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Mentira na TV estadunidense

Fake News internacional: pai de Beyoncé inventa 'fuga' de favela e revolta brasileiros

Declaração fantasiosa de Mathew Knowles sobre gravação no Rio em 2010 causa revolta e é desmentida por testemunhas


Foto: Thiago Firmino

Uma declaração polêmica de Mathew Knowles, pai e ex-empresário de Beyoncé, causou indignação no Brasil nesta semana. Em entrevista ao programa americano "Reality with The King", Knowles afirmou que sua filha e a cantora Alicia Keys teriam sido obrigadas a fugir de helicóptero de uma favela carioca durante as gravações de um videoclipe em 2010. O motivo, segundo ele, seria a Sony Music ter supostamente se recusado a pagar "bandidos locais".

"Recebi uma ligação porque não sou um microgerente... Elas estavam na favela, no Rio, e a Sony não pagou os bandidos. Elas tiveram que sair de helicóptero de lá", declarou Knowles, deixando o apresentador Carlos King visivelmente perplexo. O empresário ainda emendou de forma misteriosa: "Há muita coisa que você não sabe, jovem."

A declaração bombástica tinha tudo para viralizar nos Estados Unidos como mais uma história sobre o perigo nas favelas brasileiras. Só tinha um problema: nada disso aconteceu.

A mentira descabida, segundo a testemunha-chave, Thiago Firmino, guia turístico, liderança comunitária do Santa Marta e, crucialmente, testemunha ocular das gravações há 15 anos, foi o primeiro a desmentir a narrativa absurda.

"É uma mentira descabida!", desabafou Firmino. O guia logo desmontou a história sensacionalista em minutos:

Primeiro furo: "Não tem nem como pousar um helicóptero no local exato das gravações no Santa Marta", ele rebate, apontando a impossibilidade física da suposta fuga.

Segundo furo: Beyoncé sequer pisou na comunidade em Botafogo naquele dia.

O que realmente aconteceu é que as gravações do videoclipe "Put It in a Love Song" aconteceram em dois locais diferentes do Rio de Janeiro, em momentos separados.

Alicia Keys no Santa Marta

Na comunidade Santa Marta, apenas Alicia Keys compareceu para as filmagens. Thiago Firmino acompanhou toda a visita, que foi realizada com a autorização e a recepção da Capitã Priscila, da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) que operava na comunidade na época.

A cantora americana desceu do carro normalmente, foi recebida pela Capitã, interagiu com moradores e posou para fotos. Thiago presenciou e registrou todos os momentos. “Alicia Keys gravou suas cenas, tirou fotos com a comunidade e foi embora tranquilamente de carro”.

Beyoncé e o Morro da Conceição

E Beyoncé? Segundo Firmino, ela não visitou o Santa Marta. O guia turístico relembra que as condições climáticas estavam ruins naquele dia, mas mesmo assim Beyoncé fez um passeio de helicóptero ao redor do Cristo Redentor, conforme foi noticiado pela imprensa na época.

O encontro das duas cantoras para gravar juntas aconteceu no Morro da Conceição, próximo à Praça Mauá, no Centro do Rio. Ali sim, Beyoncé e Alicia Keys gravaram lado a lado por cerca de duas horas.

Reportagens da época mostram que toda a operação contava com escolta da Polícia Militar. O esquema de segurança era robusto, mas não por causa de ameaças de "bandidos", e sim para controlar o público empolgado que queria ver as estrelas internacionais de perto.

A ironia: o único problema foi com a própria produção

Se houve algum incidente de segurança durante as gravações, não teve nada a ver com traficantes ou moradores locais. A ironia é que a única tensão real nos bastidores não veio de "bandidos", mas sim da arrogância da própria equipe internacional.

Ao final das filmagens no Morro da Conceição, o chefe de segurança da cantora exigiu que os policiais militares que faziam o patrulhamento começassem a carregar os equipamentos da produção. Quando um PM recusou, explicando que a função da corporação era garantir a segurança pública e não servir como carregador de produção privada, o clima esquentou.

Segundo relatos policiais, o chefe de segurança da Beyoncé disse que o policial estava "latindo para a pessoa errada" e afirmou que cada PM presente custava 50 dólares à produção - como se a taxa paga por ter que mobilizar a segurança pública desse direito de tratá-los como empregados. O desentendimento terminou com parte da equipe de produção e os policiais indo parar na delegacia.

Ou seja: a única confusão real envolvendo segurança foi causada pela própria equipe de Beyoncé, e não por qualquer ameaça local.

Fãs nunca viram clipe

Apesar de todo o trabalho e das gravações concluídas no Rio, o clipe de "Put It in a Love Song" nunca foi lançado oficialmente. Na época, a Sony alegou vagamente "motivos criativos", sem dar maiores explicações — um fato que frustrou profundamente os fãs brasileiros, que haviam se empolgado com as filmagens no Rio de Janeiro.

Em 2010, Alicia Keys tentou explicar o cancelamento sem entrar em detalhes. A cantora disse que "às vezes projetos criativos funcionam perfeitamente e outras vezes quase funcionam, sendo melhor abandoná-los". Ela garantiu que amaram a música e se divertiram filmando, mas que por algum motivo a coisa toda não deu certo e decidiram deixar o projeto de lado.

Agora, 15 anos depois, Mathew Knowles aparece com uma explicação alternativa e sensacionalista para o não-lançamento — uma versão que não resiste a cinco minutos de checagem com quem realmente estava presente.

Fake News, Revolta e Prejuízo Comunitário

Cariocas que presenciaram as gravações reagiram nas redes sociais com indignação à história inventada por Mathew Knowles. Moradores relataram que Alicia Keys interagiu e brincou com a comunidade durante as filmagens.

Thiago Firmino questionou as possíveis motivações por trás da fake news. O guia demonstrou preocupação com o impacto da declaração: “queimar a imagem das comunidades cariocas e do Brasil justamente agora, 15 anos depois, parece especialmente cruel”.

A narrativa falsa reforça estereótipos prejudiciais sobre as comunidades cariocas e o Brasil no exterior. Enquanto moradores e lideranças comunitárias trabalham há anos para desconstruir imagens negativas e mostrar a realidade das favelas, declarações como essa, vindas de uma figura pública com alcance internacional, jogam todo esse esforço por água abaixo.

Até o momento, nem a Sony Music, nem Beyoncé ou Alicia Keys comentaram as declarações recentes de Mathew Knowles. O silêncio, porém, não impede que o estrago já esteja feito, reforçando mentiras sobre o Rio de Janeiro.

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