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Neurodiversidade

Mentes brilhantes e invisíveis: entendendo a dupla excepcionalidade

Especialistas explicam como autismo e altas habilidades podem coexistir e desafiar diagnósticos tradicionais


Foto: Divulgação

Em meio ao avanço das discussões sobre neurodiversidade, pesquisadores e profissionais da educação têm voltado sua atenção para um fenômeno ainda pouco compreendido pelo público geral: a coexistência do Transtorno do Espectro Autista (TEA) com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD). A condição, conhecida como “dupla excepcionalidade”, combina um potencial extraordinário com desafios significativos e, por isso, costuma resultar em diagnósticos tardios ou imprecisos.

A dupla excepcionalidade descreve indivíduos que apresentam simultaneamente talentos acima da média em áreas intelectuais, criativas, artísticas ou acadêmicas e uma condição que impacta o desenvolvimento, como o autismo. Segundo especialistas, essa não é uma relação de compensação, mas de coexistência complexa, na qual características de cada condição podem se sobrepor, dificultando a identificação de necessidades reais.

Para a psicóloga especializada em Neurodiversidade, Andrea Costa, a compreensão desse perfil exige sensibilidade e conhecimento técnico. “A criança ou adulto com dupla excepcionalidade vive uma experiência singular. Muitas vezes, sua alta habilidade mascara dificuldades relacionadas ao autismo, e o inverso também é verdadeiro. É comum encontrarmos alunos vistos como ‘problemáticos’ ou ‘desmotivados’, quando, na verdade, seu cérebro opera de maneira não linear, com áreas de intenso brilho e outras que precisam de apoio”, explica.

Entre as manifestações mais frequentes dessa combinação estão o hiperfoco, a capacidade intensa de concentração, o pensamento sistemático voltado à identificação de padrões, a criatividade divergente e a memória excepcional, características que podem impulsionar desde a habilidade para resolver problemas complexos até a produção de obras originais, detalhadas e altamente criativas.

O neurocientista Sérgio Machado reforça que o olhar clínico precisa ir além do rótulo: “Quando compreendemos que altas habilidades e autismo podem se manifestar simultaneamente, percebemos o quanto ainda precisamos avançar em avaliação, acolhimento e estratégias educacionais. A dupla excepcionalidade não é exceção: é uma realidade que precisa ser vista”, afirma.

Para famílias e educadores, a assincronia do desenvolvimento quando avanços intelectuais convivem com dificuldades em habilidades práticas e emocionais, é um dos aspectos mais difíceis de compreender. Carlos Eduardo Moraes, pai de um adolescente duplamente excepcional, relata: “É comum que a criança seja identificada apenas por seu autismo, ou apenas pela superdotação. Raramente as duas condições são vistas juntas, e isso pode gerar sofrimento e incompreensão”.

A identificação correta demanda avaliação multidisciplinar, que inclui observação clínica, análise de histórico, entrevistas, compreensão do perfil sensorial e testes que vão além do QI tradicional. Após o diagnóstico, a orientação é que a abordagem pedagógica seja personalizada, contemplando enriquecimento curricular, estímulo aos talentos, apoio socioemocional e intervenções terapêuticas quando necessário.

O professor e CEO do Instituto Neurodiversidade, João Lucas Lima, destaca o impacto social dessa compreensão. “Quando reconhecemos a dupla excepcionalidade, não estamos apenas apoiando um estudante, estamos abrindo portas para que novas formas de pensar contribuam para a escola, para a ciência e para a sociedade. Mentes neurodivergentes trazem soluções que muitas vezes ninguém mais vê”, afirma.

Ao ampliar a discussão sobre a dupla excepcionalidade, especialistas reforçam que reconhecer e apoiar essas mentes brilhantes é fundamental não apenas para o desenvolvimento individual, mas para o avanço coletivo. Muitas das grandes contribuições em ciência, arte e tecnologia vieram de pessoas que pensavam de maneira diferente. Valorizar a neurodiversidade, incluindo a combinação entre autismo e altas habilidades, significa abrir espaço para novas formas de criar, inovar e transformar o mundo.

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