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Mural em Santa Teresa celebra a vida e clama por justiça a artista venezuelana morta

Obra artística na Rua Almirante Alexandrino homenageia artista venezuelana brutalmente assassinada e fortalece a luta contra o feminicídio no Brasil

Por Luciana Serpa em 26/12/2025 às 11:16:14

Foto: Divulgação/Maria Clara Quinet

Inaugurado o mural em homenagem a Julieta Hernández na Rua Almirante Alexandrino, altura do número 618, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. A multiartista venezuelana, cicloviajante e palhaça conhecida como "Miss Jujuba", foi brutalmente assassinada no município de Presidente Figueiredo, polo ecoturístico de Manaus, enquanto percorria o país de bicicleta com destino à Venezuela.

A inauguração, no último domingo (21), marcou simbolicamente o dia da última conversa de Julieta com a família e contato com a rede de apoio de amigas. Nesta segunda-feira, 23 de dezembro, completam-se exatos 730 dias — dois anos — do desaparecimento de Julieta e da provável data do óbito. O mural busca transcender a dor da perda em uma celebração à vida da artista e ato de resistência feminista.

A obra artística foi idealizada e desenvolvida pela artista Martina Carvalho com a colaboração de sua irmã gêmea Shantal Carvalho, amigas próximas de Julieta. O projeto contou com o apoio da ONG Venezuela Global, criada em 2021 para promover a integração socioeconômica e cultural de migrantes e refugiados no Brasil, em parceria com a agência da ONU, OIM Brasil (Organização Internacional para as Migrações).

Willian Clavijo Vitto, presidente da Venezuela Global, destaca que a inauguração faz parte das ações da campanha internacional "21 Dias de Ativismo pelo fim da violência contra as mulheres". Letícia Godinho, representante da OIM Brasil, foi contundente: "Devemos lutar pela vida de cada mulher como se fosse a nossa, porque na manhã que pegam uma, à noite estão contra nós. A gente perdeu uma mulher sonhadora, livre, que viveu plenamente a experiência de ser mulher. Hoje estamos reunidas para não esquecer que a vida das mulheres está em risco, e o quanto querem tirar nossa liberdade."

Uma obra repleta de significados

Durante a cerimônia, a artista Martina Carvalho explicou emocionada cada elemento da composição: "Os hibiscos representam a flor que Julieta usava constantemente no cabelo e na orelha desde que a conheci na Colômbia. As andorinhas simbolizam sua natureza viajante, assim como as sementes que voam de um lugar a outro. O jardim remete às inúmeras amizades que ela cultivou, formando uma imensa rede de afetos por onde passou. No cesto da bicicleta está representado o circo e o 'Cuatro', instrumento musical típico latino-americano de quatro cordas que Julieta tocava e produzia artesanalmente. O céu e o tempo retratam a noite e o dia, em referência à música 'La Jardinera', de Violeta Parra, uma das canções favoritas de Julieta".

"Abya Yala, escrito no cesto, significa 'Terra Madura', 'Terra Viva' ou 'Terra em florescimento' na língua do povo Kuna do Panamá e Colômbia, é o nome dado pelos povos indígenas ao continente americano. Representa um conceito de resistência e identidade cultural, contrapondo-se à visão eurocêntrica. Julieta carregava um estandarte com o termo em um de seus espetáculos sobre a união dos povos latino-americanos e a conexão profunda com a terra e as culturas ancestrais", relembrou a muralista.

Martina também destacou a importância da mensagem central do mural: "Por uma vida digna, livre e sem violência para todas as meninas e mulheres. É muito importante que o sistema judiciário reconheça o crime que vitimou Julieta como feminicídio. Neste caso não é a mesma coisa que um roubo seguido de morte. O feminicídio é um crime de ódio contra as mulheres, pelo simples fato de existirem e serem mulheres. A gente precisa reconhecer e entender que os casos de feminicídio são um problema de toda a sociedade".

