Evandro Carmo. Foto: Divulgação
A inadimplência do crédito rural atingiu um novo patamar no Brasil. Levantamento realizado pela consultoria Agroicone, com base em dados do Banco Central, mostra que o saldo das operações de crédito rural em atraso há mais de 90 dias saltou de R$ 3,8 bilhões, em julho de 2023, para R$ 38,4 bilhões em abril de 2026 — um crescimento de aproximadamente dez vezes em menos de três anos. Para Evandro Carmo, CEO do Instituto de Conexão e Negócios (ICON), parte desse movimento está relacionada às dificuldades de acesso ao crédito no mercado financeiro.
“Observa-se que alguns produtores têm deixado de pagar os bancos e utilizado o dinheiro da venda da produção passada para comprar insumos para a nova safra. Com isso, as negociações e o consumo de insumos continuam em volumes equivalentes aos de safras anteriores, em um cenário que considera o recorde de produção e o crescimento da área plantada em torno de 1,4% na safra 2026/27.”, explica Carmo.
O estudo acompanha também operações em atraso, prorrogadas ou renegociadas, consideradas sinais de deterioração da qualidade do crédito rural. Nesse grupo, o volume de recursos sob risco de inadimplência passou de R$ 34,1 bilhões para R$ 188,8 bilhões no período analisado. O avanço representa uma forte deterioração da saúde financeira do campo e aumenta o número de produtores que podem enfrentar dificuldades para acessar novas linhas de financiamento.
Os dados do Banco Central reforçam o alerta sobre a deterioração do crédito. Em agosto, a inadimplência das pessoas físicas avançou em relação ao mês anterior tanto nas operações contratadas a taxas de mercado quanto nos financiamentos com juros controlados.Nas operações a taxas de mercado, o índice passou de 15,6% para 17,6%, atingindo o maior nível da série histórica acompanhada pelo Banco Central desde 2011.
Já nos financiamentos com juros controlados, a inadimplência avançou de 3,7% para 3,8%, também alcançando o maior percentual registrado na série. Para o setor produtivo, o cenário coloca um desafio adicional: manter o ritmo de produção em um momento de maior dificuldade para acessar recursos financeiros. Com produtores recorrendo à receita de safras anteriores para custear a produção seguinte, a pressão sobre o fluxo de caixa tende a aumentar.
O avanço da inadimplência, portanto, não representa apenas um problema financeiro para os produtores. A deterioração do crédito rural pode afetar o planejamento das próximas safras, o acesso a insumos e a capacidade de investimento do agronegócio brasileiro, ampliando os desafios para produtores e instituições financeiras.