As fake news não são um fenômeno novo. Boatos e manipulações sempre existiram. Mas a velocidade das redes sociais e a facilidade de produção de conteúdo transformaram a desinformação em um problema global.
Hoje, imagens, vídeos e áudios criados por inteligência artificial tornam ainda mais difícil identificar o que é verdadeiro. O doutor em filosofia Tiago Medeiros explica as principais características das fake news e o contexto que favorece esse tipo de conteúdo:
"As fake news são caracterizadas por transformar fatos em interpretação. O básico é entender que as fake news, elas não prosperam em qualquer contexto, apenas no contexto em que o excesso de informação, ou o excesso de acesso à informação, torna a qualidade da informação um tanto relativizada. Então, sem mediações muito claras e muito bem consubstanciadas do tipo de informação que é veiculada massivamente para o grande público, temos um contexto em que as fake news são possibilitadas. Graças à possibilidade de muita gente produzir conteúdo, e de muitos interlocutores simultaneamente avalizadores de informação e produtores de informação, temos um contexto em que cada notícia veiculável, ela não precisa passar pelo crivo imediato da faticidade. Basta que ela seja plausível, minimamente plausível, para que se possa dizer que temos ali uma notícia. Esse é o terreno em que a fake news é possível. Por isso ela, ela é operada por quem a manipula, a elabora, com vistas a transformar intencionalmente, sobretudo em contexto político, o que são interpretações em fatos", diz.
Nos últimos anos, expressões como pós-verdade e viés de confirmação passaram a fazer parte do debate sobre desinformação. A partir de 2016, com o crescimento das disputas políticas nas redes sociais da internet, o consumo de informação ficou cada vez menos mediado por jornalistas e veículos profissionais.
Segundo Tiago Medeiros, isso contribuiu para a formação de bolhas digitais e para a circulação de conteúdos que reforçam determinadas crenças e opiniões:
"As fake news começam a ser elaboradas como um trunfo, um recurso da comunicação contemporânea nos contextos em que o poder venha a ser objeto imediato de interesse de quem elabora a fake news, né? Então, de 2016 para cá, eu pelo menos consigo notar dois elementos interessantes de transformação. O primeiro é que as fake news não ficaram como que sendo recursos apenas de críticos de governo ou de oposições; elas foram usadas por governos. E agora temos uma apoteose das fake news, que é a era das IAs. Os recursos são variados e é muito fácil você colocar, inventar personagens populares dizendo mentiras na televisão ou nas redes sociais", aponta.
Com a proximidade das eleições, a preocupação com a disseminação de notícias falsas volta a crescer.
A Justiça Eleitoral, plataformas digitais e agências de checagem têm intensificado o monitoramento e as ações de combate à desinformação. Mas o grande desafio ainda está por vir:
"O principal desafio, a meu ver, vai ser justamente esse de, durante o período eleitoral, serem aventadas novas formas de fake news que possam exercer uma influência muito decisiva em momentos muito sensíveis do processo, né? Então, eu creio que se o TSE não se preparar para combater as fake news de IAs com um aparato de IA, porque não tem como ser de outra forma, é IA contra IA, nós estaremos em maus lençóis", fala.
Ouça no Podcast do Eu, Rio! a reportagem da Rádio Educadora FM de Salvador/RadioAgência Nacional sobre o crescimento da deinsofrmação e a indústria das fake news.
O filósofo Tiago Medeiros diz que, mesmo quando uma informação já foi desmentida, muitas pessoas continuam acreditando nela. Para ele, isso tem relação com fatores emocionais, identitários e com a forma como as pessoas constroem suas visões de mundo:
"Nós somos conservadores em relação às nossas crenças. Isso quer dizer que nós não mudamos de crença quando queremos. Nossas crenças não são estados instáveis. Então, se mudamos — e nós mudamos — é com grande sacrifício, com grande dificuldade. Então, para conformar o sistema de crença que nós temos, nós precisamos de uma série de experiências de vida que envolvem convívio, relacionamento, aprendizado. Essas coisas são bem elaboradas, e tem um componente vital nisso que é o da autoimagem: como é que nós nos vemos no mundo. Então, o viés de confirmação surfa numa espécie de onda biológica primitiva do ser humano. Quem manipula isso é como que utiliza desse recurso. Mas essas próprias pessoas são também passíveis de, de reproduzir a mesma condição biológica básica, né? Por outro lado, nós também não somos mônadas fechadas. Há poros em nossa estrutura psíquica que permitem que nós possamos rever os nossos próprios pontos de vista e tal. A questão é saber como jogar o jogo do debate público para favorecer essa porosidade. E o que eu tenho visto é que o nosso debate público não está muito aberto para, não está muito favorável para se desenvolver essas aberturas", completa.
RadioAgência Nacional