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Ciência em construção: resistência e inclusão na universidade pública

As trajetórias de estudantes da UFRJ evidenciam o poder transformador da universidade pública e a necessidade de políticas que garantam inclusão e permanência

Por Luciana Serpa em 02/10/2025 às 16:35:41

Foto: Divulgação

Enquanto centenas de estudantes circulam pelos corredores da UFRJ durante a 14ª Semana de Integração Acadêmica (SIAc), três histórias se destacam não apenas pela qualidade das pesquisas apresentadas, mas pelo que representam: a universidade pública como espaço de transformação social, mesmo diante dos obstáculos que insistem em limitar o acesso ao conhecimento.

São narrativas que expõem as contradições do ensino superior brasileiro: excelência científica produzida por quem divide o tempo entre a amamentação, os turnos de trabalho e três conduções para chegar ao campus. São histórias que desmontam possíveis estereótipos sobre quem faz ciência no Brasil.

O vírus que mudou tudo

Pâmella Soares frequentava as aulas do curso de Ciências Biológicas há apenas um ano quando a pandemia fechou os campus em março de 2020. A estudante havia se mudado para Macaé para estudar presencialmente, mas com o isolamento social, voltou para sua casa localizada a 60 quilômetros do campus.

O que ela não sabia era que, naquele período caótico, sua vida mudaria de duas formas simultâneas: ficou grávida e descobriu sua vocação para a pesquisa científica.

"Todos os dias, levo em média de 2:30h a 3:30h para chegar até a universidade por conta de todos os transportes que preciso pegar", conta Pâmella, hoje, prestes a se formar com a colação de grau prevista para março de 2026. "Confesso que pensei em desistir algumas vezes, mas eu amo estudar e, sobretudo, pesquisar."

A amamentação exclusiva até os seis meses só foi possível porque as aulas continuavam remotas. Quando a universidade reabriu em 2022, o bebê ainda era pequeno demais, e Pâmela precisou trancar dois semestres. Retornou em 2023, manteve a amamentação até 1 ano e 8 meses do filho, mas precisou interromper: "Depois disso se tornou inviável com a rotina", comenta a estudante.

A pesquisa que Pâmella apresenta na SIAc é sobre filogenia — o estudo das relações evolutivas — das proteínas do tipo Spike do SARS-CoV-2, o vírus que causou a pandemia e transformou a vida de milhões de brasileiros.

"O trabalho surgiu da necessidade de garantir que a proteína Spike do Coronavírus fosse realmente a mais indicada como alvo medicamentoso, vacinal e farmacológico", explica. Se essa proteína se assemelhasse a outras de vírus distantes da família do Coronavírus, não seria o melhor alvo terapêutico.

Mas a pesquisa vai além da validação científica. "Atrelada à relação filogenética, encontramos vírus com potencial para spillover" — quando um vírus que infecta apenas determinado hospedeiro torna-se capaz de infectar outros por causa de mutações. "Isso pode servir como alerta para possíveis surtos", pontua Pâmella, destacando a perspectiva "One Health", que integra saúde humana, ambiental e animal.

"Apesar de difícil, por conta da minha rotina, do baixo investimento e de todas as outras barreiras que nos impedem de ir ainda mais longe, fazemos pesquisa de qualidade e excelência no Brasil, sobretudo na universidade pública", afirma.

Da necessidade à criatividade

Kauã Misael Almeida também conhece bem estes obstáculos. Crescido em São João de Meriti, morador da comunidade Nova Holanda, na Maré, o estudante de Administração divide sua rotina entre a graduação, o trabalho como auxiliar administrativo no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), e sua carreira como músico.

Para Kauã, administração não foi escolha — foi necessidade. "O empreendedorismo surgiu na família como uma forma de subsistência", relata. Sua avó, por exemplo, empreendeu na abertura de um bazar. Ele seguiu o caminho natural: estudar gestão para estruturar a própria carreira artística.

Mas foi ao se conectar com projetos socioculturais na Maré e na Baixada Fluminense que Kauã percebeu uma lacuna: produtores culturais periféricos têm enorme potencial criativo, mas pouco acesso a recursos e informações sobre gestão.

Sua pesquisa, apresentada na SIAc, resultou em um guia prático para gestão criativa e coletiva de projetos culturais, baseado na tese de doutorado "Criatividade Plural na Gestão de Projetos Culturais", de Rafaela Gonçalves Freitas (UFBA, 2024).

O material aborda desde a concepção coletiva de projetos — "A ideia fica melhor quando construída coletivamente", diz o guia — até estratégias de captação de recursos e prestação de contas. Editais públicos, parcerias locais, financiamento coletivo: tudo é explicado de forma acessível.

