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Lixo ameaça recuperação inédita das lagoas da Barra e Jacarepaguá

Biólogo Mário Moscatelli cobra fiscalização e punição contra o descarte irregular de resíduos

Por Luciana Serpa em 22/07/2026 às 15:50:32

Foto: Divulgação/Mário Moscatelli

Dezoito sofás em 58 segundos de vídeo. O registro feito pelo biólogo Mario Moscatelli na última sexta-feira (17), num trecho da Lagoa da Tijuca às margens de Rio das Pedras, correu as redes sociais e documentou, mais uma vez, o descarte irregular de resíduos no Complexo Lagunar da Barra e Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio.

Em entrevista ao Portal, Eu Rio! nesta terça (21), Moscatelli faz uma ressalva importante: o vídeo não retrata o pior momento das lagoas, e sim o que ainda resta de um problema que já foi muito maior. “Destaco que não é ápice. A situação era bem pior há quatro anos atrás, quando não tínhamos qualquer expectativa de melhora do quadro ambiental do sistema lagunar”, afirma.

A virada, segundo o biólogo, tem data e origem. “A situação começou a melhorar com o novo marco do saneamento e quando a nova concessionária (Iguá) iniciou o investimento de 250 milhões de reais no passivo ambiental existente, fruto de cinco décadas de degradação contínua e crescente.”


Área de manguezal protegida por tela visando evitar o aporte de lixo

“Um momento único, jamais visto no sistema lagunar”

Moscatelli acompanha as lagoas desde 1992 e enquadra o presente como algo sem precedentes. “Vivemos atualmente um momento único, jamais visto no sistema lagunar, onde nem os jogos Pan-Americanos e tampouco as Olimpíadas foram capazes de materializar os tais legados ambientais prometidos”, diz. “Antes do novo marco do saneamento, era da UTI para o necrotério.”

Hoje, afirma, o quadro é outro. “Vivencio mudanças claramente positivas por conta da recuperação dos manguezais, dragagens e ampliação da rede coletora de esgoto".

O lixo, no entanto, resiste como o problema não resolvido. “O aporte de lixo continua um problema ainda não equacionado e que compromete os esforços em desenvolvimento”, pondera. Entre o que continua chegando às lagoas, o biólogo enumera “muito lixo doméstico e todo tipo de resíduo (sofás, geladeiras, caixa d’água, máquinas de lavar, pneus, jacuzzi)”.


O estrago, alerta Moscatelli, se espalha por toda a cadeia. “Esse aporte de resíduos somado ao aporte de sedimentos agravam o processo de assoreamento das lagoas, aumentando a vulnerabilidade de inundações, proliferação de vetores de doenças diversas, perda de biodiversidade, perda de qualidade de vida, perda econômica da região. Enfim, se perde tudo que a região, com seus ecossistemas, tem a oferecer.”

Lagoa da Tijuca concentra o resíduo de toda a bacia

Questionado sobre qual área do complexo é a mais crítica, Moscatelli é direto. “A Lagoa da Tijuca é a área mais crítica, pois é onde fica depositado todo o resíduo que vem de toda a bacia hidrográfica da região".

A origem do lixo, porém, não se resume a Rio das Pedras. “São várias as origens dos resíduos, associadas diretamente aos principais rios e canais da região”, afirma o biólogo, que cita o Arroio Fundo, o Arroio Pavuna, o Arroio Pavuninha, o Canal do Anil, o Rio das Pedras e o Rio Itanhangá. Todos, segundo ele, recebem descarte principalmente das grandes favelas instaladas junto à bacia hidrográfica local.

350 toneladas retiradas e 7 km de cercas

Consultor do projeto da Iguá para os manguezais, Moscatelli contabiliza o resultado do trabalho e rebate quem enxerga apenas um esforço inútil. São “350 toneladas removidas nos últimos três anos e meio. De forma alguma estamos enxugando gelo. Essas 350 toneladas estavam depositadas dentro dos manguezais e de lá nunca mais sairiam, degradando os manguezais existentes”, afirma.

