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Nascida em 1989, em Mato Grosso do Sul, Neusa conta que nasceu na Aldeia Porto Lindo e que sua família deixou o estado no mesmo ano de seu nascimento, seguindo um caminho que, segundo ela, já havia sido percorrido por seus antepassados. Passaram quatro anos no Espírito Santo antes de chegar a Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro.
As primeiras lembranças são de uma infância entre a mata, a cachoeira e as outras crianças da comunidade. “Eu fui uma criança muito extrovertida. Sempre brincava muito na mata, na cachoeira. Eu lembro que brincava de casinha e sempre cuidava de todo mundo ali, das crianças que estavam ao meu redor. Eu sempre liderava, já desde pequena.”
A menina que organizava as brincadeiras, porém, ainda não imaginava que um dia seria escolhida para liderar seu povo.
A figura do pai atravessa as lembranças de Neusa. Cacique, agricultor e liderança indígena, foi com ele que começou a frequentar as reuniões do movimento ainda pequena. “Nasci dentro do movimento indígena.”
Neusa se lembra de ficar sentada, observando adultos contarem histórias que, para uma criança, pareciam difíceis de compreender. “Eu me via muito lá no cantinho, como uma criança sentada e assistindo várias lideranças narrando histórias surreais, mas que acabam sendo reais.”
Foi também o pai quem insistiu para que a filha estudasse. O acesso à escola exigia longas caminhadas. Segundo Neusa, ele chegava a percorrer cerca de dez quilômetros para ajudá-la a estudar e depois buscá-la no ponto de ônibus.
Havia ainda outra barreira. Neusa conta que não dominava o português e tinha vergonha de falar. “Eu não falava direito português. Eu tinha muito medo de falar português, porque, quando a gente inicia a falar um outro idioma, a gente tem um pouco de sotaque, as pessoas riem, e isso fazia com que a gente se travasse de continuar falando.”
Neusa recorda que o pai, no entanto, repetia aos filhos que a educação seria uma ferramenta para o futuro, para defenderem seu povo e território quando eles envelhecessem.
A frase ganharia outro significado com o passar dos anos.
Antes mesmo de concluir os estudos, Neusa começou a reunir crianças da comunidade em torno dos próprios materiais escolares. Rasgava folhas do caderno, distribuía entre elas e gostava de organizar as atividades.
“Dali comecei a ensinar às crianças, as vogais, as consoantes. E aí, sem eu perceber, até eu mesma sem perceber, eu já estava alfabetizando essas crianças.”
A experiência durou cerca de dois anos e despertou nela uma pergunta: quais eram os direitos das crianças indígenas à educação?
A busca por respostas se transformou em cobrança ao poder público. Neusa passou a reivindicar uma estrutura educacional dentro da aldeia para que as novas gerações não precisassem enfrentar o mesmo caminho que ela havia percorrido.
“Eu não queria que elas passassem pelas mesmas coisas que a gente passou: ter que caminhar muito tempo, ficar doente, pegar chuva.”
Hoje, ela fala com orgulho da existência de uma escola na comunidade, ainda que reconheça problemas estruturais. “Eu tenho muito orgulho de ter uma escola dentro da minha aldeia, porque isso é fundamental. Como meu pai dizia: a base do nosso país é a educação.”
Para Neusa, porém, ensinar nunca significou apenas alfabetizar. Ela conta que buscava transmitir aos alunos autonomia, identidade e consciência sobre o direito de defender o próprio povo.
Recentemente, encontrou um ex-aluno, hoje com 28 anos, discursando durante uma reunião. Naquele homem que tomava a palavra, enxergou parte do resultado do trabalho iniciado anos antes.
“A nossa cultura é a nossa raiz, a nossa identidade. Jamais a gente deve esquecer. A gente pode usar celular caro, roupa cara, a gente pode usar o que quiser usar, mas a gente não deixa de ser quem a gente é.”
A ligação de Neusa com a ancestralidade também está no nome indígena. Segundo ela, antes mesmo de sua mãe engravidar, seu bisavô teria anunciado a chegada de uma criança que precisaria nascer com auxílio da medicina dos não indígenas e que teria uma missão de diálogo entre mundos.
Neusa nasceu de cesariana, diferentemente dos outros sete filhos de sua mãe, e conta que enfrentou complicações ao nascer e foi salva pelos médicos. Poucos dias depois, recebeu do bisavô seu nome indígena, Kunhã Takuá Porã.
Para ela, a história carrega um significado que ultrapassa o próprio nascimento. “Eu nasci do sol, eu sou uma luz para o meu povo e vim, de fato, para falar pelo meu povo e lidar com não indígena.”
A interpretação que faz hoje daquela narrativa é direta: “Tenho uma missão nessa terra.”
O reconhecimento dessa identidade nos documentos, entretanto, demorou. Neusa afirma que enfrentou um processo judicial de três anos até conseguir incluir no registro civil o nome indígena que havia recebido do bisavô. Seu nome completo consta hoje como Neusa Kunha Taqua Mendonça Martine.
