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Cinquenta anos depois

Herdeiros de Tenório Júnior recebem objetos que pianista levava quando sequestrado por agentes de ditadura

Figura central do samba-jazz, pianista desapareceu em Buenos Aires, dias antes do golpe militar na Argentina


Passados cinquenta anos do desaparecimento e morte do pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior em Buenos Aires, seus familiares, autoridades do Brasil e da Argentina farão um ato em memória do músico nesta quarta-feira (25/03), às 16h, no Rio de Janeiro, na sede do Ministério Público Federal (MPF) na 2ª Região. Na cerimônia será realizada a entrega de objetos pessoais que Tenório Jr. carregava quando do seu desaparecimento a seus filhos e netos.

O evento, que é organizado pela Comissão de Mortos e Desaparecidos e pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão no Rio de Janeiro, terá a participação de entidades que lutam por memória e verdade, dos familiares de Tenório Jr. e procuradores da República que atuaram na temática de justiça de transição.

Mulher e filhos de Tenório Júnior, pianista sequestrado e morto por agentes da Operação Condor em 1976, buscaram o encontro e reconhecimento do corpo por meio século, até que levantamento da Procuraduría de Crímenes contra la Humanidad trouxesse pistas em 2025. Foto: Acervo Pessoal

Considerado um dos músicos mais brilhantes de sua geração, Tenório Jr. era figura central do samba-jazz, tendo colaborado com nomes como Milton Nascimento e Gal Costa. Autor do disco “Embalo”, o pianista estava no auge da carreira quando, em março de 1976, durante uma turnê com Vinícius de Moraes e Toquinho, saiu do hotel para comprar um lanche e foi interceptado pela repressão argentina. Sua morte tornou-se um dos casos mais emblemáticos da Operação Condor, ilustrando a violência de ditaduras na América Latina. O episódio inspirou o cineasta espanhol Fernando Trueba a dirigir a animação 'Atire no Pianista'.



Por ocasião da descoberta do corpo e das circunstâncias da morte do músico, ano passado, a Comissão divulgou uma nota oficial sobre o incidente, resumindo as informações recebidas das autoridades argentinas:

"A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) informa que foi comunicada pela Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), a descoberta das circunstâncias da morte e o destino do corpo do pianista Francisco Tenório Cerqueira Júnior, brasileiro, desaparecido em Buenos Aires no dia 18 de março de 1976, por meio do processo de datiloscopia, ou seja, de comparação de digitais humanas.


Francisco Tenório Júnior, na década de 1970 já era um dos pianistas mais respeitados por seus pares no Brasil, participando de vários festivais e turnês no país e no exterior, além de ter trabalhado com grandes nomes da música brasileira. No ano de 1976, Tenório acompanhava os músicos Toquinho e Vinícius de Moraes em uma turnê pela América do Sul, que contava com shows na Argentina.


Na madrugada do dia 18 de março, poucos dias antes do golpe de estado que derrubaria María Estela Martinez Perón da presidência da Argentina e instalaria uma ditadura militar no país, Francisco Tenório saiu de madrugada do Hotel Normandie em que estava hospedado e nunca mais foi visto com vida.


Contudo, o levantamento feito pela Procuraduría de Crímenes contra la Humanidad argentina, de ações judiciais iniciadas na província de Buenos Aires, entre 1975 e 1983, em virtude de cadáveres encontrados em vias públicas que foram arquivadas sem que a identidade das vítimas fosse determinada, possibilitou a análise das informações, com o objetivo de investigar se tais casos poderiam estar relacionados aos de pessoas mortas e desaparecidas pela violência estatal argentina.


Assim, a partir do trabalho de investigação da EAAF, por ordem da Cámara Federal de Apelaciones en lo Criminal y Correccional de la Capital Federal de Buenos Aires, foi possível estabelecer a confirmação da morte e o destino do corpo de Francisco Tenório Cerqueira Júnior, após a comparação das impressões digitais de um cadáver de um homem morto por disparos de arma de fogo, encontrado em um terreno baldio na região de Tigre, próxima a Buenos Aires, no dia de 20 de março de 1976. Não se sabe ainda se será possível exumar o corpo do Cemitério de Benavídez, na capital argentina, para comparação de amostra genética.


A CEMDP vem acompanhando esse caso e outros relacionados à denominada Operação Condor, por meio de seu integrante Ivan Marx, sendo que previamente já havia estabelecido procedimento próprio da CEMDP com o objetivo de coletar os dados datiloscópicos dos desaparecidos políticos brasileiros em outros países, bem como as amostras sanguíneas de seus familiares, para envio e intercâmbio junto as autoridades dos locais de desaparecimento, com finalidade de realizar descobertas como a do presente caso.


Ainda, a CEMDP ressalta que após o recebimento da notificação da EAAF, prontamente procurou e comunicou a família e segue à disposição para oferecer todo o apoio necessário aos familiares neste processo, assim como de colaborar com os esforços e diligências com vistas à localização dos remanescentes humanos do artista brasileiro, vítima da violência política de Estado na América Latina, Francisco Tenório Cerqueira Júnior."

Ato em Memória de Tenório Jr.

Data: 25/03 (quarta-feira)

Horário: 16h

Local: Sede do Ministério Público Federal na 2ª Região

Endereço: Av. Almirante Barroso, 54, Centro, Rio de Janeiro/RJ

Para mais informações: cg.cemdp@mdh.gov.br | (61) 2027-3368

Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro

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