O futebol gosta de flertar com a narrativa do quase. No Maracanã, 90 minutos podem transcorrer como um sopro de expectativa, alimentados por um enredo que parecia desenhado à feição da torcida rubro-negra. Mas a noite deste domingo provou, mais uma vez, que o relógio não perdoa a falta de contundência e que a tabela da liderança não espera por quem hesita.
Depois de um primeiro tempo ensaiado no tom do equilíbrio e da prudência, a partida parecia ter encontrado seu rumo após o intervalo. Aos 11 minutos da etapa final, na cobrança de escanteio de Lorran e no desvio cirúrgico de Jorginho, Léo Pereira surgiu para estufar a rede e incendiar as arquibancadas. O placar favorável dava a impressão de que o objetivo maior, que era encostar na liderança e encurtar a distância para o Palmeiras, estava ao alcance das mãos.
Contudo, a vantagem no futebol costuma ser uma armadilha sutil. O Flamengo manteve a presença no campo de ataque, acionando Arrascaeta e Pedro em jogadas que exigiram intervenções cruciais do goleiro Rafael, mas não conseguiu selar a vitória. E contra um São Paulo letal nos detalhes, dar margem ao azar é fatal. Aos 25 minutos, na bola erguida por Osorio pela esquerda, Calleri fez o que dele se espera: subiu firme e cabeceou para o fundo da rede, restabelecendo a igualdade e impondo um balde de água fria ao ambiente carioca.
O trecho final do confronto ganhou contornos de tensão e nervosismo. Substituições para renovar o fôlego ofensivo, reclamações com a arbitragem de Anderson Daronco sobre lances polêmicos e até expulsão na comissão técnica visitante moldaram o clima truncado do encerramento. Nos acréscimos, a ilusão da vitória ainda piscou no Maracanã quando Samuel Lino balançou as redes após passe de Emerson Royal e participação de Wallace Yan. Mas a precisão fria da tecnologia, no impedimento semiautomático, anulou o tento e sepultou as esperanças.
O apito final trouxe um empate em 1 a 1 com sabor amargo. Mais do que o ponto somado, fica a constatação de um distanciamento indigesto no topo da tabela, vendo o líder abrir sete pontos de vantagem. O Flamengo permanece na vice-liderança, mas com a indigesta sensação de que a noite de domingo cobrou um preço alto demais por chances desperdiçadas e pela incapacidade de sustentar a vantagem.