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Moradores denunciam cracolândia no Centro do Rio

Acúmulo de lixo, tráfico de drogas e ausência de políticas públicas efetivas marcam o cotidiano da região há mais de um ano

Por Luciana Serpa em 06/09/2025 às 03:40:35

Foto: Divulgação

A Rua Washington Luiz, no Centro do Rio de Janeiro, transformou-se em mais um ponto crítico da cidade, onde a população em situação de rua convive com o tráfico de drogas, montanhas de lixo e a completa ausência de políticas públicas consistentes. A situação, que se agravou após o Carnaval deste ano, é denunciada pelos moradores da região, que relatam o abandono sistemático do local pelas autoridades competentes.

Uma "cracolândia" que se estabeleceu em 2025

A professora de História Dominique Tupinambá mudou-se para a rua Washington Luiz em dezembro de 2024. Ela testemunhou o processo de deterioração da área. "Quando vim morar aqui, não havia essa Cracolândia. Só reparei depois do Carnaval. Então, a gente está vivendo esta situação que vem se agravando durante todo o ano de 2025", relata. O que começou com algumas pessoas dormindo na rua rapidamente evoluiu para algo ainda mais complexo e preocupante. "Com o tempo, percebemos que algumas pessoas também fazem tráfico e fumam. Acredito que seja o crack", explica a moradora.

Terror noturno e insegurança constante

Dominique detalha a gravidade da situação na rua. “De madrugada, eles gritam, xingam, brigam entre si, usam drogas, e traficam. Às vezes, eles ficam até com uma mesinha para fazer o comércio. Isso é uma loucura total”, relata a educadora. Além do barulho e da perturbação, os moradores enfrentam questões de segurança mais graves. A professora conta que uma vizinha quase foi assaltada na rua, sendo poupada quando um dos agressores a reconheceu como moradora na região. "Ou seja, são pessoas que também costumam assaltar no entorno", conclui.

Políticas públicas intermitentes e ineficazes

Um dos aspectos mais frustrantes para os moradores é a inconsistência das ações do poder público. A professora relembra as várias tentativas de intervenção que se mostraram infrutíferas: “Inúmeras vezes, a Comlurb veio para retirar o restante do lixo que se acumula, ao ser separado pelas pessoas em situação de rua para a reciclagem como meio de sobrevivência, a polícia foi acionada devido ao tráfico e as brigas na rua, a Prefeitura já foi notificada, e também a assistência social veio conversar para intermediar a situação”.

No entanto, Dominique afirma que a situação instaurada se agravou, porque demorou para que ela e os outros moradores dos prédios conseguissem mobilizar as autoridades para que começassem a ter a sensibilidade de atender os chamados pontuais.

Mesmo quando as autoridades passaram a responder com mais frequência, os resultados são temporários. "E de um tempo para cá, até têm nos atendido, porém, nada resolve o problema. O serviço público vem e, meia hora depois, a mesma situação volta a acontecer", observa a professora.

Outra moradora da região, a professora de Artes, Marina Fernandes, complementa o relato sobre as políticas descontinuadas: "Durante o ano passado, o poder público tinha feito um acampamento na rua dentro do terreno do Inca para acolher e prestar alguns serviços para as pessoas em situação de rua. Mas do mesmo jeito que montaram, desmontaram da noite para o dia, e o terreno se tornou um estacionamento", observa a educadora.


O ciclo do abandono urbano

Marina também aponta para um problema ainda mais grave: o abandono completo da infraestrutura urbana na região. "O que acontece é que o poder público larga de mão a rua. Não consertam algum vazamento de água ou esgoto porque pode ser quebrado novamente, não recolhem o lixo porque vão continuar jogando no chão, não colocam lixeiras novas porque em uma semana podem estar quebradas", explica. Esta postura, segundo a moradora, cria um círculo vicioso: "Vira uma bola de neve da rua largada". O abandono da manutenção urbana sob o pretexto de que será danificada novamente resulta em deterioração progressiva da região, afetando tanto as pessoas em situação de rua quanto os demais moradores.

A complexidade de uma questão humanitária

A moradora, professora de História, demonstra consciência da complexidade da situação, reconhecendo tanto os aspectos de ordem pública quanto a dimensão humanitária do problema. "Não precisa dizer que a situação deles é deprimente. Um frio horroroso, eles dormem neste chão frio, é muito triste. O Estado tem que tomar uma providência", pondera. "Então, eu penso que o problema deveria ser abordado de duas maneiras. Uma das maneiras, é resolver a questão da ordem urbana. Mas o outro aspecto é ver a questão da vida dessas pessoas que precisam ser tratadas", sugere.

Ela reconhece suas limitações para propor soluções definitivas: "Eu não sei qual é a solução. Não pode levá-los à força, mas deve haver alguma solução porque alguns são dependentes de drogas. Mas tem os que são traficantes, e os que roubam na região. É o que me parece, não sou autoridade no assunto".

Um problema que exige soluções integradas

A situação denunciada na Rua Washington Luiz revela a complexidade dos desafios urbanos contemporâneos, onde questões sociais, sanitárias e de segurança pública se entrelaçam de forma indissociável. O caso evidencia a urgente necessidade de políticas públicas integradas e permanentes, que abordam tanto o acolhimento da população em situação de rua quanto a manutenção da infraestrutura urbana. A ausência de uma abordagem consistente e humanizada por parte das autoridades não apenas prejudica as pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social, mas também impacta negativamente toda a comunidade, criando um cenário de abandono que se retroalimenta e se agrava progressivamente.

Os moradores da Rua Washington Luiz esperam que suas denúncias resultem em ações efetivas que possam resolver, de forma definitiva e humana, uma situação que já se arrasta por mais de um ano e que afeta tanto a dignidade das pessoas em situação de rua quanto a qualidade de vida de toda a vizinhança.

O Portal Eu, Rio! tentou entrar em contato com a assessoria de imprensa da Polícia Civil, e do programa Segurança Presente, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para o posicionamento das autoridades sobre a situação na região.

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