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Fator de risco

Colesterol alto atinge cerca de 40% dos adultos e nova diretriz torna metas mais rigorosas

Alterações são um pouco mais frequentes entre mulheres e pessoas com 60 anos ou mais


Foto: Divulgação

Cerca de 40% dos adultos brasileiros apresentam níveis elevados de colesterol, um dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares. Infartos e acidentes vasculares cerebrais, os AVCs, atingem centenas de milhares de pessoas todos os anos no país.

As alterações do colesterol total e do LDL, conhecido como colesterol “ruim”, costumam ser discretamente mais frequentes entre as mulheres e nas pessoas com 60 anos ou mais. Os números ajudam a dimensionar um problema que, na maior parte do tempo, não provoca sintomas e só aparece quando o paciente faz exames ou já apresenta alguma complicação.

No Dia Nacional de Combate ao Colesterol, celebrado em 8 de agosto, uma mudança recente amplia essa discussão. A Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose tornou as metas de controle mais rigorosas e criou a categoria de risco cardiovascular extremo.

Para esses pacientes, o LDL deve ficar abaixo de 40 mg/dL. O colesterol não-HDL, que reúne diferentes partículas associadas à formação de placas nas artérias, precisa permanecer abaixo de 70 mg/dL.

A recomendação se aplica principalmente a pessoas com doença cardiovascular estabelecida e risco elevado de sofrer um novo infarto, AVC ou outra complicação vascular.

Para a cardiologista Isa Bragança, a mudança reforça que o resultado do exame não pode ser interpretado apenas pela faixa de referência do laboratório.

“Um LDL de 90 mg/dL pode parecer adequado no laudo, mas estar muito acima do alvo para quem já teve um infarto, um AVC ou possui doença arterial. A meta depende da história clínica e do risco de cada paciente”, afirma.

A diretriz estabelece cinco faixas. Para pessoas de baixo risco, a meta de LDL é inferior a 115 mg/dL. No risco intermediário, deve ficar abaixo de 100 mg/dL. Para os grupos de alto e muito alto risco, os limites caem para 70 mg/dL e 50 mg/dL. No risco extremo, o alvo é inferior a 40 mg/dL.

Nos três últimos grupos, também se recomenda uma redução de pelo menos 50% em relação ao valor inicial.

Na prática, duas pessoas com o mesmo resultado podem receber orientações diferentes. Histórico de infarto ou AVC, hipertensão, diabetes, doença renal, tabagismo e presença de aterosclerose influenciam diretamente a definição da meta.

O colesterol não-HDL também passou a receber mais atenção. Calculado pela diferença entre o colesterol total e o HDL, ele reúne um conjunto mais amplo de partículas aterogênicas. A informação pode ser especialmente útil em pessoas com diabetes, obesidade, triglicerídeos elevados e outras alterações metabólicas.

“Às vezes, o LDL está próximo da meta, mas o não-HDL continua elevado. Olhar apenas um indicador pode dar uma falsa impressão de que o risco está controlado”, explica Isa.

Entre os idosos, o número não decide sozinho

O fato de as alterações serem mais frequentes após os 60 anos não significa que todos os idosos devam receber o mesmo tratamento. A geriatra Márcia Umbelino destaca que idade, isoladamente, diz pouco sobre a condição real do paciente.

Uma pessoa de 75 anos ativa, independente e que já sofreu um infarto tem necessidades diferentes das de outra da mesma idade com fragilidade avançada, comprometimento cognitivo, doença renal e uso de vários medicamentos.

“Idade não é motivo para deixar de tratar o colesterol, mas também não autoriza uma conduta automática. É preciso considerar funcionalidade, doenças associadas, risco de interações e o tempo necessário para que o tratamento produza benefício”, afirma Márcia.

Essa avaliação evita dois erros frequentes: abandonar o controle do colesterol apenas porque o paciente envelheceu ou intensificar a medicação sem considerar fragilidade, tolerância, função renal e polifarmácia.

