Divertido, provocador e atual, o espetáculo “O Extermínio da Cegonha” volta à cena dia 23 de outubro (6ª feira) às 20h no Espaço Municipal Cultural Sérgio Porto, propondo um encontro entre gerações que pensam e sentem o mundo de maneiras muito diferentes e trazendo à cena tensões que atravessam tecnologia, memória, desejo e responsabilidade. Escrita e dirigida por Pedro Uchoa, que também integra o elenco ao lado de Higor Campagnaro, Julia Limp, Nara Parolini e Ricardo Lopes, a montagem tem como ponto de partida a investigação do poder da tecnologia e as consequências das interferências tecnológicas no comportamento da sociedade atual.
Na trama, Isabel decide passar o feriado de finados em sua cidade natal com seu namorado, seu cunhado e sua irmã mais nova. Porém, um reencontro a princípio casual com Samuel, seu amigo da infância, desencadeia acontecimentos que trazem à tona fantasmas do passado, revelando conflitos e memórias irrebobináveis. A peça coloca uma lupa nos atritos entre a realidade analógica e digital, falando de uma geração que lida naturalmente com aplicativos e smartphones, mas que cresceu numa infância dividindo um telefone fixo com a família toda. A irmã caçula Madá, típica figura da geração Z, cria o contraponto do olhar do nativo digital, porém assim como os demais personagens e espectadores, vive numa sociedade onde a vida é registrada em stories e a emoção é medida por engajamento.
Além da crítica a esses novos comportamentos, outros assuntos também sobem ao palco, como responsabilidade emocional, silenciamento feminino, consciência de privilégios e as diferenças geracionais, que são o reflexo da evolução contínua da sociedade. Por meio de uma narrativa contemporânea, o espetáculo investiga os conflitos humanos atravessados por essas transformações invisíveis e revela como a transição analógica-digital redesenha o modo como criamos vínculos, gestos, ritmos, afetos - e como permanecemos na memória alheia.
O processo da escrita começou há mais de 10 anos, mas, sendo um texto que reflete com verossimilhança as vivências tecnológicas inerentes à maioria dos contemporâneos, o avanço da tecnologia, ponto central da história, fez com que a trama fosse algumas vezes adaptada. E como ela também vem redefinindo como vivemos em comunidade, a peça observa e acompanha essa realidade, fazendo com que o público seja provocado a refletir sobre como estamos vivendo, nos comunicando e construindo nossas relações.
“A cada gaveta, eu percebia que o mundo tinha avançado alguns passos e o texto precisava acompanhar esse deslocamento. Ele nasceu em outro momento histórico, quando muitas das questões digitais que hoje parecem centrais ainda estavam em formação. Ao longo desse tempo, o texto não ficou parado. Ele foi atravessado pelas transformações do mundo e pelas minhas próprias. O tempo trouxe um diálogo vivo com aquilo que eu ia escrevendo e funcionou como um coautor silencioso, tensionando ideias, aprofundando personagens e deixando que as imagens amadurecessem, até encontrarem a forma que têm hoje”, analisa Pedro Uchoa.
No processo de atualização do texto a tecnologia deixou de ser apenas pano de fundo e passou a ser estrutura dramática. Com isso, os conflitos geracionais ficaram mais evidentes e certas tragédias, que antes pareciam exagero, se tornaram plausíveis. “As renovações tecnológicas alteraram profundamente o comportamento humano, em uma velocidade tão vertiginosa que se tornou urgente registrar em cena este nosso tempo. Diante dessa aceleração, o teatro tem que assumir quase uma função provocativa, criando uma experiência que nos permita reconhecer o impacto dessas transformações em nossas escolhas, afetos e conflitos. Uma experiência que não compete com a tecnologia, mas contracena com ela”, aponta Uchoa.
Para o diretor e autor, é impossível falar da vida sem tratar de assuntos que nos urgem como sociedade. “A tecnologia hoje não é uma ferramenta, é um território. Então, quando usamos dramaturgicamente este território para criarmos uma dramaturgia que dialoga com o hoje, com nosso novo letramento, após criação de palavras que nem existiam no nosso dicionário, isso é também uma responsabilidade ética. Existe o desafio de tratar de assuntos tão atuais sem cair em respostas fáceis. A peça nasce desse desejo de pensar o presente com complexidade poética, mas sem simplificar de forma leviana os conflitos que nos atravessam”, pondera Pedro.
