Gisele Bazanella. Foto: Divulgação
Quase 7 anos a mais de vida. Se você multiplicar pelo custo mensal de viver, dá um preço que precisa ser levado em consideração e que quase ninguém calcula. Nós, mulheres, somos proporcionalmente a maioria, pouco mais de 51% da população brasileira. E, segundo as tábuas de mortalidade do IBGE, nossa expectativa de vida ao nascer é de 79,9 anos, contra 73,3 anos dos homens. São 6,6 anos a mais de aposentadoria para financiar. O problema de não poupar agora é que a conta lá na frente, provavelmente, não irá fechar. E no pior momento, quando não há como recompor renda.
No Brasil, em 2021, segundo o Banco Central, 16 pontos percentuais separam as porcentagens de mulheres e homens que pouparam: 54% de homens e 38% de mulheres. E, quando o objetivo era a aposentadoria, esse percentual foi ainda mais baixo: apenas 16% de mulheres pouparam, contra 24% de homens. Viver mais e poupar menos? A matemática não fecha.
Segundo o Raio X do Investidor Brasileiro 2026, a poupança é o investimento mais utilizado, tanto por mulheres como por homens: 61% em 2025. E, segundo a B3, o número de homens que investem em renda variável é historicamente maior que o número de mulheres: 73% contra 27% foi a proporção em abril deste ano.
De acordo com o Relatório de Cidadania Financeira (2025), cerca de 23,6% é o percentual de mulheres que relatam ter condições de cobrir suas despesas por mais de 6 meses após a perda da principal fonte de renda, contra 29,9% dos homens. Os homens informaram ter renda superior à das mulheres.
E 53,6% é o percentual de mulheres que têm índice de saúde financeira ruim, muito baixo ou baixo; entre os homens, esse percentual é de 43,2%. Em contrapartida, quando a realidade é saúde financeira boa, muito boa e ótima, encontram-se 36,5% das mulheres e 46,6% dos homens, conforme a Série Cidadania Financeira (2023).
No quesito posse de cartões de crédito, 63% de mulheres e 77% de homens, em 2021. No mesmo ano, 48% de homens tomaram empréstimo em uma instituição financeira, contra 33% de mulheres.
Se, a essa altura, você está pensando: “Mulher é mais conservadora.” Será? Quando esta hipótese (de que mulheres, em suas decisões de investimento, tenderiam a apresentar maior aversão ao risco e/ou menor grau de otimismo do que os homens) foi testada empiricamente, o resultado veio na direção oposta à esperada. As recomendações assinadas por mulheres tendem a ser mais otimistas. Foram 7.496 dados; 12,75% representaram recomendações de mulheres, emitidas entre 2009 e 2021.
Aqui se trata de quem recomenda ações, analistas como eu, não de quem investe. Ainda assim, se a hipótese cai entre mulheres profissionais, ela deixa de servir como explicação automática para outras mulheres. Neste estudo, a diferença se concentrava nas recomendações de venda, uma vez que apontavam uma visão pessimista em relação à performance futura daquele título. Tais recomendações foram emitidas com mais frequência por homens.
O fato é que mulheres e pessoas com renda familiar mais baixa têm mais chance de apresentar níveis menores tanto de saúde financeira quanto de bem-estar financeiro e de resiliência. Menos renda, menos crédito, menos margem para errar e mais preocupação. Aqui vale perguntar: “Quanto risco sobra para quem parte daí?”
E por que isso não é só um problema delas? Em matéria publicada, Emma Wheeler projeta que, com a transferência de patrimônio das próximas décadas, as mulheres passarão a responder por cerca de metade da riqueza mundial e estima que, se empresárias tivessem as mesmas condições de financiamento que seus pares homens, o PIB global poderia crescer entre 3% e 6%. Além disso, como bem observa, cada vez mais as mulheres possuem e controlam riquezas como empreendedoras, líderes empresariais e herdeiras, por viuvez ou divórcio.
De fato, o dinheiro vai chegar nas mãos de algumas mulheres de um jeito ou de outro.
A pergunta que fica é: os dados vão melhorar por transferência ou por construção?
Por Gisele Bazanella, Estrategista da WMF Capital Research e Analista de Investimentos CNPI-T.
Considerações fundamentadas com base em:
GHOSSAIN, A. M. EL; VIEIRA, A. A. S. N.; GODOI, A. S.; MIRAPALHETA, G. C. Influência de gênero nas recomendações de ações por analistas de Equity Research. FGV EAESP, São Paulo, v. 64, n. 4, 2024, p. 1-22.
IBGE. Tábuas completas de mortalidade para o Brasil - 2024. Breve análise da evolução da mortalidade no Brasil. Ministério do Planejamento e Orçamento. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Diretoria de Pesquisas, Coordenação de População e Indicadores Sociais (COPIS). Rio de Janeiro, 2025.
B3. Pessoa Física. Uma análise da evolução dos investidores na B3. 2026.
ANBIMA. Raio X do Investidor Brasileiro 2026. 9ª edição.
BCB. Relatório de Cidadania Financeira, 2025. Jornada da Cidadania Financeira: do acesso ao bem-estar financeiro. Banco Central do Brasil, Brasília, DF.
BCB. Série Cidadania Financeira: estudos sobre educação, proteção e inclusão. Global Findex: o Brasil na comparação internacional. Banco Central do Brasil, Brasília, DF, 2023. 7ª edição. 42 p.
FORBES. Mulheres vão controlar 50% da riqueza mundial em 25 anos, diz executiva da UBS. Helena C. Peralta. 04 de março de 2025. Acesso: https://forbes.com.br/forbes-mulher/2025/03/mulheres-vao-controlar-50-da-riqueza-mundial-em-25-anos-diz-executiva-do-ubs/