“Antigamente, a gente tinha que entrar com um processo. A Funai faz um registro e coloca o nome do branco pra gente, enquanto o meu nome é Neusa, no português.”
A documentação civil não elimina os direitos específicos assegurados aos povos indígenas, entre eles o respeito a seus costumes e tradições, inclusive na escolha dos nomes.
A palavra “missão”, que aparece quando fala do nascimento, voltaria a surgir em um dos episódios mais dolorosos de sua trajetória.
Em 8 de janeiro de 2018, o irmão de Neusa, João Mendonça Martins, então vice-cacique, foi assassinado.
A morte abalou a família e a comunidade. Neusa conta que o povo permaneceu cerca de um ano afastado das atividades do movimento em respeito ao período de luto. Quando chegou o momento de escolher uma nova pessoa para a vice-caciquia, processo que, segundo ela, é feito com muito cuidado, seu nome foi apresentado pela comunidade depois de muitas reuniões.
“Para mim foi um choque. Não sei se eu estava ou não preparada. Mas, quando eu vi o jeito que as mulheres e os jovens falavam comigo, eu aceitei. Num momento muito doloroso porque era meu irmão. E dali eu comecei a liderar aquele grupo e estou até hoje, há oito anos.”
A escolha tinha um peso ainda maior porque Neusa estava grávida quando perdeu o irmão.
Pouco antes do assassinato, quando havia descoberto a gestação, os dois conversaram sobre a vida que João levava como liderança. “Eu falei para o meu irmão: ‘Eu não quero essa vida que você leva, não. Eu quero ter uma família. Quero ter uma vida normal. Uma vida normal de sair, trabalhar, fazer minhas compras, andar na rua como qualquer pessoa’.”
Segundo Neusa, o irmão respondeu que ela não precisava sacrificar a própria vida e que ele continuaria cuidando da família. Menos de dois meses depois, João foi assassinado.
Neusa acabou assumindo justamente a função que dizia não desejar.
“Agora eu tenho essa missão e meu irmão não está aqui. Agora meu papel é proteger meu povo.”
Com a liderança vieram também as ameaças.
Neusa relata ter sofrido ameaças de morte e uma tentativa de homicídio e ter sido incluída em um programa de proteção. Em períodos de maior tensão, afirma precisar de escolta policial.
“Ameaça de morte. Acho que isso é o que mais mexe comigo, mexeu muito com meu psicológico [...]. Eu sofri uma tentativa de homicídio e isso mexeu muito comigo, a minha filha era pequenininha e isso foi muito difícil para mim.”
Para ela, existe uma diferença entre enfrentar a burocracia do Estado e enfrentar a violência. O impacto das ameaças, afirma, alcança também as crianças, que convivem com medidas de segurança e presenciam situações de tensão. Neusa demonstra preocupação, sobretudo, com os efeitos desse ambiente sobre as filhas.
Em um dos períodos mais difíceis, a pressão também atingiu sua saúde mental. Neusa conta que enfrentou uma depressão durante a gravidez da segunda filha e tentou tirar a própria vida.
Ao recordar aquele período, ela relaciona o episódio às ameaças e à exposição que enfrentava.
“Eu sou um problema para todo mundo. Sou um problema para o Estado, o prefeito só fala de mim, nas redes sociais só aparece meu nome com ameaças de morte.”
Na ocasião, Neusa estava grávida da segunda filha. Segundo seu relato, foi a filha mais velha, então com três anos, quem procurou os vizinhos em busca de ajuda, possibilitando que ela fosse socorrida.
Depois do episódio, Neusa buscou na natureza uma forma de se reconectar com a ancestralidade e a espiritualidade. Ela atribui ao pai e aos conhecimentos ancestrais transmitidos por ele um papel fundamental em sua recuperação.
“[...] Ali eu me resgatei, renasci de novo e hoje eu não pretendo jamais pensar nessa possibilidade porque o meu povo precisa de mim [...] Eu fui para a cura mesmo, espiritual, porque era meu espírito que estava sofrendo, não era meu corpo.”
Ao falar sobre o que viveu, Neusa amplia a experiência pessoal para a necessidade de políticas públicas voltadas à saúde mental.
“Isso é primordial. Isso é saúde pública. [...] Eu passei por isso, sofri, superei, mas a gente precisa tratar isso.”

Entre as lutas que atravessam sua trajetória está a demarcação da terra indígena onde vive.
Questionada sobre o que a demarcação representa para ela para além da posse territorial, Neusa não hesita: “Justiça.”
A palavra carrega o peso da história familiar e a defesa do artigo 231 da Constituição Federal, que reconhece aos povos indígenas sua organização social, costumes, línguas, crenças, tradições e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam.
“Meu irmão foi assassinado também lutando pela demarcação da terra indígena”, afirma.