Além da limpeza, o biólogo aponta a proteção física do ecossistema e a recuperação dos manguezais. “Além de limpar os manguezais, promovendo sua recuperação natural e induzida, temos 7 km de cercas que impedem a chegada de novos resíduos. Portanto, o que fizemos e fazemos é manter o inimigo sob controle nas áreas de manguezal, sendo que fora do ecossistema continuamos sendo bombardeados.”

Para atacar o acúmulo de resíduos concentrados fora dos manguezais, uma nova frente começa a sair do papel. “Já está em andamento uma parceria entre a Iguá e a Comlurb visando a instalação de um ecoponto na Lagoa do Camorim, para que uma embarcação da Comlurb inicie a limpeza do espelho d’água”, detalha Moscatelli.

O trabalho vai além da retirada de resíduos. Inclui a produção de mudas e a criação de novas áreas de manguezal. Parte dos trechos já recuperados integra o Parque Perilagunar do Camorim, recém-criado pela Prefeitura do Rio.

As dragagens avançam na Lagoa da Tijuca e, mais recentemente, na de Jacarepaguá, e já produzem sinais concretos. “Alguns resultados qualitativos já começam a surgir referente à presença de tainhas em áreas que até pouco tempo atrás nem pensavam em aparecer”, analisa.


Produção de mudas e criação de novas áreas de manguezal

Prazo pessoal: 2030

O biólogo estabelece um horizonte para colher resultados, deixando claro que é uma leitura própria. “Eu dei um prazo para as minhas observações. Destaco que é um prazo particular, de quem vive o sistema lagunar desde 1992”, afirma.

“Espero ter resultados qualitativos consolidados por avaliações quantitativas em andamento em 2030, quando considero que as dragagens, recuperação e criação de manguezais, bem como o combate ao aporte de lixo, deverão gerar resultados inequívocos da melhora”, projeta.

Para sustentar a virada no longo prazo, Moscatelli defende ações estruturais e cobra continuidade. “Estruturalmente são várias ações: ordenação do uso do solo, políticas habitacionais para a baixa renda, educação de boa qualidade e gestão ambiental permanente dos ativos ambientais.”

O obstáculo, na avaliação do biólogo, é político. “São ações que dependem de políticas de Estado permanentes, levando em conta um horizonte de 20 a 30 anos para que tenhamos resultados palpáveis, coisa que na visão política atual é praticamente uma blasfêmia. Gestão ambiental exige políticas de Estado, coisa que eu nunca vi no Brasil, onde a descontinuidade é a regra"..

“O tempo acabou”

Moscatelli reconhece a educação ambiental como parte da solução, mas alerta que esta medida cobra um recurso que, segundo ele, o país desperdiçou. “Educação ambiental é um ótimo remédio, com resultado permanente, mas que exige tempo, produto que desperdiçamos nos últimos trinta anos de avisos permanentes da crise climática que vivenciamos.”

Por isso, defende ação imediata. “Além da educação de boa qualidade, precisamos agir agora, tanto por limpeza, campanhas educativas e fiscalização com punição. Não há mais tempo para colocar a responsabilidade nas futuras gerações. O tempo acabou.”

Questionado sobre o que pediria ao poder público. Moscatelli repete a receita e crava onde está o gargalo. A lista inclui “ordenação do uso do solo, políticas habitacionais, educação de boa qualidade, fiscalização e punição dos delinquentes ambientais, sejam eles ricos ou pobres, e gestão ambiental permanente. É preciso pressão da sociedade, vontade política e muito trabalho. Dinheiro não falta, disso eu tenho absoluta certeza.”

O recado final vale para toda a cidade. “Abusamos de todas as formas e intensidades dos recursos naturais da cidade do Rio de Janeiro. Aumentamos a vulnerabilidade ambiental natural da cidade ao extremo. Vivemos sob inúmeras bombas-relógio socioambientais prestes a explodir”, afirma.


Para Moscatelli, o tempo de adiar soluções se esgotou: “O tempo da enrolação acabou, e o ambiente está cobrando cada vez mais a promissória ambiental vencida. Menos conversa, menos promessas de palanque, menos festa e muito mais trabalho de correção e principalmente de prevenção, pois a paciência do planeta acabou e daqui para frente vamos colher o que plantamos em termos de degradação.”

O biólogo Mario Moscatelli encerra a entrevista com uma advertência. "A natureza não se protege. Se vinga."

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