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CIÊNCIA E INOVAÇÃO

Unicamp desenvolve corante azul natural a partir da mistura de café verde com leite de amêndoas

Descoberta acidental deu origem a uma tecnologia que pode substituir corantes sintéticos nas indústrias alimentícia, farmacêutica e cosmética; pesquisa já teve pedido de patente depositado.


Foto: Divulgação

Uma combinação inusitada entre compostos do café verde e leite de amêndoas levou pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a desenvolver um corante natural de tonalidade verde-azulada. A descoberta, realizada na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), em Limeira, pode representar uma alternativa aos corantes sintéticos e contribuir para um dos principais desafios da indústria: produzir pigmentos azuis de origem natural com maior estabilidade e potencial de aplicação comercial.

A tecnologia surgiu por acaso durante uma pesquisa sobre a estabilidade do ácido clorogênico, composto fenólico presente no café verde e na erva-mate. O estudo era conduzido pela engenheira de alimentos Monique Martins Strieder, durante seu estágio de pós-doutorado, com participação do pesquisador Felipe Sanchez Bragagnolo e sob coordenação do professor Mauricio Ariel Rostagno.

A equipe pretendia enriquecer a bebida vegetal com o composto, conhecido por suas propriedades bioativas. Após sete dias de testes, porém, os pesquisadores observaram uma mudança inesperada de cor na mistura.

“Eu vi uma bebida azul e pensei: que estranho, o que é isso?”, recorda Monique Martins Strieder.

A partir da observação, os cientistas investigaram o fenômeno e identificaram a formação de uma nova classe de compostos responsáveis pela coloração verde-azulada. O resultado já motivou o depósito de um pedido de patente, com apoio da Agência de Inovação Inova Unicamp.

Reação química explica a formação do pigmento

A coloração resulta de uma reação entre os compostos fenólicos do café verde ou da erva-mate e as proteínas vegetais presentes na bebida de amêndoas. Segundo os pesquisadores, a leve alcalinidade dessa bebida, cujo pH foi medido em 7,88, favorece a oxidação dos compostos e a formação de substâncias denominadas tri-hidroxibenzacridinas.

Esses compostos são responsáveis pelo surgimento da tonalidade verde-azulada e dependem de uma combinação específica de ingredientes e condições de extração para serem produzidos.

“O interessante dessa tecnologia é que ela surgiu de uma casualidade: a gente não esperava que se formasse essa cor, porque o objetivo era enriquecer o leite de amêndoas com o ácido clorogênico”, afirma o professor Mauricio Ariel Rostagno.

Estabilidade pode favorecer aplicações industriais

Um dos principais diferenciais do novo corante é sua estabilidade em condições que costumam representar dificuldades para pigmentos azuis naturais. Muitos desses compostos perdem intensidade ou se degradam durante processos industriais, como pasteurização e esterilização, enquanto outros dependem de ambientes ácidos para preservar a coloração.

Nos testes realizados pela equipe da Unicamp, o pigmento manteve a estabilidade em pH próximo ao neutro e resistiu ao tratamento térmico de 80 °C durante três minutos. Também foi possível transformá-lo em pó por meio da liofilização, processo de desidratação realizado em baixas temperaturas, sem perda da coloração.

Os pesquisadores observaram ainda que a intensidade da cor aumenta ao longo das primeiras 24 horas de reação, até atingir uma condição de estabilidade.

Nos testes de aplicação, o corante apresentou bom desempenho no leite, com manutenção da cor por mais tempo. No iogurte, houve uma pequena alteração de tonalidade, possivelmente relacionada à acidez do produto. Na água, apesar da formação da cor, o pó apresentou dificuldades para se dissolver completamente.

Para superar essas limitações, a equipe pretende investigar técnicas de microencapsulação e nanoemulsão, que podem melhorar a solubilidade e a estabilidade do pigmento, além de ampliar os testes para outros alimentos.

“Vamos usar essas técnicas para tentar melhorar a solubilidade e a estabilidade do corante, para aplicá-lo em diferentes produtos”, explica Monique Martins Strieder.

Corantes azuis naturais são desafio para a indústria

A produção de pigmentos azuis a partir de fontes naturais é considerada um desafio tecnológico devido à escassez de alternativas estáveis, acessíveis e adequadas à fabricação em larga escala.

Entre as opções existentes está a ficocianina, pigmento extraído da microalga espirulina, cuja utilização pode envolver custos elevados de purificação. Outras alternativas enfrentam limitações de disponibilidade comercial ou dependem de determinados componentes, como sais de alumínio.

A tecnologia desenvolvida na Unicamp busca superar parte dessas barreiras ao utilizar matérias-primas vegetais amplamente conhecidas e dispensar o emprego de metais e etapas de purificação do pigmento.

“Vejo como grande vantagem desse novo processo o uso do café verde, que é produzido em escala mundial, e da bebida de amêndoa, que também não teria dificuldade nenhuma de ser produzida em qualquer lugar”, destaca Rostagno.

A pesquisa também acompanha uma tendência internacional de busca por alternativas aos corantes sintéticos, impulsionada pela pressão por ingredientes de origem natural e pela preocupação com possíveis efeitos adversos de determinados aditivos. Entre os mercados interessados estão os setores de alimentos, medicamentos e cosméticos, que procuram desenvolver produtos com formulações de perfil clean label, ou seja, com ingredientes considerados mais simples e reconhecíveis pelos consumidores.

Apesar do potencial, a nova tecnologia ainda precisa avançar em etapas de aprimoramento, testes e desenvolvimento para ampliar suas possibilidades de aplicação industrial.

Patente abre caminho para transferência tecnológica

O pedido de patente foi encaminhado ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) com apoio da Inova Unicamp, responsável por auxiliar a universidade na proteção e na transferência de tecnologias desenvolvidas por seus pesquisadores.

A expectativa é que a proteção intelectual facilite futuras parcerias com empresas interessadas em avaliar e levar o pigmento ao mercado.

“Penso na transferência tecnológica: ver a tecnologia indo para a indústria, indo para o mercado, é o que todo pesquisador quer”, afirma Rostagno.

A Inova Unicamp mantém um portfólio de tecnologias protegidas que podem ser licenciadas por empresas e instituições públicas ou privadas, com ou sem exclusividade, conforme as condições de cada negociação.

Os interessados em conhecer as possibilidades de licenciamento do novo corante ou de outras tecnologias desenvolvidas pela universidade podem consultar o Portfólio de Tecnologias da Unicamp e entrar em contato com a Agência de Inovação por meio de seus canais oficiais.

A descoberta demonstra como uma observação inesperada em laboratório pode abrir novas perspectivas para a ciência e a indústria. Embora ainda dependa de aprimoramentos para ampliar sua aplicação, o corante verde-azulado desenvolvido na Unicamp surge como uma alternativa promissora na busca por pigmentos naturais mais estáveis e potencialmente acessíveis.

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