Foto: José Cruz/Agência Brasil
A greve dos rodoviários no Rio de Janeiro deixou de ser apenas um problema de mobilidade urbana e atingiu diretamente a rotina das empresas. Com ônibus circulando em quantidade reduzida, trabalhadores enfrentaram atrasos, dificuldade para chegar ao trabalho e, em muitos casos, incerteza até para voltar para casa após o expediente.A paralisação começou na segunda-feira, 29 de junho, e terminou nesta quarta-feira, 1º de julho.
Na Barra da Tijuca, região que concentra escritórios, empresas, centros comerciais, clínicas, lojas, restaurantes e serviços, o impacto foi imediato. Muitos profissionais que trabalham no bairro moram em regiões como Campo Grande, Gardênia Azul, Vila Isabel e outros pontos distantes. Quando o transporte falha, a consequência não fica restrita ao ponto de ônibus: ela chega ao caixa, ao atendimento ao cliente e à operação interna das empresas.
Para Karen Araújo, que mora em Campo Grande e trabalha na Barra da Tijuca, a greve mudou completamente a rotina. “Quem mora longe não sofre só para chegar ao trabalho. A gente também fica preocupado com a volta para casa. Você sai sem saber se vai conseguir ônibus, se vai precisar gastar com transporte por aplicativo ou se vai chegar muito tarde. Isso mexe com o rendimento, com o emocional e com toda a organização do dia”, afirmou Karen Araújo.
O caso dela representa milhares de trabalhadores que fazem deslocamentos longos diariamente dentro do Rio. A distância entre casa e trabalho, que já exige planejamento em dias normais, se transforma em um obstáculo ainda maior em períodos de paralisação.
Juan Guedes, morador da Gardênia Azul e funcionário na Barra, disse que o maior problema é a imprevisibilidade. “O trabalhador até tenta se organizar, sair mais cedo, buscar outra condução, mas quando não existe ônibus suficiente, tudo vira incerteza. A gente não sabe se vai chegar no horário, se vai conseguir cumprir a jornada inteira ou se vai ter condução para voltar. Isso também pesa para a empresa, porque atrasa reunião, atendimento e entrega”, relatou Juan Guedes.
Já João Vaz, que mora em Vila Isabel e também trabalha na Barra da Tijuca, destacou que a greve afetou a produtividade antes mesmo de o funcionário chegar ao escritório. “Quando a pessoa passa horas tentando chegar ao trabalho, ela já chega cansada. E quando passa o dia preocupada em como vai voltar para casa, a concentração também cai. Não é falta de vontade de trabalhar, é falta de estrutura para conseguir cumprir a rotina”, afirma João Vaz.
Diante do cenário, o advogado tributarista e empresário Bruno Medeiros Durão, fundador da DAP Advocacia, adotou uma orientação interna para reduzir o impacto da greve sobre os colaboradores e manter a operação funcionando. A medida incluiu horário flexível para quem dependesse de ônibus, possibilidade de chegada até as 10h, orientação para que o colaborador registrasse ausência de transporte no ponto e autorização prévia para uso de transporte alternativo em casos comprovados.
A comunicação interna enviada aos colaboradores informou que, por força judicial, ao menos 80% da frota deveria circular em todas as linhas e orientou os funcionários a aguardarem no ponto antes de buscar outra alternativa. Caso o ônibus não passasse após cerca de uma hora, a recomendação seria registrar fotos e comprovar a dificuldade. Depois disso, o colaborador deveria pedir autorização ao gerente, diretor, CEO, RH ou secretaria antes de solicitar transporte por aplicativo.
O escritório também orientou que o uso de Uber fosse feito de forma racional, preferencialmente apenas até uma linha de ônibus ou BRT em funcionamento, evitando custos altos e garantindo que o deslocamento fosse possível sem prejudicar o colaborador. Em casos autorizados, a empresa liberou o transporte ou permitir o reembolso posterior.
Para Bruno, a medida combinou responsabilidade empresarial com organização operacional. “Quando existe uma greve de ônibus, o empresário não pode simplesmente fingir que nada está acontecendo. A empresa precisa ter regra, comunicação e bom senso. Orientamos os colaboradores a comprovarem a dificuldade, pedirem autorização antes de qualquer gasto e usarem alternativas de forma estratégica. Isso protegeu o trabalhador, evita abuso e mantém a operação funcionando”, afirmou Bruno Medeiros Durão.
Segundo ele, o impacto da greve não foi apenas individual, mas coletivo. “Um dia parado pesa no resultado de todos. Se o funcionário não consegue chegar, o atendimento atrasa, a reunião é remarcada, a entrega é comprometida e o cliente sente. Por outro lado, a empresa também precisa agir com responsabilidade e não transformar uma crise de transporte em punição automática para o trabalhador”, destacou.
Bruno afirmou que empresas que dependem de equipes presenciais precisam ter planos de contingência para situações como greve, enchentes, operações policiais, bloqueios urbanos ou falhas graves de mobilidade. “Empresas precisam estar preparadas para crises urbanas. Isso inclui horário flexível, comunicação rápida com gestores, autorização prévia para custos extras, comprovação do problema e orientação clara para todos os setores. O improviso custa caro. Quando a empresa organiza o fluxo, ela reduz conflito, protege a equipe e preserva produtividade”, explicou.
O especialista reforçou que o empresário deve ter cautela ao lidar com atrasos ou faltas causadas por colapso no transporte público. “É preciso analisar o caso concreto. Quando há greve de ônibus amplamente noticiada, com impacto real no deslocamento da população, a empresa precisa agir com razoabilidade. A punição automática pode gerar conflito trabalhista e prejudicar o clima interno. O melhor caminho é documentar, dialogar e buscar alternativas para manter a operação sem penalizar injustamente quem depende do transporte público”, orientou Bruno.
Além dos efeitos internos, a greve também pode atingir diretamente pequenos negócios. Com menos funcionários nas ruas, menos circulação de consumidores e maior dificuldade logística, bares, restaurantes, lojas, clínicas, escritórios e prestadores de serviço podem registrar queda no movimento, atrasos em entregas e cancelamentos de atendimentos.
Para Bruno, a paralisação deixou uma mensagem clara para o empresariado carioca. “O empresário precisa entender que transporte público também faz parte da engrenagem econômica da cidade. Quando o ônibus para, o comércio perde movimento, o escritório perde produtividade, o cliente desmarca, o trabalhador se desgasta e o custo operacional aumenta. O impacto é coletivo. A diferença está em como cada empresa reage: com desorganização ou com liderança”, concluiu.