Em idosos robustos, especialmente quando já existe doença cardiovascular, reduzir o LDL pode diminuir o risco de novos eventos. Nos pacientes frágeis, o equilíbrio entre benefício, efeitos adversos e qualidade de vida ganha mais peso.

“O alvo precisa fazer sentido para aquele paciente. Em alguns momentos, intensificar o tratamento é necessário. Em outros, simplificar o esquema e preservar a autonomia pode ser a decisão mais adequada”, observa a geriatra.

Quando o colesterol alto pode ser genético

Um LDL muito elevado, especialmente quando aparece cedo ou se mantém alto apesar das mudanças na alimentação, pode indicar hipercolesterolemia familiar.

A condição é genética e expõe o organismo a níveis elevados de LDL desde a infância. Sem diagnóstico e tratamento, a pessoa pode desenvolver aterosclerose e doença coronariana décadas antes do esperado.

Adultos com LDL persistentemente acima de 190 mg/dL, sem uma causa secundária que explique a alteração, merecem uma investigação mais detalhada. Infartos precoces entre pais, irmãos e avós, mortes súbitas e casos de colesterol muito alto em diferentes gerações também devem acender o alerta.

Alguns sinais físicos podem aparecer. Os xantomas são depósitos de gordura que formam nódulos ou espessamentos, principalmente nos tendões. Já os xantelasmas são placas amareladas ao redor dos olhos. Sozinhos, não confirmam o diagnóstico, mas ganham importância quando surgem em pessoas jovens e acompanham níveis muito elevados de LDL.

“Quando encontramos um LDL acima de 190 mg/dL, não podemos atribuir tudo à alimentação. É preciso saber há quanto tempo o colesterol está alto, investigar o histórico familiar e afastar causas como hipotireoidismo ou doença renal”, explica Isa Bragança.

Como se trata de uma alteração hereditária, o diagnóstico de um paciente pode levar à identificação de outros casos entre filhos, irmãos e pais.

“É uma investigação que pode mudar o cuidado de várias gerações. Encontrar cedo significa ter a chance de agir antes do primeiro infarto”, destaca Márcia Umbelino.

Novos tratamentos ampliam as possibilidades

O tratamento do colesterol avançou além das estatinas. Hoje, há medicamentos orais que podem ser associados e terapias injetáveis capazes de reduzir o LDL de maneira expressiva. Parte dessas opções é indicada para pacientes de maior risco, pessoas com hipercolesterolemia familiar ou quem não alcança as metas com o tratamento convencional.

Também estão em estudo novas moléculas orais, medicamentos de aplicação mais espaçada e técnicas de edição genética. As pesquisas buscam produzir efeitos prolongados sobre genes envolvidos no controle do colesterol, mas essas terapias ainda são experimentais e não fazem parte da rotina clínica.

“Há alguns anos, atingir um LDL abaixo de 40 mg/dL parecia inviável para muitos pacientes. Com a combinação das terapias disponíveis, isso já é possível em parte dos casos. O desafio é identificar quem realmente precisa dessas opções e ampliar o acesso”, avalia Isa.

Os avanços, porém, não resolvem um problema antigo: o abandono do tratamento assim que o exame melhora.

“O paciente vê o LDL cair e acredita que o problema desapareceu. Muitas vezes, o resultado está controlado justamente porque a medicação está funcionando. Quando ele interrompe, o colesterol volta a subir sem provocar sintomas”, alerta a cardiologista.

Para Márcia Umbelino, a eficácia do tratamento também depende de fatores que não aparecem na receita.

“Adesão envolve custo, acesso, efeitos adversos, quantidade de comprimidos e compreensão do que está sendo tratado. Prescrever é apenas uma parte. A outra é construir uma estratégia que o paciente consiga manter ao longo do tempo”, conclui.

No Dia Nacional de Combate ao Colesterol, a mensagem central vai além de reduzir um número no exame. O risco cardiovascular depende do conjunto da história clínica e do tempo em que as artérias permanecem expostas ao excesso de LDL.

Fontes técnicas: Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025; Atualização da Diretriz Brasileira de Hipercolesterolemia Familiar – 2021; Ministério da Saúde.

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