Foto: Divulgação
Érica de Aguiar da Conceição, 32 anos, está internada no Hospital Municipal Dr. Ernesto Che Guevara, em Maricá, após ser brutalmente agredida na madrugada do último dia 9 de março em uma casa de shows do município, na região metropolitana do Rio de Janeiro. A Prefeitura de Maricá informou, por meio da Secretaria de Saúde, que ela foi transferida do CTI para a enfermaria neste sábado (14) e seu estado é considerado estável. Érica segue em acompanhamento multiprofissional, incluindo suporte psicológico e de assistência social.
De acordo com relato da companheira da vítima, identificada como Bruna, que presenciou toda a cena, tudo começou quando dois homens passaram a assediar e provocar o casal dentro do Pier 021 Lounge, com ofensas homofóbicas e gestos obscenos. A violência escalou após Érica recusar a abordagem de um dos agressores. Ainda dentro do estabelecimento, ela foi atingida com um soco. Os homens chegaram a ser retirados pelos seguranças, mas a situação se agravou do lado de fora do estabelecimento.
Na área externa, Érica foi espancada, caiu desacordada com ferimento na cabeça e muito sangue. As lesões são graves: três costelas quebradas, traumatismo craniano, hematoma no rim e lesões no rosto. Segundo Bruna, os agressores riam enquanto a vítima estava caída no chão, sem que houvesse reação imediata das pessoas ao redor.
O Pier 021 Lounge emitiu nota de esclarecimento confirmando que o início da ocorrência se deu dentro do espaço, mas negou ter expulsado o casal. O estabelecimento afirma que apenas o agressor foi retirado do interior, que funcionários tentaram intervir e acionaram o socorro, e que os proprietários estiveram presentes na delegacia e no hospital.
O episódio é investigado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro. O caso também é acompanhado pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos, por meio da Coordenação LGBTQIAPN+, e pelo programa Rio Sem LGBTIfobia, do governo estadual.
O que aconteceu com Érica não é um episódio isolado. Ele se insere em uma crescente onda de violência misógina e LGBTfóbica que tem encontrado terreno fértil nos chamados grupos redpill — movimento de ideologia masculinista que se dissemina sobretudo em redes sociais e plataformas de vídeo, pregando o ódio sistemático contra mulheres e a comunidade LGBTQIAPN+.
A narrativa desses grupos responsabiliza mulheres pela própria violência que sofrem, especialmente quando ousam rejeitar homens. O que aconteceu com Érica — espancada porque disse não — é a tradução mais brutal dessa lógica.
Os números confirmam o que os casos mostram. No Brasil, quatro mulheres são assassinadas por dia em situação de feminicídio, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A violência de gênero segue sendo uma das maiores emergências humanitárias do país, e os avanços legais — como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio como crime hediondo — ainda convivem com uma realidade de impunidade, omissão e naturalização da violência contra a mulher.
Érica sobreviveu.