e uma pessoa pode originar vários registros de violações. O relatório final é construído a partir de uma combinação de análise quantitativa, descrição de casos importantes e um estudo detalhado do contexto, dos responsáveis (violadores) e dos tipos de violação.

Mudanças metodológicas e tendências

* Em 2025, a equipe implementou nova categoria para qualificar acompanhamentos, ampliando a precisão do registro. Com a mudança metodológica, há a exigência do cuidado com os dados de relatórios anteriores, o que impede comparativos diretos e generalizados.

* Pela primeira vez, a saúde aparece como principal motivo de denúncia, com 23 registros (6,01%).

* A saúde mental registrou 21 denúncias (5,48%).

* Entre os acompanhamentos, saúde mental também liderou, com 29 registros (16,11%), seguida de demandas jurídicas, com 17 (9,44%).

Observação: os próximos passos do processamento de dados focam em melhorar a qualidade do registro dos locais de ocorrência, refinar a identificação dos violadores, expandir a análise da categoria "contexto" e criar um método sistemático para analisar os casos que envolvem sofrimento mental.

Perfil dos atendidos

* Foram registradas 93 violações contra pessoas pretas, distribuídas em 44 atendimentos, representando 50,5% e 48,4% do total.

* Somando pretos e pardos, são 128 violações em 61 atendimentos, equivalentes a 69,5% e 67,1% do total.

* Nos acompanhamentos, foram 75 violações envolvendo pessoas pretas, chegando a 116 quando incluídas pessoas pardas.

* Em 2024, 67,2% das violações atendidas foram contra pessoas pretas e pardas. Em 2025, essa proporção aumentou para 69,5%.

* A maioria das vítimas atendidas é composta por homens entre 25 e 29 anos.

* As violações se concentraram no sistema prisional.

* Os principais violadores registrados foram pessoas físicas e agentes do governo estadual.

Ofícios

• Até novembro de 2025, foram enviados 116 ofícios pela CDDHC.

* Destes, 28 tratavam do acompanhamento de operações policiais.

* Apenas 28 ofícios tiveram retorno, o que representa cerca de 24% dos enviados.

* A baixa resposta institucional continua sendo obstáculo central ao monitoramento das operações e seus impactos.


CDDHC/Alerj

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