Pouca gente presta atenção ou se dá ao trabalho de questionar, mas os nomes das ruas da cidade podem trazer muitas surpresas e informações. Foi atento a essas peculiaridades em algumas ruas da Vila da Penha, bairro da zona norte carioca, que o diretor Sergio Kauffmann começou a idealizar o que viria a ser “Nas ruas ao redor”, espetáculo inédito que estreia dia 06 de março, às 20h, no Teatro Ziembinski, na Tijuca. Rua da Coragem; Rua da Justiça; Rua da Tranquilidade; Travessa da Bondade; Rua da Inspiração e Rua da Brandura são apenas alguns dos locais em cujas encruzilhadas poéticas se esbarrarão os personagens da montagem, que conta ainda com músicas autorais sob Direção Musical e Trilha Sonora de Rafael Lorga. A temporada de estreia da peça é viabilizada pelo edital Pró-Carioca, programa de fomento à cultura carioca, da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, através da Secretaria Municipal de Cultura.
“Nas Ruas ao Redor é um espetáculo que tem como ponto de partida ruas de nomes poéticos de um bairro do subúrbio carioca. A partir delas, apresenta personagens que habitam esses espaços, situações fantásticas e reflexões sobre a relação com um território em constante transformação. A narrativa se constrói com forte presença da musicalidade - em diálogo direto com a relação do elenco com a música - e com humor, atravessada pela experiência do grupo em palhaçaria e jogo cômico”, ressalta Sergio, nascido e criado na região, e o responsável pela direção de Jef Lyrio, Laura de Castro, Roberto Rodrigues, Sara Hara e Vânia Gomes, o elenco em cena.
Mas engana-se quem acha que, pelo recorte, a montagem fale sobre algo para os que conhecem a região. Afinal, como já escreveu León Tolstói, “fale de sua aldeia e estará falando do mundo”. “Ouvi algumas pessoas se surpreenderem: ‘mas uma peça sobre a Vila da Penha?’. Como se houvesse um questionamento implícito sobre a potência artística que poderia emergir desse território. A peça parte de um território específico, mas trabalha com experiências que não são exclusivas dele: memória, pertencimento, medo, desejo, transformação, convivência. Mesmo quem nunca esteve no bairro reconhece esses afetos. O espaço funciona como ponto de partida, não como limite - o que está em cena são relações humanas que atravessam qualquer cidade”, pontua Kauffmann.
O espetáculo faz com que o público se conecte a ele não pelo mapa, mas pela escuta: as vozes, as contradições, os personagens e situações que poderiam existir em muitos outros lugares. E é assim que, ao mergulhar profundamente em um lugar, a peça convida a plateia a olhar para seus próprios territórios com mais atenção e poesia. As ruas da peça, por exemplo, funcionam como um eixo dramatúrgico a partir do qual são abertas determinadas histórias. Deste modo, a dramaturgia articula distintos modos de percepção do bairro.
“Embora o mote inicial tenha sido proposto por mim, a elaboração dramatúrgica aconteceu de forma coletiva, desenvolvendo-se na sala de ensaio, nas visitas à região e, sobretudo, a partir das contribuições de Elisa Ottoni, nossa dramaturga, que auxiliou na organização das ideias e na estruturação das situações que nos atravessaram ao longo do percurso criativo. A partir dessa experiência dramatúrgica viva - criada e elaborada em sala de ensaio - iniciamos a composição de músicas autorais que atravessam alguns dos temas da peça”, resume Sergio.
O fato de grande parte do elenco possuir uma relação profunda com a música fez com que esse campo também fosse explorado na montagem, fazendo com que o espetáculo incorporasse canções próprias: temas associados a determinados personagens e situações que conduzem a narrativa. O ator e músico Rafael Lorga é o criador da maior parte dessas composições, em parceria com Elisa Ottoni nas letras. Ator da peça, Jef Lyrio é também compositor e contribuiu com colaborações que ampliaram ainda mais esse universo sonoro.
“Evito dizer que esta peça é sobre o subúrbio carioca. Compreender essa complexidade é fundamental para escapar da visão generalista que frequentemente associa o subúrbio a espaços degradados e perigosos, como se a cidade ‘verdadeira’ pulsasse apenas em outro lugar. Esse discurso aparece, inclusive, entre moradores do próprio bairro — e aí se revela mais uma camada dessa complexidade. O espetáculo valoriza e reverencia presenças que suspendem a rotina cotidiana e instauram outras temporalidades — figuras que promovem rupturas no ritmo habitual do bairro e que, por meio de seus modos de vida, produzem formas alternativas de convivência e reinventam a relação com o território”, observa o diretor e idealizador da montagem.
Buscando radicalizar a experiência de um bairro em transformação, a peça evidencia um problema recorrente: o esvaziamento das ruas e o receio de ocupar o espaço público, reflexo dos impasses de uma cidade historicamente mal resolvida com a segurança pública, atravessada por violências e corrupções. “Trazemos à tona histórias esquecidas e memórias soterradas e elaboramos um espetáculo cuja encenação avança até a imagem de um bairro cru, esvaziado dos elementos que fazem uma rua ser rua: a vida, as pessoas e seus afetos; as presenças, os encontros e a memória”, encerra Sergio Kauffmann.
SERVIÇO
“NAS RUAS AO REDOR”
Temporada: 06 a 29 de março
Horário: Sextas-feiras e sábados às 20h e domingos às 19h
- Nos sábados 14 e 21 de março haverá sessão com libras e audiodescrição -
Ingressos: na bilheteria do teatro, de terça a domingo de 14 às 20h
Ingressos R$ 30,00 inteira R$ 15,00 meia
Link de venda de ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/116859
Local: Teatro Ziembinski
Endereço: Praça Urbano Duarte, s/n – Tijuca
Classificação Indicativa: Livre
Duração: 70 minutos
Instagram: @nasruasaoredor