A reitoria da Universidade Federal Fluminense (UFF) denunciou à Polícia Federal (PF), na última quinta-feira (8), ameaças de incendiar a instituição e de agredir participantes de atos estudantis em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). As mensagens circularam em grupos de WhatsApp e nas redes sociais e chegaram à universidade por canais institucionais de denúncia.
Dois investigados prestaram depoimento na sede da PF em Niterói na última sexta-feira (9), acompanhados de advogados. Segundo o jornal A Tribuna, um deles teria sido indiciado. Procurada pela reportagem, a PF respondeu que não divulga informações sobre eventuais investigações em andamento.
A vereadora carioca Maíra do MST (PT) e a deputada estadual Marina do MST (PT) também levaram o caso à PF, à Polícia Civil e ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). Segundo as parlamentares, as mensagens foram postadas em dois grupos de WhatsApp, “Juntos com Bolsonaro” e “Direita Brasil (Niterói)”. Em um deles, participantes chegaram a organizar uma lista de nomes para incendiar a universidade. No outro, havia menções a armas brancas e bombas contra estudantes que participariam do ato desta sexta. Prints obtidos pela reportagem mostram que, numa enquete, parte dos integrantes de um dos grupos se declarou menor de 16 anos.
“A violência política da extrema direita não pode ser naturalizada, muito menos ficar impune”, denunciam as parlamentares em publicação nas redes sociais. O ofício enviado por elas aponta que as ameaças alcançam também estudantes dos ensinos fundamental e médio. O texto pede a apuração e “medidas urgentes de proteção às comunidades universitárias da UFF”.
Para justificar a urgência, o documento cita ainda o incêndio que atingiu, na última quarta-feira (7), laboratórios da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o terceiro no campus em oito dias. A PF apura inclusive ameaças feitas a estudantes após atos políticos na véspera do incêndio, mas não há confirmação de origem criminosa.
Em vídeo publicado nas redes sociais da UFF, o reitor em exercício, Fábio Passos, ressaltou que os atos são pacíficos. Os alunos, afirmou, se manifestaram “dentro do direito constitucional que nossos estudantes têm de expressar as suas ideias e as suas opiniões políticas”. Além da PF, a reitoria acionou a Prefeitura de Niterói, a Polícia Militar e a Polícia Civil e determinou à Superintendência de Operações e Manutenção (Soma) o reforço da segurança em todos os campi. Em nota, a UFF informou que acompanha a apuração e que atua para garantir “a segurança de toda a comunidade universitária, a preservação da vida e a proteção do patrimônio público”.
O movimento estudantil manteve as agendas e realizou na última sexta mais um ato em Niterói. As pautas foram a defesa da universidade pública e a reeleição de Lula, que enfrenta o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, em 25 de outubro. Estudantes organizam novos atos em todo o país.
Em mensagem aos grupos do movimento, organizadores dos atos pediram que qualquer ameaça fosse levada a órgãos oficiais ou instituições. “Circular prints, fotos etc. de insinuações não ajuda em nada”, alertam. Segundo eles, o objetivo da extrema direita é intimidar os estudantes e espalhar o medo.
“Educação como inimiga”
João Pedro de Paula, mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da UFF, considerou “inegável que o resultado do primeiro turno mexeu com muitas pessoas. Para quem é estudante e se lembra do governo Bolsonaro, a situação é muito séria. Especialmente para mim, que estive na graduação naquele período e vivi o que foi o caso da UFF e de várias outras universidades. Logo no começo do mandato do Jair Bolsonaro, aconteceu um corte de 30% das verbas, que se espalhou para todo o Brasil”, relatou.
O bloqueio foi anunciado em abril de 2019 pelo então ministro da Educação, Abraham Weintraub, primeiro para a UFF, a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob a alegação de que as instituições promoviam “balbúrdia”.
Na visão de João Pedro, Flávio Bolsonaro no Planalto significaria, “para as universidades e para os estudantes, de uma forma geral, ter um governo que identifica a educação como uma inimiga. Essa é a grande diferença que está colocada”, sustentou.
