Fotos : Luciana Serpa/Agência Eu, Rio!
No ato, os manifestantes também se posicionaram contra o projeto de lei que autoriza o armamento da Guarda Municipal carioca. "Trata-se de uma medida que aumenta o risco de vida de uma população já marginalizada", justificaram os participantes. “Ngagne estava trabalhando. Não estava roubando, nem brigando. Temos famílias que dependem da gente. Exigimos justiça”, declarou Jean Batista, presidente da Associação de Lideranças Imigrantes do Rio (ALI-RJ).
Papa Babou Seck, coordenador do Movimento dos Camelôs Imigrantes do Centro do Rio, reforçou o impacto coletivo da violência. “Quando matam Ngagne Mbaye, matam a família inteira dele. Estamos aqui [no Brasil] para trabalhar com dignidade, não para passar fome e morrer”, reclamou.
Carol Santos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos, apontou para o sentimento de abandono. “Nós, trabalhadores ambulantes, somos considerados inimigos do Estado. Moro numa favela e me pergunto todos os dias: será que meu filho vai voltar da escola?”, indagou.

Mônica Cunha, cofundadora do Movimento Moleque e ex-vereadora do Rio, fez um apelo por consciência política. “Somos violados o tempo todo. Precisamos aprender a votar. É com mobilização e voto que podemos parar essa máquina de moer gente”, observou.
A deputada estadual Dani Monteiro (Psol) associou a morte de Ngagne à precarização do trabalho. “Não é coincidência. É a ausência de proteção social e as péssimas condições de trabalho que permitem o lucro das grandes empresas construídas com o sangue do povo sul-americano, africano e asiático”, disse.
Durante o ato, outros casos emblemáticos de violência contra os imigrantes foram lembrados, como o de Moïse Kabagambe, congolês morto espancado ao cobrar remuneração pelo trabalho, em 2022; Julieta Hernández, artista cicloviajante, vítima de feminicídio, em 2023, cuja família ainda luta na justiça pela devida classificação da tipificação do crime; e Carolina Sánchez López, colombiana assassinada, em fevereiro deste ano.
“Julieta foi assassinada porque era mulher e venezuelana. É um Estado que autoriza a morte de mulheres, pretos, pobres e imigrantes. Isso é xenofobia, é racismo. Agora, aqui no Rio, a Guarda Municipal poderá andar armada, e do mesmo jeito que espancam os trabalhadores ambulantes, vão atirar para nos matar. Iguais estão matando iguais. Quem nos mata, muitas vezes, almoça nas mesmas lanchonetes que a gente. Mas na hora que estiverem armados, vão matar a gente”, denunciou o imigrante haitiano Robert Montinard, fundador da ONG MAWON.

José Mauro, do Sindicato dos Trabalhadores Informais, também se pronunciou. “Não podemos aceitar que uma pessoa negra defendendo seu trabalho seja assassinada pelo Estado. As balas já tem no corpo negro o alvo certo”, afirmou.
Mariama Bar, liderança ativista imigrante, emocionou os militantes ao denunciar o descaso institucional. “Quando morremos, usam nossos nomes para ganhar likes. Este país tem medo de dizer que é racista. Mas é! As balas são bem direcionadas. Não queremos privilégios, queremos justiça. São anos lutando por reais políticas públicas para a imigração no Brasil, e continuamos sem ser ouvidos. Se o Brasil tivesse respeito por nós, seríamos reconhecidos por nossas contribuições na cultura e na arte, e não por sermos vítimas!”, exclamou.
“Sabemos muito bem o CPF, a cor e o endereço de onde as balas perdidas vão parar. A cidade é nossa e a gente precisa ocupar esse espaço. Lutamos pelos direitos dos trabalhadores que todos os dias saem de casa e vão para as ruas batalhar pelo seu sustento”, destacou Maria do Carmo, coordenadora do MUCA (Movimento Unido dos Camelôs), sobre o perigo do armamento da Guarda .

O engenheiro imigrante senegalês, Mamour Sop Ndiaye, professor da UFF, observou: "o racismo começa quando tentam te eliminar moralmente, depois intelectualmente e, por fim, fisicamente. Mas africano não nasce para desistir”.
O deputado estadual Professor Josemar (Psol), presidente da Comissão de Combate às Discriminações da Alerj, cobrou reparações: “O Brasil é o maior país negro fora da África. Não é admissível que africanos continuem sendo assassinados aqui”.
O Babalawô Ivanir dos Santos, professor da UFRJ, correlacionou o racismo e a intolerância religiosa: “Casas de religiões de matrizes africanas são destruídas e queimadas por carregarem a identidade dos nossos ancestrais”.
Sylvio Wittlin, do coletivo Árabes e Judeus pela Paz, apontou o pano de fundo ideológico da violência. “Nossa luta é contra a permanência do espírito colonialista, que hoje se associa ao fascismo. É por isso que as elites dominantes têm recorrido ao fascismo, para determinar que vidas valem e que vidas não valem. Toda perda dessas famílias é uma perda para todos nós”, afirmou.
Garry Ulysse, do Grupo Solidariedade e Amizade de Migrantes e Refugiados de Maricá (GSAM), disse que a política de armas para a Guarda Municipal só vai aprofundar a violência e a repressão. "Quem vai morrer com isso? É o povo preto, pobre e trabalhador. É a juventude da favela. É o camelô que está lutando pela sobrevivência. Armar a Guarda é oficializar o extermínio dos nossos”, enfatizou.

Ao final, os organizadores do ato anunciaram novas mobilizações por direitos no Dia do Trabalhador (1º de maio), na Cinelândia, e a Marcha dos Migrantes, prevista para junho, em Copacabana.
“É assustadora a forma que os imigrantes são tratados no Brasil. Somos violentados, criminalizados e ignorados. Mas também movimentamos a economia deste país. O Brasil é fruto da imigração e da diversidade. A situação que vivemos hoje é análoga ao trabalho escravo. Estamos aqui para existir com dignidade, e exigir respeito”, concluiu Daniel Diowo Otshudi, coordenador do ato e do Movimento da Marcha dos Migrantes RJ, e presidente da Comunidade Congolesa do Rio de Janeiro.