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O último voo da nave — e o peso de encerrar um imaginário coletivo

Palco & Bastidor, Por Dan Beligoli, Jornalista

Em 05/06/2026 às 18:56:27

Quando Xuxa anuncia “O Último Voo da Nave”, não se trata apenas de mais um projeto ao vivo. Trata-se do encerramento simbólico de um dos universos mais bem construídos da cultura pop brasileira — um que atravessou gerações, moldou comportamentos e, por muito tempo, definiu o que era entretenimento infantil no país.

Xuxa nunca foi apenas uma apresentadora. Foi estética, linguagem, indústria. Criou códigos visuais, consolidou um formato e, sobretudo, estabeleceu uma relação direta com o público que ultrapassava a tela. A nave, nesse contexto, deixa de ser cenário para se tornar símbolo — quase um portal para uma infância coletiva.

A Rainha dos Baixinhos foi — e ainda é — companhia para muitas gerações que cresceram sob sua influência e que hoje se reconhecem, de alguma forma, como parte de uma mesma memória afetiva. Acompanhamos sua trajetória desde cedo: sonhamos juntos, nos emocionamos juntos, crescemos juntos. O anúncio da turnê, por isso, mobiliza algo que vai além da nostalgia. Há uma tentativa, ainda que inconsciente, de revisitar uma era em que o entretenimento era menos fragmentado, mais ingênuo — e, talvez por isso mesmo, mais potente em sua capacidade de criar pertencimento.

Em entrevista ao Fantástico, Xuxa adiantou que o Brasil verá um espetáculo de proporções inéditas. A nave, segundo ela, sobrevoará o público em uma experiência imersiva que promete atravessar o tempo e revisitar diferentes fases de sua trajetória. Um convite direto à memória — e ao encantamento.

O espetáculo contará ainda com a presença das Paquitas, reunindo diferentes gerações, em um gesto que amplia o alcance emocional do projeto e reforça seu caráter de celebração coletiva. A expectativa é de um público movido não apenas pela curiosidade, mas por um vínculo afetivo consolidado ao longo de décadas.

Mas há também uma camada mais interessante: o controle da própria narrativa. Em um momento em que muitos artistas são engolidos pelo tempo ou pelas plataformas, Xuxa escolhe o contrário. Ela encerra. Define o ponto final. E faz disso um espetáculo. A turnê passará por capitais como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, com vendas já iniciadas — e, ao que tudo indica, com ingressos disputados.

“O Último Voo da Nave” não é apenas sobre lembrar. É sobre decidir como ser lembrada.

E isso, no fim, talvez seja o maior luxo da cultura pop.

Porque poucos têm a chance — e menos ainda a lucidez — de transformar a própria despedida em legado.

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