"Jamais imaginei que ela não estaria aqui"

Sophia Hernández, irmã de Julieta, emocionou a todos os presentes com um discurso lido por Martina: "21 de dezembro é um dia agridoce para mim, faz dois anos que falei com minha irmã pela última vez. Jamais teria imaginado que, dois anos depois, Julieta já não estaria neste mesmo plano terreno. Muito menos que hoje estaríamos reunidas para inaugurar esse mural tão lindo, que não poderia ter nascido de mãos melhores do que da sua irmã de vida, Martina".

Sophia relembrou a última mensagem que Julieta enviou a uma amiga em 21 de dezembro de 2023: "Continuaremos na palhaçada e acreditando no amor como o único caminho. Esse era o caminho da Julieta. Ela foi uma pessoa que viveu na bondade, no amor, e na humildade".

"Hoje quero imaginar a Julieta passar com a sua bicicleta em frente a esse mural. Ela vem cansada, mas com forças. Julieta percorreu as ruas de Santa Teresa inúmeras vezes carregando a bicicleta nas costas. Adoraria poder estar com ela aqui, caminhando felizes, planejando novas viagens e atravessando novas fronteiras de nossa América", recordou Sophia.

A irmã de Julieta trouxe uma reflexão poética sobre a obra: "Julieta acreditava em utopias, sem saber que ela por inteiro é uma utopia. Esse mural representa todo o amor que Julieta transmitiu em sua passagem. Assim como também uma bandeira de luta para continuar defendendo os direitos das mulheres e meninas de serem livres, sem que nossas vidas estejam em risco. Esse mural é uma homenagem a Julieta, mas também uma homenagem à liberdade. Assim como um lembrete de quanto o mundo pode mudar por causa de uma única pessoa que nunca parou na busca para realizar seus sonhos".

Sophia finalizou com um apelo emocionante: "Gostaria que todos fechassem os olhos e visualizassem Julieta subindo por essa rua. Ela vem sorrindo porque sabe que sua jornada não terminou. Ela continua vivendo em cada menino, em cada menina, em cada avó que encantou naquele povoado remoto. Continua vivendo em cada sonho, em cada sorriso, em cada luta por causas justas. Viva Julieta para sempre!".

A luta por justiça continua

O advogado Carlos Nicodemos, que representa o caso através da União Brasileira de Mulheres (UBM), esclareceu que a luta não é por vingança, mas por justiça. O caso foi declarado como latrocínio, mas a defesa recorreu para que seja reconhecido como feminicídio.

"O caso retrata um estado de pandemia sobre o feminicídio no Brasil e no Amazonas em especial. Quando se reclama e reivindica que o caso seja classificado como feminicídio, não é apenas por uma pena, mas é para que se possa descortinar uma realidade muito dura de violência institucional de gênero contra as mulheres e para que se possa exigir a criação de políticas públicas efetivas de proteção", explicou Nicodemos.

O advogado denunciou que o crime de estupro foi apagado e banalizado no processo judicial, e que o município de Presidente Figueiredo, reconhecido como polo ecoturístico, opera contra a justiça no caso. "Houve uma violência do sistema de justiça local com todos os seus atores — juízes, promotores, defensores — que operam o sistema sem aquilo que a lei determina como protocolo com a perspectiva de gênero, convertendo o que é um crime de violação dos direitos humanos em um crime com contorno material, de roubo, de latrocínio, numa estratégia de camuflar a realidade do estado do Amazonas".

A equipe jurídica também ingressou com uma ação contra o proprietário do local onde ocorreu o assassinato, com o objetivo de expropriar o bem e dar-lhe um destino que sirva como referência de resistência. "Não é responsabilizar somente aqueles que brutalmente mataram diretamente Julieta Hernández, mas um Estado omisso que não delibera políticas públicas de proteção dos direitos das mulheres", enfatizou.

Vozes pela memória e pela luta

Vanja Andrea, presidente da UBM, enviou uma declaração lida durante o evento: "Julieta não é apenas um nome, é um símbolo de todas as mulheres que foram e continuam sendo vítimas da violência e da opressão. Não podemos mais aceitar que a vida de uma mulher seja tratada como descartável. É hora de dizer basta ao machismo, basta ao patriarcado, basta à violência contra as mulheres".

