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Moradores do bairro de Santa Teresa, na zona central do Rio de Janeiro, organizaram um ato de protesto neste sábado (06) contra a exoneração da diretora do Centro de Saúde Hernani Agrícola, Cristina Gonçalves. A manifestação, que aconteceu em frente ao posto de saúde, foi convocada por organizações comunitárias locais sob o lema: "O SUS é nosso. Cristina fica!".
A exoneração de Cristina Gonçalves foi vista pela comunidade como arbitrária e sem justificativa clara. Segundo os manifestantes, a medida coloca em risco a qualidade do atendimento e a relação histórica construída entre o posto de saúde e os moradores do bairro.
Uma trajetória de 39 anos
Cristina Gonçalves, de 64 anos e assistente social de formação, trabalha na Secretaria Municipal de Saúde desde 1986. Durante 39 anos, ela construiu sua carreira no território de Santa Teresa, chegando ao posto de saúde como estagiária de serviço social e ascendendo até a direção da unidade de saúde.
"Santa Teresa tem um significado muito especial na minha vida. Esse território é sedutor, é desafiante", declarou a própria Cristina, em vídeo na internet sobre uma das ações sociais desenvolvidas na região destacando sua profunda conexão com a comunidade.
Gestão participativa em risco
Uma das principais críticas dos moradores é que a exoneração foi feita sem diálogo com a comunidade, quebrando uma tradição de gestão participativa estabelecida por Cristina. Clátia Vieira, moradora do Morro da Coroa e integrante do Colegiado Gestor da Unidade de Saúde, foi uma das vozes mais contundentes na denúncia.
"A exoneração da Cristina coloca em risco o atendimento e a qualidade da relação do posto de saúde com a comunidade de Santa Teresa", afirmou Clátia. Ela destacou que, desde que assumiu a direção, Cristina sempre trabalhou a questão da coletividade, vendo a saúde de forma ampla, não apenas no campo da doença.

Inovações comunitárias
Sob a gestão de Cristina, o Centro de Saúde Hernani Agrícola implementou várias iniciativas que iam além do atendimento médico tradicional. Uma delas era um "bazar pega-pega", onde roupas ficavam disponíveis em cabideiros para que a comunidade pudesse pegá-las gratuitamente.
"Parece que isso é nada, mas é muita coisa, porque é ter uma relação para além da vacina, para além do remédio na farmácia", explicou Clátia Vieira, ressaltando como essas ações fortaleciam o vínculo entre o posto e a comunidade.
Durante a pandemia de COVID-19, Cristina foi fundamental na organização da distribuição de cestas básicas e na abertura do espaço para organizações do bairro realizarem reuniões e atividades comunitárias.
Participação popular e transparência
O Centro de Saúde funcionava com um Comitê Gestor ativo, onde a comunidade podia discutir demandas que iam além da saúde tradicional, incluindo questões de transporte e outras políticas públicas. Segundo os moradores, Cristina sempre promoveu e divulgou essas reuniões, mantendo o diálogo aberto com a população.
"Cristina sempre divulgava a reunião do comitê gestor da saúde. A gente recebia o administrador regional para falar das demandas, falava de transporte, e ouvia as mulheres. Tudo isso dentro do posto como pauta de saúde", relatou Clátia.
Impacto nas comunidades vulneráveis
Santa Teresa abriga mais de 14 favelas, e a gestão de Cristina era vista como essencial para garantir o acesso à saúde dessas populações. Clátia Vieira enfatizou que "a saúde é um caos, sobretudo para pessoas pretas e pessoas de favela. Cristina entende a saúde como ‘bem viver’, englobando qualidade de vida, respeito, participação e acesso a políticas públicas”, observa.
Mobilização em defesa da permanência
O ato foi organizado por diversas organizações locais, incluindo a Coletiva Feminista Santa Luta, AMAST (Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa), Comitê Popular de Luta, Mulheres de Santa e Coral Encanta Santa. Os manifestantes exigem transparência nas decisões da Secretaria Municipal de Saúde e o retorno de Cristina ao cargo.
