Foto: Divulgação_Rio
Engasgada com o vice no ano passado, a Grande Rio foi a penúltima escola a passar pela passarela do samba este ano. A “revolução” prometida, não aconteceu, e embora com uma abertura de lindo impacto visual, a escola de Caixas não empolgou o povo que curte a noite final do Carnaval carioca.
A agremiação apresentou “A Nação do Mangue” com leitura contemporânea e vigor simbólico. O mangue emergiu como metáfora de resistência, criação e identidade periférica, sustentando uma narrativa visual de forte impacto plástico e coerência conceitual.
As fantasias dialogaram diretamente com a estética da lama e da fertilidade criativa. Texturas orgânicas, recortes assimétricos e o uso expressivo de materiais que evocavam o ambiente do manguezal conferiram originalidade ao conjunto, sobretudo na impactante abertura. A paleta terrosa contrastou com explosões cromáticas nas alas mais festivas, reforçando a ideia de que da lama nasce a arte — da adversidade floresce a potência criadora.
As alegorias ampliaram essa concepção ao transformar o manguezal em arquitetura simbólica no carro de abertura. Estruturas sinuosas evocavam raízes aéreas e galhadas entrelaçadas, criando a sensação de um território vivo, que pulsa e resiste. Elementos cenográficos que sugeriam caranguejos, cobras, jacarés, águas turvas e palafitas compuseram uma das imagens mais marcantes da noite.
Entretanto, o restante do conjunto alegórico não manteve o mesmo grau de ousadia. Embora os carros seguintes tenham apresentado soluções cenotécnicas eficientes e volumetrias imponentes, optaram por formatos mais tradicionais, o que diluiu parcialmente a força inovadora anunciada na abertura. Ainda assim, traduziram com clareza a potência cultural que brota da periferia — do lodo à luz, da lama à consagração artística.
A escola realizou um desfile tecnicamente correto e consistente, mas sem alcançar aquela catarse coletiva capaz de provocar arrebatamento imediato. Não se pode deixar de registrar a sensação causada pela presença de Virgínia como rainha de bateria: ela, sim, arrancou muitos gritos e aplausos — mas o impacto ficou restrito a esse momento.