Ana Luísa Cardoso de Carvalho, a palhaça Margarita, pioneira da palhaçaria feminina no Brasil, junto a Glaucy Fragoso representaram as palhaças de todo o país: "Em nome de várias palhaças do Brasil todo, sempre temos feito atos por Justiça para Julieta. A Julieta é um exemplo para a gente. Viva as palhaças! Viva a arte da palhaçaria!".

Yelitza Lafont, vice-presidente da ONG Venezuela Global, alertou sobre a gravidade do crime e a necessidade de combate à impunidade. "Amanhã pode ser com qualquer mulher do nosso convívio, seja uma filha, irmã ou vizinha". Ao enfatizar a injustiça do caso, Lafont traçou um paralelo pessoal com Julieta, ressaltando que, assim como a vítima, ela também é uma mulher venezuelana dedicada às artes e à educação infantil.

Shantal Carvalho refletiu sobre o legado da amiga: "Na trajetória da Julieta, os atos de bondade foram muito maiores do que a violência. Foi um ato extremo de violência. Mas um único ato em meio a uma rede de solidariedade. A mensagem que fica é essa. Não vou deixar de fazer o que quero. Vou continuar a viajar pelo caminho do amor. Coragem não é não ter medo. Coragem é ir com medo. O medo não pode nos imobilizar". A artista Viviane Rodrigues, também presente, compartilhou várias memórias da amiga.

"Julieta, dona do seu nariz"

"Mariana Medina, circense e pesquisadora da UFF, fez uma leitura contundente durante o evento: "Julieta, dona do seu nariz, Julieta Hernández, veterinária, artista de rua cicloviajante e morta. Essa mulher que rodou de bicicleta regiões do Brasil onde muitas pessoas talvez nunca tivessem vivenciado uma experiência artística, com seu nariz vermelho, espalhando humanidade e deixando rastros de esperança."

Mariana denunciou: "Passados dois anos, o caso ainda segue na justiça. A única Vara judicial de Presidente Figueiredo insiste em não reconhecer o crime como feminicídio. Diante dessa negativa, a família, a classe artística, os movimentos sociais e diversos coletivos se uniram nessa causa. O que não falta são motivos para se comover com essa tragédia, singular, porém cotidiana, que assola a América Latina há 500 anos".

"Lutamos para que sua memória não apague os corações da história, para que seu modo de vida seja honrado e seu modo de morte não seja sensacionalizado. A palhaça, dona do seu nariz, foi abrindo caminhos para outras formas de re-existir, atravessou fronteiras espaciais e simbólicas, produziu com seu desejo, entusiasmo, afeto e esperança novas e velhas formas de viver por onde passou.

“Julieta tinha como lema: minha casa é o movimento. Com seu corpo na rua, a moça do circo enfrentou os instituídos mais poderosos do nosso tempo trilhando a estrada da coragem junto a tantas outras Marias e Marielles", concluiu Mariana.

Martina Carvalho fez um apelo final aos presentes: "Levantem suas vozes, não deixem o medo silenciar vocês, mulheres. Viva Julieta! O amor é uma grande força, o amor é movimento. Então, não deixem ninguém dizer para vocês o contrário, acreditem no amor".

Um símbolo de resistência

O mural traz a inscrição: "Julieta para Sempre - Celebração da vida de Julieta Hernández, artista cicloviajante venezuelana. Por uma vida digna, livre e sem violência para todas as meninas e mulheres". A obra se tornou um marco no bairro onde Julieta viveu momentos felizes, pedalando com sua bicicleta laranja nomeada Carnavalita pelas ladeiras cariocas.

A inauguração terminou com música, poesia e o grito coletivo: "Julieta, presente, hoje e sempre! Mulheres vivas!". O mural permanece como testemunho de uma vida dedicada à arte, ao amor e à liberdade, e como chamado permanente à luta contra a violência de gênero.

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