Samuel Lino comemora o primeiro gol do Flamengo. Foto: Gilvan de Souza
O Maracanã tem dessas coisas: ele capta a atmosfera do momento antes mesmo de a bola rolar. Na tarde deste sábado, o ar carregava uma mistura de nostalgia e urgência. Sob os olhos atentos de Jorge Jesus, que assistia de um dos camarotes como um fantasma bem-vindo do passado, o Flamengo de Leonardo Jardim entrou em campo remendado por dez desfalques, mas com o apetite dos dias de glória.
O que se viu foi um atropelo coreografado, uma vitória por 3 a 0 sobre o Coritiba que teve a assinatura de quem quer provar que a lista de uma Copa do Mundo é apenas um detalhe burocrático.
A Fome dos "Esquecidos"
Se Carlo Ancelotti estivesse sintonizado no Rio de Janeiro, talvez tivesse repensado algumas vagas para o Mundial. Samuel Lino e Pedro, ambos presentes na lista ampliada da Seleção mas preteridos da convocação final, jogaram com o orgulho ferido, e o futebol agradece quando o talento decide se vingar com bola na rede.
Logo aos 10 minutos, a blitz funcionou. Pedro, agindo como o predador de área que é, sufocou a saída paranaense. A falha da defesa do Coxa foi o pretexto para o centroavante servir Samuel Lino, que bateu na saída do goleiro com a frieza de quem sabe exatamente o seu valor. 1 a 0.
O roteiro do Coritiba, que já era complexo diante do ímpeto carioca, ruiu de vez aos 35 minutos da primeira etapa. Pedro Rocha perdeu o tempo da bola e acertou Vitão. O VAR chamou, o cartão vermelho subiu, e a equipe de Fernando Seabra viu o Maracanã se transformar em uma ladeira íngreme demais para ser escalada com um homem a menos.
A Orquestra de Jardim e o Ponto Final
Na segunda etapa, o Flamengo não deu espaço para o drama. Leonardo Jardim ousou ao escalar quatro atacantes de início, e a recompensa veio na base da insistência e da troca de papéis. Aos 16 minutos, a dinâmica do primeiro gol se inverteu: desta vez, Samuel Lino apareceu pelo lado esquerdo e descolou um cruzamento cirúrgico para Pedro empurrar para as redes. Um gol com o DNA do legítimo camisa 9.
O Coritiba ainda tentou respirar em escapadas esporádicas com Sebastián Gómez, parado por Rossi, mas o ritmo era ditado pelos donos da casa. O golpe de misericórdia veio novamente dos pés do homem do jogo. Aos 24, Samuel Lino arriscou da entrada da área, a bola desviou no meio do caminho e encobriu Pedro Rangel. Era o terceiro. O Maracanã explodia em festa, e o jogo ali, por puro protocolo, decidiu que já podia terminar. A temperatura baixou e o relógio virou mero passageiro.
A Pausa e a Caça ao Líder
Com o triunfo incontestável, o Rubro-Negro atinge os 34 pontos, mantendo a Chapecoense e o líder Palmeiras na alça de mira, especialmente por ainda ter um jogo atrasado contra o Mirassol para cumprir.
Agora, o futebol brasileiro silencia suas arquibancadas para dar lugar ao Mundial. O Flamengo viaja para a pausa com a alma lavada e a certeza de que, sob o comando de Jardim e a fome de seus atacantes, o campeonato continua absolutamente vivo. A retomada, prometida para 22 de julho contra a Chape, parece longe, mas o torcedor carioca vai dormir sabendo que o sarrafo voltou a subir.