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Menos propostas, mais ataques

Especialistas analisam estratégia das campanhas nas eleições de 2026

Candidatos chamam atenção por preferirem ataques aos rivais em vez de suas próprias propostas para a população


Foto: Agência Brasil

O Brasil e o Rio de Janeiro, em 2026, terão eleições para governador e também para presidente da República, e o Eu, Rio foi atrás de respostas para saber por que, neste ano, os candidatos procuram falar menos de propostas e priorizar mais embates diretos e ataques aos concorrentes, seja nas campanhas de televisão e rádio ou até mesmo nas redes sociais. E conversou com especialistas, que deixaram suas análises a respeito desse método. Isso tira votos, conquista eleitores? Ou é somente uma mudança na postura dos pleitos em relação a outros anos?

No Rio de Janeiro, a disputa polarizou entre Eduardo Paes (PSD), ex-prefeito do município e com possibilidades de levar para governador ainda no primeiro turno, e Douglas Ruas (PL), atual deputado estadual e presidente da Alerj, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Já nacionalmente, Lula (PT) está ponto a ponto nas pesquisas contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), buscando ser presidente.

"A política regional está seguindo o que acontece em nível federal. Os gestores das campanhas sabem que o eleitor não está preocupado com isso. O eleitor só dá atenção para a política quando há polarização e acirramento entre os candidatos. Acho também que os candidatos ficam preocupados em que casos de escândalo respinguem nas suas campanhas. As campanhas se ajustam à demanda dos eleitores. E os nossos não são exigentes e preocupados com as propostas, talvez porque a política esteja muito desgastada em nosso país", analisou Fernando Amed, professor universitário e historiador com especialização em Comportamento Político.

Já para Paulo Baía, essa mudança ocorre desde 2013, ou seja, no ano em que o Brasil parou por causa dos protestos em diversos estados e também em Brasília, contra o aumento das passagens de ônibus e também dos gastos envolvendo a realização da Copa do Mundo de futebol masculino, que ocorreu no ano seguinte.

"Na minha avaliação, há muito pouco a dizer sobre propostas neste momento. Desde 2013, a política brasileira foi perdendo progressivamente o seu conteúdo programático. O marketing eleitoral de combate passou a comandar não apenas as campanhas, mas também boa parte das ações dos governos.

O resultado é uma população cansada, entediada e, principalmente, apática. As pessoas não querem saber das eleições porque têm dificuldade de perceber diferenças concretas entre os projetos apresentados. E as próprias campanhas aprofundam esse problema quando substituem propostas por autolouvações, ataques e ofensas.

O adversário deixou de ser alguém que precisa ser derrotado politicamente e passou a ser tratado como um inimigo que deve ser eliminado. Isso é muito grave para uma democracia. A atual crise envolvendo o STF é um exemplo bastante evidente desse processo de deterioração do debate político brasileiro", analisa Paulo Baía, sociólogo e cientista político.

Por fim, Mayra Goulart falou sobre o que pode ter influenciado as campanhas a seguirem para esse lado e também falou sobre a identificação dos eleitores com seus candidatos. Aliás, mencionou o fato de as campanhas falarem mal dos adversários ser uma forma mais simples de repassar informações ao eleitor.

"Primeiro, dizer que numa campanha tem muita informação circulante, então o candidato, para conseguir atrair aquele eleitor que não tem o interesse de ir atrás de todas essas informações e ler e chegar às suas próprias conclusões, ler o programa de governo, ele precisa de gatilhos informacionais para organizar essas informações. Um deles são esses marcadores ideológicos que definem a pessoa como de direita e esquerda, alinham as pessoas a outras lideranças no plano nacional, você está alinhado ao Bolsonaro, ao Lula, é um gatilho informacional, positivo ou negativo, mas vai agregar informações para um eleitor que está menos conectado com a política. Por exemplo, no caso do Douglas Ruas, muito eleitor que não o conhece vota nele porque ele está associado à figura do Jair Bolsonaro. E aí esses termos que funcionam como gatilhos ideológicos, que associam essa pessoa a um campo e a uma liderança, facilitam na hora de identificar o eleitor e identificar o seu candidato."

"O segundo ponto é a campanha negativa. Você falar mal do seu adversário também é uma forma de simplificar informações para o seu eleitor, que às vezes não está tão interessado em lidar com questões complexas como as de política pública, mas entende críticas negativas mais simplificadas, como acusações de corrupção, de desvio de dinheiro. Todos esses elementos negativos têm uma capacidade de comunicação maior e podem servir como atalhos para favorecer a conexão com um determinado candidato em detrimento de outro.

E, por fim, em todo o contexto polarizado, são os elementos de rejeição ao outro polo que acabam determinando uma boa parcela dos votos. E quando a gente tem um componente de extremismo, que é trazido pela extrema direita, você tem uma certa simplificação do espectro de políticas públicas, da pluralidade de ideias em componentes mais extremados e negativos. Então, eu queria terminar com esse comentário", concluiu Mayra Goulart, cientista política.

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