O Cine Íris abre parte de sua história ao público. De segunda a sábado, das 9h às 11h, antes das sessões regulares, o cinema da Rua da Carioca, nº49, no Centro do Rio, oferece visitas guiadas gratuitas por espaços que preservam marcas de mais de um século de transformações culturais da cidade.
A entrada é gratuita, com possibilidade de contribuição voluntária. Segundo o administrador Marcelo Argileu, bisneto do fundador, João Cruz Júnior, o projeto ainda está em fase inicial e deve crescer gradualmente. “A ideia é conhecer o prédio como um todo, ter essa oportunidade de ver”, explica.
O percurso inclui o salão, as sacadas internas, as escadarias, a antiga sala de projeção e o espaço onde funcionava o elevador. Segundo Teresa Cristina Repsold Paixão, prima de Marcelo e integrante da família ligada ao Íris, o edifício guarda ainda estruturas como fosso de orquestra, coxia e camarim, além de antigos camarotes e frisas, atualmente desmontados e preservados. Alguns acessos são mantidos restritos para proteger as estruturas históricas.
A intenção é que, futuramente, a experiência seja acompanhada por exibições de filmes relacionados aos primeiros anos do cinema, incluindo produções mudas e obras de Charlie Chaplin.
Para Teresa, abrir o prédio à visitação permite revelar características que passam despercebidas por quem conhece o local apenas como sala de cinema. Ela o define como “um mini-Teatro Municipal” e destaca, entre outros elementos, os espelhos franceses, a escadaria e uma abóbada de vidro no pavimento superior. “É isso que a gente quer: que o jovem acredite que esse espaço pode ser dele também”, afirma.
Um cinema que aprendeu a se transformar
Ao longo de sua trajetória, o Cine Íris acompanhou mudanças nos hábitos do público e nas formas de consumir entretenimento. A programação também se transformou. Teresa recorda períodos em que o cinema recebia famílias, exibia filmes de faroeste e promovia sessões especiais. Mais tarde, as produções destinadas ao público adulto ganharam espaço. “Foi-se buscando fazer coisas para manter o local aberto”, resume.
Essa capacidade de adaptação nunca ficou restrita às telas. A estrutura do Íris permitiu que o prédio recebesse bailes de carnaval, festas, shows e outras apresentações. Entre os artistas que passaram pelo local estão o ator, diretor e dramaturgo Procópio Ferreira, o pianista Arthur Moreira Lima, Gonzaguinha e, décadas mais tarde, a banda Los Hermanos.
Teresa ressalta que essa vocação permanece até hoje e destaca a versatilidade do prédio. “Lá dá para fazer quase tudo em termos de evento: show, filme, teatro, concerto, até happy hour. Dá para fazer um pouco de tudo. É um espaço com muitas possibilidades de aproveitamento”, afirma.
A lembrança que guarda do passado ajuda a dimensionar o lugar que o cinema já ocupou na região. “O Cine Íris era a menina dos olhos da cidade”, define Teresa. Ela associa esse prestígio também ao cuidado dedicado à estética do edifício desde sua origem. “Meu bisavô gostava muito de beleza, muito de arte. O cinema tinha a escadaria e as janelas enfeitadas com flores. Ele queria sempre muita beleza.”
Com o passar das décadas, as mudanças tecnológicas e a própria transformação da dinâmica do Centro também atingiram o Íris. Teresa cita a chegada do videocassete e, mais recentemente, do streaming. Na avaliação dela, o esvaziamento da região e a percepção de falta de segurança, principalmente à noite, reduziram o movimento e tornaram mais difícil atrair público e produtores para atividades noturnas.
Ela recorda uma época em que o Centro fazia parte do roteiro de lazer dos cariocas, com famílias circulando pela região, frequentando lugares tradicionais, como a Confeitaria Colombo, e indo ao Cine Íris.
Resistência, convivência e novos públicos
A programação adulta se tornou importante para a continuidade das atividades e aproximou o Íris de um público que também faria parte de sua história. Marcelo afirma que o cinema passou a ser frequentado por parte da comunidade LGBTQIA+, especialmente em uma época em que havia menos espaços de convivência e maior necessidade de discrição. “O que manteve o cinema aberto foi o pornô. Era um público que buscava seus redutos [...] O cinema acabou se tornando um ponto de frequência desse público”, conta.
Essa relação também aparece nas lembranças de Neyde Brilho Cruz, de 94 anos, mãe de Teresa e uma das integrantes da família que estiveram à frente do cinema. Ao recordar antigos carnavais na Rua da Carioca, ela conta que chegou a desfilar fantasiada de Carmen Miranda ao lado de travestis que frequentavam a região. A memória revela uma interação que fazia parte também da vida cultural em torno do cinema.
Décadas depois, a necessidade de discrição ainda é percebida por parte dos frequentadores. Segundo Marcelo, alguns preferem entrar no Íris de maneira reservada. Por isso, afirma, as obras de revitalização da Rua da Carioca tiveram impacto temporário no movimento: a presença de trabalhadores e a maior exposição da entrada teriam afastado alguns clientes durante as intervenções.
Apesar disso, a expectativa da família é de que as mudanças na rua resultem em maior circulação quando estiverem consolidadas. “Hoje, a gente acredita que, com essa transformação para a Rua da Cerveja vai dar mais vida”, afirma Teresa.
Preservar para continuar
Manter um prédio centenário em atividade também impõe desafios. Para Teresa, a permanência do Cine Íris está diretamente ligada à decisão da família de preservar um patrimônio que atravessa gerações e acredita que seu bisavô esteja orgulhoso da família. “História não se apaga. E a luta para manter um lugar tão bonito também não se apaga. Ela tem que passar de geração a geração”, afirma.
Hoje, uma das dificuldades é financeira. Marcelo conta que o cinema já viveu períodos de maior prosperidade, mas que a realidade atual é diferente. “O cinema já deu bastante dinheiro, sustentou a família toda. Hoje já não dá”, diz.
Teresa reforça que a receita atual não é suficiente para remunerar os sócios. Por ser tombado, o imóvel exige cuidados específicos nas intervenções e na manutenção. A administração também enfrenta etapas burocráticas relacionadas à documentação e à regularização, que, segundo a família, estão sendo resolvidas.
A administração busca agora conciliar as novas iniciativas com a programação atual. Além das visitas guiadas, pretende retomar com maior frequência eventos e apresentações. “Eu não posso trocar o certo pelo duvidoso. Vou fazendo as coisas meio que em paralelo”, explica Marcelo.
A tentativa de renovação ocorre no mesmo momento em que a Prefeitura do Rio anuncia ações voltadas aos cinemas de rua. Lançado neste mês, o Reviver Cinema prevê a recuperação e reativação de antigas salas de exibição em diferentes regiões da cidade. Apesar da proximidade entre as propostas, Marcelo afirmou à reportagem que desconhecia o programa e que, até o momento da entrevista, não havia recebido contato relacionado à iniciativa.
Enquanto a Prefeitura tenta recuperar salas que desapareceram ao longo das últimas décadas, o Íris enfrenta um desafio diferente: encontrar caminhos para manter em atividade um cinema que chegou aos 117 anos sem perder as características que atravessaram sua história.
Talvez por isso, quando perguntada sobre como definiria a trajetória do Cine Íris, Teresa tenha escolhido uma palavra que mistura persistência e afeto: “teimosia.”