Com linguagem direta, a encenação mistura elementos de realismo e poesia, transita entre o trágico e o cômico, e propõe uma linguagem acessível e fragmentada, em sintonia com a subjetividade do tempo presente. Com início em um karaokê interativo - onde a plateia é instigada a cantar e enviar suas músicas via QR Code - o espetáculo já rompe com a quarta parede e convida o público a se tornar testemunha ativa de uma história que também poderia ser a dele. Ao mesmo tempo, instaura-se uma quebra de uma quarta parede digital, quando o público interage em tempo real com o perfil do espetáculo no Instagram para escolher sua música, ele participa fisicamente e virtualmente da experiência teatral.
“Desde a primeira cena o público deixa de ser apenas espectador e passa a compartilhar a experiência. Canta junto, ri, se reconhece e, aos poucos, percebe que é testemunha nas questões que a peça aborda. É um trabalho que mistura humor e vertigem, vulnerabilidade e tecnologia. Me interessa fazer um teatro que afete a plateia, que provoque uma reflexão nos mais profundos paradigmas e use o teatro para pensar a própria vida. Criamos toda noite uma espécie de pacto silencioso que se estabelece cada vez que toca o terceiro sinal, cada vez que um elenco invoca merda. Quando faço teatro, faço para o outro", encerra Pedro Uchoa.
SINOPSE
Na trama, Isabel decide passar o feriado de finados em sua cidade natal com seu namorado, seu cunhado e sua irmã mais nova. Porém, um reencontro a princípio casual com Samuel, seu amigo da infância, desencadeia acontecimentos que trazem à tona fantasmas do passado, revelando conflitos e memórias irrebobináveis. Um olhar sensível sobre o que resta de nós quando nossas escolhas são atravessadas por algoritmos e as consequências de um clique. ‘O Extermínio da Cegonha’ mistura realismo brutal e poesia para investigar o colapso do encontro sinestésico entre o que fomos e o que nos tornamos atravessados pela tecnologia.
SOBRE O SÉRGIO PORTO
Fundado em 1983 no bairro do Humaitá, o espaço foi batizado em homenagem ao cronista e escritor Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). Ao longo de sua trajetória, consolidou-se como um polo de vanguarda e resistência cultural na Zona Sul do Rio de Janeiro, sendo reconhecido como ponto de partida para novos talentos da música, do teatro, da dança e das artes visuais, promovendo a integração entre diferentes linguagens artísticas.
FICHA TÉCNICA
texto e direção: Pedro Uchoa
co-direção: Leonardo Bastos
elenco: Julia Limp, Nara Parolini, Higor Campagnaro, Ricardo Lopes e Pedro Uchoa
iluminação: Hugo Mercier
cenário: Carila Matzenbacher
trilha sonora: Pedro Leal David
composição corporal: Carol Costa
cabelos: Bruno Kobbi
fotografia: Dalton Valério
assessoria de Imprensa: Marrom Glacê Comunicação
programação visual & vídeos: Amarildo Moraes
direção de produção: Gabriel Garcia
realização: Proposta A6
SERVIÇO
“O EXTERMÍNIO DA CEGONHA”
Temporada: 23 de outubro a 15 de novembro de 2026
Horário: Sexta-feira e Sábado, às 20h; Domingo, às 19h
Ingressos: R$ 30 (meia-entrada) / R$ 60 (inteira)
Link de Compra do Ingresso: https://bileto.sympla.com.br/event/126895/d/413814/s/2693094
Local: Espaço Cultural Municipal Sérgio POorto
Endereço: Rua Visconde de Silva, s/nº (ao lado do prédio 292) - Humaitá
Tel.: (21) 3085-3549| teatrosergioporto.cultura@prefeitura.rio
Informações sobre programação, acessibilidade, estacionamento e outros serviços:
https://cultura.prefeitura.rio/espacos-culturais/teatros/espaco-cultural-municipal-sergio-porto/
Confira a programação completa também no Instagram @espacosergioporto.rio
Funcionamento: Quarta a sexta-feira, de 14h às 22h; sábado e domingo, de 15h às 22h
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 80 minutos
Instagram: @exterminiocegonha