Entre os riscos, ele vê “um processo de repressão à mínima liberdade de expressão e de organização”. “Eu sou bolsista”, contou o mestrando, que teme perder o benefício, “como muitos perderam” no governo anterior.
O estudante citou ainda a lembrança da condução do governo Bolsonaro durante a pandemia e uma “quebra de expectativa” para quem luta pelo fim da escala 6x1, sobretudo os jovens que sonham com uma vida melhor.
João Pedro lembrou que os estudantes da UFF se mobilizaram em 2018 e 2019 e “são novamente um exemplo disso”. Uma vitória bolsonarista no segundo turno, concluiu, seria “sofrer uma derrota para a UFF, para a educação, para os estudantes e para o Brasil”.
“É assim que se perde”
Professora do Departamento de Segurança Pública da UFF, Jacqueline Muniz enxergou nas ameaças o efeito contrário ao pretendido. “Vejo esses ataques à comunidade universitária e ao seu patrimônio como uma expressão mais bem acabada do obscurantismo e da fraqueza política”, afirmou. É, nas palavras dela, “uma manifestação com assinatura política, uma tática estúpida que faz perder votos de quem se apresenta como de extrema direita ou de direita”.
Para a especialista, fabricar ameaças e rumores, sobretudo nas redes, tem baixo custo e não exige grande organização nem muitos recursos. Ela define a prática como um “marketing negativo”, que depende de alvos simbólicos para espalhar ameaças difusas, impossíveis de cumprir contra todos os ameaçados. “Quem não tem força para tomar as ruas, como fazem os estudantes das nossas universidades, tenta demonstrar poder pela fabricação do temor”, analisou.
“Somos cerca de 67 mil integrantes e mais uma quantidade imensa de usuários de nossos serviços”, observou a professora. “Ameaçar estudantes e criar rumores de atentados terroristas nos nossos campi é mobilizar uma coletividade de quase 500 mil pessoas”, argumentou. Segundo ela, esse contingente, que inclui familiares de alunos e de técnicos, “se coloca em defesa da educação e contra esses terroristas, seus afins partidários e seus representantes. É assim que se perde”.
Dois projetos para a universidade
Os planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam caminhos diferentes para o ensino superior. O programa de Lula promete um novo ciclo de expansão e interiorização da educação superior pública, a ampliação da pós-graduação e o aperfeiçoamento da assistência estudantil para “garantir a permanência e a conclusão dos cursos”. O documento destaca que o orçamento das universidades foi restaurado e que as bolsas, congeladas por uma década, foram reajustadas. A de mestrado subiu 40% em 2023, de R$ 1.500 para R$ 2.100.
Já o plano de Flávio Bolsonaro propõe tirar do Ministério da Educação (MEC) a governança do ensino superior e transferi-la para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), “unificando ciência e ensino superior sob o mesmo teto”.
Para o Andes-SN, sindicato nacional dos docentes universitários, a proposta é “uma grave ameaça de privatização e subordinação da educação pública ao mercado”. Em agosto, a entidade afirmou que a mudança fragmentaria a gestão do ensino superior e desconsideraria a união entre ensino, pesquisa e extensão, exigida pelo artigo 207 da Constituição. A transferência já havia sido cogitada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) logo após sua eleição, em 2018. Na Presidência, ele rompeu com a tradição de nomear para a reitoria o candidato mais votado pela comunidade acadêmica.
Além do bloqueio de 2019, um decreto do ex-presidente travou, em 2022, R$ 3,2 bilhões do MEC, atingindo universidades e institutos federais, e R$ 2,9 bilhões do MCTI. A campanha de Flávio também prevê aperto nos gastos. Em entrevista à GloboNews, em agosto, a economista Daniella Marques, que formulou a proposta econômica do candidato, falou em um corte de 1,5% do PIB, cerca de R$ 190 bilhões, sem explicar exatamente de onde sairiam os possíveis cortes.
No vídeo divulgado pela UFF, o reitor em exercício faz um apelo à comunidade em meio às manifestações do período eleitoral: “Que a gente se mantenha sereno, tranquilo, mas assertivo em defesa da democracia”.