"Sabemos que a direção é cargo de confiança, logo é cargo do prefeito. Mas essa coisa de ser cargo do prefeito sem dialogar com o território já está cafona", criticou Clátia Vieira, fazendo referência às declarações frequentes do prefeito Eduardo Paes sobre a importância de ouvir a população.
O que dizem os manifestantes
Para os moradores, a questão central não é julgar um eventual substituto antes de conhecê-lo, mas sim questionar a necessidade da mudança. "A questão é que não precisa mexer no time que está dando certo", argumentou Clátia.
A comunidade teme que a saída de Cristina represente uma ruptura na construção coletiva desenvolvida ao longo de décadas. "Essa construção vem de muitos anos", alertou a liderança comunitária.
Patrimônio comunitário ameaçado
Os manifestantes consideram o Centro de Saúde Hernani Agrícola um "patrimônio de Santa Teresa e exemplo de excelência em gestão da saúde". A preocupação é que a mudança na direção possa comprometer não apenas o atendimento médico, mas toda a rede de apoio social construída em torno da unidade.
O caso evidencia a tensão entre as prerrogativas administrativas do poder público e as demandas por participação popular na gestão de serviços essenciais, especialmente em territórios com alta vulnerabilidade social como Santa Teresa.
Suspeitas sobre motivação política
Rogéria Peixinho, educadora social e integrante da Coletiva Feminista Santa Luta, formada por moradoras do bairro, trouxe uma nova perspectiva sobre os possíveis motivos da exoneração. Segundo ela, "a comunidade toda de Santa Teresa está indignada com essa exoneração sem motivo algum. Cristina é muito competente, humana, comprometida com a atenção primária, e a saúde básica. Uma excelente funcionária pública que estava nesse posto há mais de 38 anos, sendo 15 na direção do posto."
Para Rogéria, o timing da exoneração levanta suspeitas. "Essa exoneração acontece justamente quando finalmente o dinheiro da emenda parlamentar da deputada Jandira Feghali chega, e a obra vai começar. Eles tiram a Cristina para colocar algum cabo eleitoral dele, alguém que ele quer eleger na base dele, e vai usar a inauguração da reforma do posto como se fosse trunfo dele."
A declaração faz referência aos recursos destinados por emenda parlamentar para reformas no Centro de Saúde, sugerindo que a mudança na direção pode estar relacionada ao interesse político em capitalizar sobre a inauguração da obra.
Próximos passos da mobilização
A comunidade não pretende desistir da luta. Rogéria Peixinho anunciou que foram definidos alguns encaminhamentos durante o protesto: "Terça-feira, dia 09/09, às 9h, reunião no posto com o já atual diretor para reafirmar que não vamos permitir que a equipe seja mudada, e que não desistimos de trazer Cristina de volta."
Além disso, está prevista uma tentativa de reunião com o prefeito: "Vamos tentar uma reunião com o prefeito para dizer que não aceitamos que justo quando a grana da obra está liberada, Cristina seja exonerada e não estará nesse processo. Queremos e vamos lutar para reverter essa exoneração", afirmou Rogéria.
O deputado Chico Alencar se comprometeu a facilitar essa reunião com o prefeito. A comunidade também planeja homenagear Cristina Gonçalves. "Vamos, também, através dos mandatos presentes ao ato, conceder a medalha Pedro Ernesto a Cristina pelo seu trabalho e dedicação à nossa população e na defesa do SUS", declarou a educadora.
Repercussão política
O caso ganhou repercussão no meio político. O deputado estadual Chico Alencar (PSOL) manifestou apoio à comunidade no protesto deste sábado (06). "A diretora Cristina Gonçalves, do Posto de Saúde Ernani Agrícola, de Santa Teresa, muito querida pela comunidade e por todos os servidores, foi exonerada sumariamente, na terça (02), sem qualquer explicação. Há muita tristeza e indignação."
O deputado também destacou a importância da mobilização comunitária: "É importante este ato de protesto em frente ao posto: 'Volta, Cristina!'. Atos arbitrários como este agridem a saúde pública, o SUS e a democracia!"