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Praça dos Direitos Humanos

Chacina da Baixada, 21anos: famílias ocupam praça em Nova Iguaçu

Ato público reúne mães de vítimas, movimentos sociais e defensores de direitos humanos


Placa e flores foram depositadas em um dos locais da chacina. Foto: Divulgação

Na noite de 31 de março de 2005, policiais militares insatisfeitos com mudanças no comando do batalhão de Duque de Caxias percorreram os municípios de Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense, e executaram a esmo 29 pessoas em menos de três horas. Trabalhadores, jovens, pais e mães de família foram mortos em bares, padarias e pontos de ônibus sem chance de reação, defesa ou fuga. Duas décadas e um ano depois, a maioria das famílias ainda espera por justiça.

Para marcar a data, a Associação Fórum Grita Baixada (AFGB), a Rede de Mães e Familiares de Vítimas de Violência de Estado da Baixada Fluminense e a Rede de Educação Popular da Baixada Fluminense organizam um ato público de memória, denúncia e resistência, na Praça dos Direitos Humanos, em Nova Iguaçu, a partir das 17 horas desta terça-feira (31).

A programação inclui a exibição do filme "Nossos Mortos Têm Voz", uma roda de conversa com mães e familiares, a apresentação coreográfica "Te desejo, vida" e a leitura dos nomes das 29 vítimas da Chacina da Baixada Fluminense e das demais vítimas da violência letal e dos desaparecimentos forçados na região. O encerramento terá poesia.

"Parece que foi ontem"

Para quem perdeu alguém naquela noite, o tempo não amenizou a dor e a indignação. A ferida ainda sangra.

"São 21 anos desde que aconteceu a Chacina da Baixada. Não só para mim, mas para todos os familiares, parece que foi ontem. Tudo ao invés de melhorar, piorou. A Baixada é um território que sempre teve violações de direitos, principalmente em relação ao direito à vida. Existem muitas famílias que tiveram perdas violentas, casos de desaparecimentos forçados que não tiveram seus entes queridos para enterrar. Isso é um sofrimento, uma angústia muito grande", lamenta Luciene Silva, da Rede de Mães e Familiares de Vítimas de Violência de Estado da Baixada Fluminense.

Silvânia, familiar de uma das 29 vítimas da Chacina da Baixada de 2005, descreve o que chama de covardia do Estado. "São 21 anos de injustiça. É muito triste conviver com a impunidade. O tempo passa, mas a saudade permanece. É importante relembrar para não cair no esquecimento."

"A Baixada Fluminense, infelizmente, é muito invisibilizada. A nossa sociedade esquece das coisas muito rápido. E só quem fica com essa dor é a família que fica doente com os traumas e as memórias que não se apagam do ente querido que se foi nessa covardia. Queremos ser lembradas para que outras chacinas como essa não venham a acontecer", afirma Renata Aguiar, integrante do coletivo de mães da Baixada Fluminense, que perdeu dois filhos para a violência policial na região em outros episódios distintos.

Os cinco PMs foram condenados, entretanto, se beneficiam da Lei de Execução Penal, que limitava o cumprimento máximo a 30 anos à época dos fatos — limite ampliado para 40 anos pelo Pacote Anticrime de 2019. A progressão de regime também é permitida. Parte dos condenados cumpriu pena no BEP (Batalhão Especial Prisional), unidade que ficou conhecida como "Batalhão das Festinhas" pelas condições diferenciadas oferecidas a PMs presos, gerando críticas sobre tratamento privilegiado. A cadeia de comando nunca foi responsabilizada criminalmente: a investigação focou apenas nos executores diretos.

Na esfera civil, cada família precisou entrar individualmente com uma ação contra o Estado do Rio de Janeiro. O Estado recorreu sistematicamente das decisões, mesmo após o STJ manter os vereditos. A maioria dos processos alcançou o trânsito em julgado — quando não há mais recursos possíveis —, mas o pagamento das indenizações entra na fila de precatórios, aguardando a ordem orçamentária do governo para ser quitado.

Durante essa longa batalha, muitos familiares, sem o devido suporte psicológico, perdem empregos, adoecem e se separam ao longo dos anos.

Memória como instrumento político

Para Ilsimar de Jesus, também da Rede de Mães, o ato tem uma dimensão que vai além da homenagem. "Lembrar não é apenas um ato simbólico, é um gesto político. A memória preserva histórias que muitos tentaram apagar, denuncia injustiças e impede que crimes sejam naturalizados ou esquecidos. Resistir é transformar lembranças em ação, dor em denúncia e história em instrumento de mudança."

O coordenador executivo da AFGB, Adriano Moreira de Araújo, reforça: "Cada 31 de março é um ato de resistência contra o esquecimento. Enquanto houver mães que choram filhos assassinados pelo Estado e sem nenhuma resposta da Justiça, nossa obrigação é estar na rua, ocupar a praça, gritar o nome de cada vítima."

Ao longo dessas duas décadas, a dor da perda se transformou em movimento coletivo de familiares organizados para denunciar a impunidade e reivindicar o direito à vida nas periferias. Em um contexto em que a violência policial segue atingindo majoritariamente jovens negros e moradores de territórios periféricos, lembrar a Chacina da Baixada é também denunciar a continuidade dessas violações. O ato não é apenas olhar para o passado. É um espelho do presente.

Contexto atual

A Baixada Fluminense segue entre as regiões com maiores índices de letalidade policial no estado do Rio de Janeiro. A AFGB atua em 13 municípios da região no atendimento a famílias de vítimas de execuções e desaparecimentos forçados.

Em março de 2026, o Brasil aprovou a lei que criminaliza o desaparecimento forçado como crime hediondo. A conquista, da qual a AFGB foi protagonista, representa um grande passo na luta por justiça pelas vítimas de violência do Estado, mas chegou tarde demais para as famílias das 29 vítimas de 2005.

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