Ator Déo Garcez como Luiz Gama no palco. Foto: Divulgação
A trajetória de Luiz Gama (1830-1882) é um marco indelével na história do Brasil. Nascido livre, mas vendido como escravo pelo próprio pai aos 10 anos, Gama superou todas as adversidades impostas pelo racismo estrutural do século XIX. Autodidata, tornou-se advogado, jornalista e poeta, e é reconhecido como o único abolicionista brasileiro que viveu a experiência da escravidão, libertando mais de 500 pessoas de forma direta por meio de ações judiciais e administrativas — um feito considerado o mais impressionante do abolicionismo nas Américas.
Apesar de não ter obtido diploma formal, Gama frequentou como ouvinte as aulas da Faculdade de Direito de São Paulo e tornou-se rábula, atuando em defesa dos negros escravizados. Utilizou uma brecha legal: a lei de 1831, que proibia o tráfico negreiro, mas era ignorada. Gama provava nos tribunais que pessoas trazidas ao Brasil após essa data estavam ilegalmente escravizadas, garantindo-lhes a liberdade.
Sua atuação não se restringiu ao Direito. Como jornalista, fundou e colaborou com diversos periódicos, denunciando a escravidão e defendendo a liberdade de imprensa. Sua produção literária também foi significativa, com destaque para o livro “Primeiras Trovas Burlescas de Getulino”.
O Portal Eu, Rio! entrevistou o ator Déo Garcez sobre “Luiz Gama: Uma Voz pela Liberdade”:
Portal Eu, Rio: Déo, o espetáculo “Luiz Gama: Uma Voz pela Liberdade” está há dez anos em cartaz. Qual é a importância dessa peça para você?
Déo Garcez: O espetáculo é considerado um importante instrumento para a conscientização do público sobre a importância de Luiz Gama ao recuperar sua história e sua luta abolicionista, promovendo a conscientização sobre a desigualdade racial, justiça social, direitos humanos e democracia.
PER: Como você define o impacto da peça para a educação antirracista?
DG: Elisa Lucinda, atriz, escritora e poetisa, o definiu muito bem: O espetáculo ‘Luiz Gama...’ é um instrumento de luta antirracista. De forma que a peça contribui para a tão necessária educação antirracista.
PER: O espetáculo é pioneiro ao trazer Luiz Gama ao centro da cena teatral. Como você vê essa reparação histórica?
DG: Nunca houve no teatro brasileiro um espetáculo que recuperasse de forma tão intensa a importância de um personagem real negro, apagado intencionalmente pela historiografia oficial brasileira ao longo dos séculos. Então, este espetáculo teatral cumpre sua missão de fazer a reparação história de Luiz Gama e também de Luiza Mahim, sua mãe abolicionista.
PER: E como o público reage à peça?
DG: O público sente-se comprovadamente impactado, tanto pela descoberta de Luiz Gama, quanto pela provocação e conscientização sobre o quanto ainda precisamos lutar por direitos iguais e pela equidade. Isto nos leva a concluir que a luta dele continua necessária e permanente, até porque, na peça, não somente contamos a vida, história e luta contra a escravidão de Luiz Gama, mas contextualizamos com o Brasil e o mundo de hoje racistas e, infelizmente, ainda com forte resquício do cruel e desumano sistema escravocrata.
Humberto Adami: continuidade da luta por verdade e reparação
O trabalho de Luiz Gama ecoa nas ações de líderes contemporâneos como Humberto Adami, advogado e presidente, pela 4ª gestão, da Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Conselho Federal da OAB e da Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra da OAB/RJ. Humberto é reconhecido por sua atuação na luta por igualdade racial e reparação histórica, buscando transformar iniciativas em políticas concretas que impactam a vida das comunidades negras e quilombolas. Ele ressalta a importância de preservar a memória e valorizar a cultura afro-brasileira, princípios que também orientaram a trajetória de Luiz Gama.
Segundo Humberto, os estudos sobre Luiz Gama foram “ressuscitados” quando, em 2015, a Comissão Nacional entregou uma placa ao Instituto Luiz Gama, reconhecendo-o como "Heroi da Pátria". "A partir desse momento, outros herois também foram lembrados, como Esperança Garcia, Manoel Combi e Mariana Crioula, figuras que haviam sido esquecidas pelo racismo estrutural brasileiro", conta.
Legado vivo
Luiz Gama faleceu seis anos antes da abolição da escravatura, mas seu funeral, acompanhado por milhares de pessoas, já indicava a dimensão de seu impacto social. Hoje, sua memória é celebrada em estátuas, instituições e, sobretudo, nas ações de quem luta por justiça e igualdade. De Déo Garcez nos palcos a Humberto Adami nas arenas jurídica e política, o legado de Gama segue inspirando o Brasil a enfrentar o racismo e a construir uma sociedade mais justa.