Para Neusa, justiça não significa vingança. “Eu não posso simplesmente chegar e falar assim: ‘Eu quero que mate a pessoa que matou meu irmão’. Seria irônico da minha parte.”
O que ela reivindica é outra forma de reparação. “Demarcar terra indígena significa justiça por todos aqueles que tombaram lutando pelo seu território.”
A continuidade do trabalho do irmão também aparece na preservação ambiental. Neusa afirma manter um projeto de reflorestamento herdado dele chamado Kaaguy e diz que mais de 100 mil árvores nativas e frutíferas já foram plantadas na aldeia.
A atuação se estendeu ainda à educação e à saúde indígena. Neusa relata ter trabalhado diretamente na gestão da saúde, na ampliação de serviços e em ações voltadas especialmente à prevenção e à saúde das mulheres indígenas.
Aos 36 anos, mãe de Maya, de quatro anos, e Sofia, de oito, ela mantém hábitos ligados à cultura Guarani, como o artesanato e a culinária tradicional. Extrovertida e brincalhona, diz ser muito ligada à família, gosta de dançar forró e conta que, desde pequena, nunca conseguiu presenciar uma injustiça sem interferir. “Eu ia lá e metia minha colher desde pequena.”
As filhas acompanham a rotina da mãe. A cena repete, de outra forma, a própria infância de Neusa: assim como ela acompanhava o pai nas reuniões do movimento indígena, hoje Maya e Sofia crescem acompanhando a mãe. “Em todos os ambientes em que eu estou minhas filhas estão comigo.”
A família permanece no centro de sua identidade. “Eu sou a raiz do meu povo.”
Ao olhar para as escolhas feitas ao longo da trajetória, Neusa diz não se arrepender do caminho que seguiu e volta à ideia de missão, presente em diferentes momentos de sua história.
“Não me arrependo pelas minhas escolhas, aceito a minha missão, minha missão da vida espiritual, e eu agradeço a Deus por ter saúde e por estar nesses espaços e por colocar muitas pessoas de bom coração que me ajudaram muito a chegar onde eu estou.”
Ela também rejeita a ideia de uma trajetória construída individualmente.
“A luta da Neusa Guarani não é só minha, da Neusa, mas é uma luta de muita gente que está sempre todos os dias aí lutando dia após dia e que acredita na minha luta.”
Há também um sonho particular que pretende realizar. Neusa diz querer continuar os estudos e, no futuro, fazer um mestrado.
“É um sonho que eu tô empurrando desde o ano passado, nos anos seguintes, mas uma hora vai acontecer. Eu sou nova, estou com 36 anos.”
A estrutura oferecida às crianças nas comunidades também aparece entre suas preocupações.
“Que a gente vê nossas escolas reformadas com refeitório, para nossas crianças poderem ter um espaço onde elas possam brincar.”
A segurança e a autonomia das mulheres são outra prioridade mencionada por ela.
“Que a gente possa ter segurança para nossas mulheres, que a gente possa ver nossas mulheres nos espaços de trabalho com dignidade, com autonomia. Eu acho que isso é uma coisa muito importante.”
Na educação, Neusa vai além da estrutura física das escolas. Para ela, falar sobre os povos originários não pode se restringir a uma data no calendário escolar. A defesa retoma uma ideia apresentada anteriormente ao falar da política: a participação indígena deve alcançar também a maneira como sua história e sua cultura são ensinadas.
Ela defende ainda a preparação dos profissionais da educação para trabalhar a cultura e a história indígena nas diferentes redes de ensino e nas universidades.
“Que a gente possa preparar nossos professores em concursos, técnicos, com capacitações, para que esses professores sejam respeitados também, que não sejam perseguidos por levar a cultura dos povos indígenas para as universidades, para as escolas privadas e não privadas, para todas as redes.”
Nesse ponto, sua trajetória volta a encontrar a educação. A menina que teve medo de falar português, depois reuniu crianças da aldeia para ensinar as primeiras letras e passou a reivindicar uma escola dentro da própria comunidade, agora coloca entre os objetivos políticos ampliar a presença indígena não apenas nas salas de aula, mas também na forma como sua história e sua cultura são apresentadas.
“Esse é um sonho nosso, que a gente possa, com o nosso mandato, poder efetivar todas essas ações.”
Neusa faz uma avaliação sobre seu caminho percorrido. “De chegar aqui aonde eu já cheguei, eu já venci.”
A menina que um dia teve medo de falar português porque riam de seu sotaque cresceu, tornou-se professora, liderança e passou a reivindicar não apenas o direito de falar pelo próprio povo, mas também a participação indígena nos espaços onde histórias são contadas e decisões são tomadas.
No fim da entrevista, diante da pergunta sobre como gostaria que sua história fosse contada no futuro, Neusa disse uma resposta simples: simples: “Eu gostaria de ser homenageada ainda viva.”