Foto: Tomaz Silva
Médicos plantonistas de dois setores do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB), na Zona Norte do Rio de Janeiro, deflagram greve parcial das atividades nesta quinta-feira (16). A decisão foi tomada após meses de atrasos e inadimplência no pagamento de salários, sem perspectiva concreta de regularização.
Os profissionais que atuam no CTI-2 e na Recuperação Pós-Anestésica (RPA) informam, em nota, que não recebem pelos serviços prestados desde 19 de janeiro de 2026, quase três meses de atraso acumulado. A unidade está sob gestão do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), sediado em Porto Alegre. Os pagamentos são intermediados pela empresa ANAESP. Segundo os médicos, o GHC alega que os valores teriam sido repassados à intermediária, mas não chegaram aos profissionais.
Durante a greve, os atendimentos a pacientes em estado grave ou com risco iminente de morte permanecerão garantidos, conforme previsto na Lei nº 7.783/1989, que regula o direito de greve nos serviços essenciais.
O CTI-2 e a unidade de pós operatório (UPO) não realizarão admissão de novos pacientes, até a regularização integral dos pagamentos. Os casos serão redirecionados ao CTI-1 ou à UCO. O setor de RPA suspenderá o recebimento de pacientes de cirurgias eletivas sem risco imediato de vida, que deverão cumprir o período de recuperação pós-anestésica dentro da própria sala cirúrgica, com as equipes de anestesia e cirurgia. A paralização impacta transplantes e cirurgias eletivas. Os pacientes oriundos de cirurgias de urgência continuarão sendo atendidos normalmente.
Impasse nos pagamentos
O Sindicato dos Médicos acompanha o caso de perto. Julio Noronha, responsável pelo departamento jurídico da entidade e médico do HFB desde 1978, relata que tentou resolver o impasse diretamente com as partes na sexta-feira (11). Ao ligar para a ANAESP na presença do presidente do sindicato, Alexandre Telles, ouviu da própria responsável pela empresa que os valores não tinham sido recebidos. O GHC, por sua vez, afirma que pagou. Nenhuma das partes apresentou comprovante.
O sindicato informa ainda que vai comunicar o Tribunal de Contas da União sobre a falha do fiscal do contrato. "O sistema estava sem receber desde janeiro e o fiscal já tinha que ter acionado o jurídico do GHC", denuncia o médico.
Noronha relata que o sindicato levou o impasse diretamente à cúpula do GHC. "Nos comunicamos com a presidente do conselho administrativo do Grupo Conceição, Eliane Cruz, e a comunicamos que não vamos aceitar essa história de não pagar os profissionais.", disse.
A situação ganhou um novo elemento na véspera da greve. Um médico gestor do GHC, vindo de Porto Alegre, identificado como Carlos do Bem, enviou mensagem pelo WhatsApp aos plantonistas PJ afirmando que o sindicato iria ao hospital pagar os salários devidos. A informação era falsa. "Foi de uma leviandade. Vários PJs ligaram para o sindicato dizendo que amanhã iam receber. Isso não tem o menor cabimento. Tal situação só poderia acontecer com um alvará judicial", disse Noronha.
Falsa PJotização e alta rotatividade
Além da inadimplência, o modelo de contratação adotado pelo GHC preocupa o sindicato. Os plantonistas são contratados como pessoas jurídicas, mas, na prática, têm ponto, chefe e habitualidade de horário, características de vínculo empregatício.
"Médico PJ com ponto nunca se viu. O profissional contratado como PJ presta um serviço específico, não tem horário fixo, não tem habitualidade, não tem chefe", afirmou Julio Noronha. "Alguns não têm nem contrato. Imagina a zona que está acontecendo lá."
O modelo gera alta rotatividade, problema grave num hospital de alta complexidade. "Se o profissional não gostar, ele sai. Como se mantém a qualidade dos serviços dessa forma?", questionou.
