Câncer Colorretal. Foto: Divulgação
O câncer permanece entre as principais causas de morte no Brasil. Somente em 2022, mais de 230 mil pessoas perderam a vida para a doença, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde. Um novo levantamento do Instituto Nacional de Câncer (INCA), em parceria com Harvard, expõe outra dimensão do problema: as mortes prematuras, entre 15 e 64 anos, resultaram em um impacto estimado de US$ 7,4 bilhões em perda de produtividade no país.
O país registra cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano, incluindo tumores de mama, próstata, cólon e reto, pulmão e colo do útero. O que preocupa especialistas, porém, não é apenas a incidência, mas o perfil de quem chega aos consultórios. Casos recentes de figuras públicas como Preta Gil (49) e o ator Chadwick Boseman (43) ilustram uma tendência que se confirma nos dados e na prática clínica: tumores antes restritos a faixas etárias mais avançadas agora atingem pessoas cada vez mais jovens, muitas vezes com sintomas pouco valorizados.
Pulmão: avanço entre mulheres e o peso de diagnosticar tarde
A oncologista clínica Clarissa Baldotto, presidente eleita da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e integrante de comitês internacionais dedicados ao câncer de pulmão, reforça que o tumor segue entre os mais letais, em grande parte porque mais de 70% dos casos chegam em estágio avançado.
“A realidade do câncer de pulmão mudou. Hoje vemos um avanço significativo entre mulheres, inclusive não fumantes, muito ligado a fatores ambientais e biológicos que estamos estudando. O diagnóstico precoce salva vidas, e isso passa por reconhecer sintomas persistentes e entender que não é apenas uma doença associada ao cigarro”, destaca.
Ela lembra que avanços recentes em imunoterapia e terapias-alvo têm ampliado a sobrevida, “mas só fazem diferença plena quando a doença é identificada cedo”.
Mama e tumores ginecológicos: sinais ignorados e rastreamento insuficiente
Especialista em tumores de mama e ginecológicos, o oncologista clínico Daniel Musse lembra que o câncer de mama segue como o mais incidente entre mulheres no Brasil - cerca de 73 mil novos casos por ano, segundo o INCA. Nos tumores de ovário, útero e endométrio, o cenário é ainda mais desafiador.
“Nos tumores ginecológicos, é comum sintomas começarem a ser investigados tardiamente. Isso faz com que muitas mulheres procurem ajuda quando a doença já está avançada. Já no câncer de mama, apesar da mamografia disponível, ainda vemos atrasos causados por medo, desinformação e dificuldade de acesso ao exame. Vemos também pacientes que esperam o nódulo sumir por meses até procurar ajuda”, explica.
Ele destaca que o câncer de endométrio tem crescido entre mulheres acima dos 40 anos, especialmente devido ao sobrepeso e alterações hormonais; e lembra que “sangramento fora do período, dor pélvica e inchaço persistente não podem ser normalizados”.
Colorretal, estômago e pele: tumores silenciosos e a importância da investigação precoce
O cirurgião oncológico Felipe Conde, referência em tumores do aparelho digestivo e de pele, confirma o aumento de diagnósticos entre adultos jovens, movimento já observado internacionalmente e no Brasil.
Segundo ele, tumores de intestino e estômago são frequentemente confundidos com problemas comuns, como gastrite ou intestino irritável.
“Alteração no hábito intestinal, anemia sem explicação, azia persistente, perda de peso, dor abdominal recorrente… tudo isso precisa ser avaliado sem demora. O tempo é o maior determinante de cura nesses tumores”, explica.
Conde também reforça a importância da observação da pele, especialmente com a proximidade do verão. O câncer de pele é o mais incidente do país e, quando tratado cedo, tem altas taxas de cura. “O problema está no atraso. Uma lesão pequena e facilmente removível pode, meses depois, exigir cirurgias maiores e até reconstruções complexas.”
Informação de qualidade, atividade física e alimentação saudável salvam vidas
Embora atuem em especialidades distintas, os três médicos convergem em uma mesma conclusão: boa parte das mortes por câncer no Brasil ainda pode ser evitada com escolhas cotidianas e com a detecção precoce. A combinação de hábitos como alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle de peso, não fumar, uso diário de protetor solar e vacinação contra HPV reduz de forma significativa o risco dos tumores mais incidentes no país.
Outro ponto central é a atenção aos sinais do corpo. Sintomas persistentes, mesmo discretos, e exames de rotina são determinantes para identificar a doença em estágios iniciais, quando as chances de cura são muito maiores. Em comum, as três áreas reforçam que prevenção e informação seguem sendo as ferramentas mais poderosas para reduzir mortes evitáveis e mudar trajetórias.