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Um novo estudo brasileiro publicado na revista The Lancet Regional Health – Americas revelou que pobreza, HIV, uso de drogas e falta de acesso à saúde multiplicam o risco de morte por tuberculose no Brasil. A pesquisa analisou 746.848 casos notificados entre 2015 e 2023 e mostra que populações vulneráveis chegam a ter até cinco vezes mais chances de desfechos graves, incluindo abandono do tratamento.
“Os mesmos fatores que agravam a tuberculose são os que fazem o câncer de pulmão ser diagnosticado muito tarde no Brasil. Quem tem menos acesso ao sistema de saúde é quem mais morre”, afirma a oncologista Clarissa Baldotto, presidente eleita da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e membro do Board da International Association for the Study of Lung Cancer (IASLC).
Segundo o estudo, a combinação mais perigosa é a associação entre HIV e uso de drogas, responsável pelos maiores índices de morte e abandono. A população em situação de rua aparece como o grupo com pior evolução clínica, com risco mais que cinco vezes maior de desfecho desfavorável.
Tuberculose e câncer de pulmão: sintomas ignorados e diagnósticos tardios
Embora sejam doenças distintas, a tuberculose e o câncer de pulmão compartilham um ponto central: começam com sintomas parecidos, que costumam ser negligenciados por meses, como tosse persistente, cansaço, perda de peso e dor no peito.
“Para quem vive em situação de vulnerabilidade, a tosse vira rotina, o cansaço vira parte da vida. Isso adia diagnósticos que poderiam salvar vidas, tanto na TB quanto no câncer de pulmão”, explica Baldotto.
O estudo também reforça que estratégias simples, como o tratamento supervisionado (DOT), reduzem em até 65% o risco de piora, mostrando que ações de acompanhamento próximo podem mudar o cenário.
“A tuberculose escancara uma realidade: quando o acesso falha, o diagnóstico atrasa. E isso vale para infecções, para câncer e para qualquer doença que dependa de detecção precoce”, afirma.
Os pesquisadores defendem políticas que combinem saúde, assistência social, redução de danos e acompanhamento contínuo, especialmente para grupos mais vulneráveis. Segundo Baldotto, a interseção entre as doenças deve reforçar a importância de fortalecer o sistema de saúde em áreas de maior risco.
“Quando cuidamos da base, atenção primária, acesso rápido, acompanhamento, diminuímos mortes por tuberculose e também salvamos pacientes com câncer de pulmão. O desafio é o mesmo, e a solução também pode ser”, conclui.