"A criatividade nasce do coletivo, da troca, das relações e do contexto cultural", resume Kauã. Seu guia inclui dicas práticas para produtores com poucos recursos: "Trabalhe com restrições criativas — tudo é possível com criatividade", orienta.

A pesquisa de Kauã materializa algo singular na academia: conhecimento produzido na periferia para a periferia, sem romantizações ou traduções externas.

Nunca é tarde para começar

Se Pâmella e Kauã representam a juventude resistente, Verônica Maria Lopes Coimbra, 70 anos, mostra que não há idade para recomeçar. Estudante de Licenciatura em Letras Português-Francês, com formatura prevista para o próximo semestre, passou décadas trabalhando com administração de empresas antes de decidir perseguir sua verdadeira paixão: o magistério. "Me inspiro na capacidade de aprendizado dos meus netos e quis dedicar meu tempo para trabalhar na área que amo", relata Verônica prestes a conquistar o sonhado diploma.

Sua pesquisa, desenvolvida junto ao grupo de ensino de francês para crianças em escolas públicas, investiga a aplicação de jogos lúdicos como norteadores de práticas metodológicas e pedagógicas. As atividades acontecem na Escola Municipal Professora Dídia Machado Fortes, na Barra da Tijuca.

"As crianças têm um potencial maravilhoso para aprender", observa Verônica. Jogos lúdicos e contação de histórias são as ferramentas centrais para que os pequenos assimilem o idioma estrangeiro de forma natural e prazerosa.

Aos 70 anos, em plena graduação e desenvolvendo pesquisa aplicada, Verônica desafia não apenas o etarismo acadêmico, mas a ideia de que existe o momento certo para buscar conhecimento.

O retrato mais amplo

Essas três histórias ilustram as tensões estruturais do ensino superior público brasileiro. Segundo dados do Censo da Educação Superior, o perfil dos estudantes de universidades públicas vem se transformando nas últimas décadas, especialmente após as políticas de cotas e de assistência estudantil. Mas os desafios persistem: transporte precário, falta de creches, bolsas insuficientes, cortes orçamentários.

A Semana de Integração Acadêmica da UFRJ, que reúne projetos de iniciação científica e extensão, é a vitrine dessa resistência criativa. Estudantes que, como Pâmella, Kauã e Verônica, fazem ciência nas brechas do possível alcançando excelentes resultados.

"Todos os dias acordo cedo, deixo meu filho, e pego três conduções", resume Pâmella. "Mas quando estou no laboratório, quando vejo os resultados da pesquisa, tudo faz sentido."

Para Kauã, a universidade confirmou uma percepção: "Os projetos socioculturais da periferia precisam de ferramentas, não de salvadores. Precisam de gestão, não de caridade."

E Verônica, que aos 70 anos, segue provando que aprender não tem prazo de validade.

São histórias individuais que apontam para uma questão coletiva: o que a universidade pública brasileira poderia produzir se todos as Pâmelas, os Kauãs e as Verônicas tivessem condições plenas de estudo e pesquisa? Se não precisassem escolher entre amamentar e assistir aula, entre trabalhar e pesquisar, entre desistir e resistir? No entanto, estes estudantes seguem transformando obstáculos em objetos de estudo, adversidades em metodologia e resistência em conhecimento.

Essas trajetórias deixam claro que a excelência científica brasileira não depende apenas do talento individual, mas sobretudo das condições coletivas de permanência e desenvolvimento acadêmico. Quando as políticas públicas garantirem transporte acessível, assistência estudantil adequada, creches universitárias, bolsas compatíveis com o custo de vida e investimentos contínuos em pesquisa, histórias como as de Pâmella, Kauã e Verônica deixariam de ser exceções heróicas e passariam a constituir uma diversidade de padrões.

A universidade pública tem mostrado sua potência transformadora; resta ao Estado assegurar que essa potência não seja desperdiçada nas longas horas de deslocamento, na ausência de apoio às mães estudantes ou na falta de infraestrutura para quem chega à universidade em qualquer idade. Ampliar políticas públicas inclusivas é, portanto, o caminho para que a resistência dê lugar a uma produção científica plena, diversa e verdadeiramente democrática.

"A iniciação científica é a porta para a formação de jovens pesquisadores, funciona como uma primeira experiência que aproxima os estudantes com a relevância da produção de conhecimento para além do senso comum, ajuda a entender as novas exigências de pesquisas, teóricas e aplicadas, que sejam diversas, que se faça ciência cidadã e que tragam questões e soluções que impactam na sociedade e produzem transformações sociais", conclui Ivana Bentes, Pró Reitora de Extensão da UFRJ.


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