Hospital reformado, alta complexidade destruída
O HFB passou por extensa reforma após um incêndio que danificou parte da estrutura. O governo federal investiu na requalificação e reabriu a emergência com nova aparelhagem. Apesar disso, cerca de 100 médicos plantonistas estão sem receber desde janeiro. Segundo informações, o governo federal teria realizado o repasse de recursos, mas a empresa licitada não transferiu os valores aos profissionais.
Para Noronha, que atua no hospital há quase 50 anos, o problema vai além da inadimplência. O GHC teria desmontado progressivamente o quadro de profissionais experientes que garantia a alta complexidade da unidade.
"A alta complexidade é a experiência, que no Hospital Federal de Bom Sucesso, praticamente acabou com essa quarteirização", afirmou. Como exemplo, citou uma médica estatutária especializada em malformações nefrológicas, com 25 anos de casa, dispensada e substituída por um profissional ainda em residência. Os transplantes renais, que chegavam a 130 por ano, caíram para 100. A Oncologia Clínica, fechada desde 2019, foi prometida pelo GHC quando assumiu a gestão, em outubro de 2024, e ainda não foi reaberta.
Para ampliar os números de atendimento, a direção do GHC teria direcionado a agenda do HFB para realizar procedimentos simples. Em um mutirão de colocação de DIU, relatou Noronha, as pacientes chegaram sem os exames prévios necessários. "Investiram em priorizar procedimentos de baixíssima complexidade para mostrar desempenho e produtividade. Sem preparo nenhum."
"Tudo que você vê em Bom Sucesso é de um amadorismo impressionante. Estão destruindo um hospital que era referência de alta complexidade e colocando em risco a vida da população", denuncia o médico Júlio Noronha.
A avaliação é compartilhada pela Associação dos Servidores do Grupo Hospitalar Conceição (ASERGHC), que publicou em 13 de abril coluna no site Sul21 criticando o modelo de gestão adotado pelo GHC. A entidade aponta indicações político-partidárias para cargos de confiança, ausência de critérios técnicos e avanço de terceirizações e Parcerias Público-Privadas. Na enfermagem, área com maior número de trabalhadores, a ASERGHC descreve remanejamentos constantes sem critérios claros, adoecimento ocupacional e negligência com direitos básicos como espaços de descanso. Em nota publicada nas redes sociais post, resume: "O GHC está doente. Precisamos de gestão profissional."
A entrada do GHC no HFB, em outubro de 2024, foi marcada por tensão. Segundo Noronha, a transição envolveu intervenção da Polícia Federal, uso de gás de pimenta e detenção de funcionários e sindicalistas. “O GHC foi apresentado pelo Ministério da Saúde como a solução para os problemas da unidade.”
Para Noronha, a solução passa por reverter a descentralização. "Precisa acabar com o erro que foi feito, que foi a descentralização do Hospital de Bom Sucesso, que era ligado à Direção Central do Ministério da Saúde e passou para um grupo que não tem a mínima condição", afirmou.
O médico aponta ainda problemas estruturais não resolvidos pelo GHC: irregularidades na compra de materiais, falta de insumos e obras paralisadas, entre elas a subestação elétrica do hospital, considerada prioritária. A ausência da obra deixa a unidade dependente de geradores, cuja situação de locação o próprio sindicato não conseguiu confirmar.
"É criminoso. Padilha e Nísia estão cometendo um genocídio no Rio de Janeiro", afirmou Noronha, em referência ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e à ex-ministra Nísia Trindade.
Outro lado
O Grupo Hospitalar Conceição (GHC) informou que não há comprometimento dos atendimentos assistenciais no Hospital Federal de Bonsucesso (HFB), bem como não há greve na área médica, especialmente no que se refere aos serviços prestados por empresas terceirizadas.
O GHC disse ainda, em nota ao Portal Eu, Rio!, que efetuou o repasse dos valores referentes aos serviços prestados à empresa ANAESP e que, ao tomar conhecimento de que a referida empresa não realizou o pagamento aos médicos atuantes no HFB, adotou todas as medidas administrativas e jurídicas cabíveis, tendo rescindido o contrato com a empresa em 16/04/2026, e na data de 17/04/2026, teve início o da empresa classificada em segundo lugar no certame para fins de contratação..