Orelha: morto brutalmente. Fotos: Divulgação
A casinha vazia à beira do metro de areia de Praia Brava, em Florianópolis, Santa Catarina, dispensa qualquer palavra. Ela se transformou em uma espécie de memorial ao cão Orelha: há flores, bilhetes e silêncio. Às vésperas de completar um mês da morte do cão comunitário - que tinha cerca de 10 anos de idade e foi brutalmente espancado no dia 4 de janeiro, sendo submetido à eutanásia devido à gravidade dos ferimentos -, a comunidade ainda aprende a conviver com a ausência daquele que fazia parte da rotina local. A saudade ganhou forma de homenagem e de mobilização.

Neste domingo (2) em que manifestações se espalharam pelo país pedindo justiça, Reinaldo Guimarães, vice-presidente da Associação de Moradores da Praia Brava e um dos cuidadores de Orelha, seguiu um ritual que antes era compartilhado com o cão. Passou pela casinha e caminhou até a praia onde costumavam brincar. “Saudade é o sentimento agora”, resume. Ele define Orelha como “o exemplo do que é amor para quem gosta de animal”.
O cuidado com Orelha era coletivo. Moradores e pescadores se revezavam na alimentação, troca de água, vacinação e manutenção da casinha, que era forrada com roupas de cama sempre limpas. “Ele não era um animal de rua. Tinha tutores”, reforça Reinaldo. Algumas pessoas percorriam mais de um quilômetro pela faixa de areia apenas para visitá-lo. “Vinham brincar, trazer comida e alegria. Ele e a Pretinha [cadela considerada companheira inseparável de Orelha] esperavam”, lembra.
Reinaldo e a sua mulher, Soraya Nascimento, moram a poucas casas do local onde Orelha vivia. Para o casal, o verão ganhou outro significado. “Quando você me ligou [se referindo à repórter], eu estava na praia pensando que, se ele estivesse vivo, estaria aqui correndo, brincando. Ele era nossa alegria”, diz Reinaldo. Soraya guarda uma das últimas lembranças do cão: dias antes de ser morto, Orelha corria pela areia tentando alcançar drones que sobrevoavam a praia. “Foi um dia feliz. É assim que prefiro lembrar”, conta. Ela contou ainda que na alta temporada, o pet tinha o hábito de acompanhar os moradores nas aulas de ginástica e beach tennis realizadas na orla.
Além da dor, ainda há indignação. Reinaldo critica o que ele considera “exposições oportunistas” do caso nas redes sociais. “Ver pessoas usando essa tragédia para ganhar engajamento nos deixa ainda mais arrasados”, afirma. Quando questionado da certeza de que a justiça pelo cão será feita, Reinaldo foi enfático: “os responsáveis [pelo crime] já carregam uma marca difícil de apagar. Quem fez isso não vai conseguir seguir a vida normalmente. Vão conseguir frequentar os mesmos lugares? Eu acredito que quem fez isso não pensa, é um psicopata”, desabafa.
Moradora da Praia Brava há 15 anos, Soraya lamenta que o bairro tenha ganhado projeção nacional por um episódio de violência. “Sempre foi um lugar tranquilo, frequentado por famílias. É triste que seja lembrado assim”, diz. Na esperança de ver a justiça por Orelha sendo feita em pouco tempo, o casal só tem uma certeza: “ele jamais será esquecido pela comunidade!”.
Medo de novo ataque
Preocupados com a possibilidade de um novo ataque aos animais comunitários, os moradores de Praia Brava se mobilizaram para retirar Pretinha das ruas. A cadela foi resgatada e encontra-se internada.
“Depois da morte do Orelha, ela ficou tristinha e levamos para uma veterinária, que constatou alguns problemas de saúde. Ela está passando por exames e se recuperando”, conta Reinaldo.
Após receber alta hospitalar, Pretinha vai passar a viver com uma moradora.
Mobilização nacional
Neste domingo (2), atos pedindo justiça por Orelha reuniram milhares de pessoas em diversas cidades do país. Em Florianópolis, a manifestação ocupou a Beira-Mar Norte com faixas, cartazes, gritos de ordem e a presença de animais de estimação. Protestos semelhantes ocorreram em capitais como São Paulo, Belo Horizonte, Vitória, Manaus, Belém e Rio de Janeiro, além de cidades do interior em diversos estados.
Entre os manifestantes estavam tutores, protetores e organizações em defesa e proteção dos animais. Os ativistas pediram celeridade nas investigações e punição para os responsáveis por maus-tratos. Nos atos, participantes vestiram preto, realizaram caminhadas simbólicas e cobraram penas mais severas para crimes contra animais.
No Rio de Janeiro, o protesto reuniu centenas de pessoas que pediram não à impunidade aos maus tratos à animais, enquanto percorriam vias dos bairros do Flamengo, Botafogo e Copacabana, na Zona Sul da cidade. Moradores do Grajaú, na Zona Norte, também realizaram um ato exibindo faixas com os dizeres: "Queremos Justiça" e "Orelha merecia viver".

Relembre o caso
Orelha morreu após ser brutalmente agredido em 4 de janeiro, na Praia Brava. O cão comunitário foi encontrado por uma moradora agonizando, que o levou para uma clínica veterinária, onde foi submetido à eutanásia devido à gravidade dos ferimentos. A Polícia Civil segue investigando o caso e analisando cerca de mil horas de imagens de câmeras de segurança do local. Os suspeitos são adolescentes, cujas informações seguem sob sigilo, como determina o Estatuto da Criança e do Adolescente.