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Duas linhas de ônibus descumprem desvio e moradores de Nova Iguaçu caminham dois km para embarcar

Após interdição de ponte em Jaceruba, apenas uma das três linhas chega ao ponto final do bairro, com duas saídas diárias

Por Alexandra Soares em 27/10/2026 às 09:27:18

Fotos: Divulgação

Moradores de Jaceruba, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, enfrentam dificuldades para utilizar o transporte público desde a interdição da ponte de ferro sobre o rio São Pedro, na RJ-113, em agosto. Duas das três linhas que atendem o bairro deixaram de chegar ao ponto final e não estão cumprindo o trajeto alternativo proposto pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ). Para embarcar, parte da população precisa caminhar por estradas sem pavimentação, atravessar a ponte a pé e alcançar os coletivos do outro lado.

A situação afeta as linhas 585I, da Linave, que liga Jaceruba a Nova Iguaçu, e 560I, da Fazeni, com destino a Queimados. A única que continua chegando ao ponto final do bairro é a 750I, também da Fazeni, que faz a ligação com Engenheiro Pedreira, em Japeri. Segundo os moradores, essa linha oferece apenas duas saídas de Jaceruba por dia, por volta das 8h e das 16h, de segunda a sexta-feira, sem atendimento regular nos fins de semana.

O descumprimento do desvio, previsto pelas estradas da Pedra Lisa e do Cemitério, foi constatado pelo Departamento de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro (Detro-RJ) durante uma vistoria realizada em 19 de outubro.

Marcelo Silva, presidente da ONG Tribo da Vida, afirma que alguns moradores precisam caminhar até dois quilômetros para alcançar os pontos de embarque. Segundo ele, as condições das estradas e a oferta insuficiente de transporte são reclamações antigas da comunidade, agravadas pela interdição.

Fernanda Baldez, moradora de Jaceruba com dificuldades de mobilidade, leva até meia hora para chegar ao ônibus. Quando precisa utilizar o coletivo das 5h, sai de casa às 4h30. Em dias de chuva, enfrenta trechos de lama e aguarda o transporte em um ponto sem cobertura.

Ela conta que já chegou atrasada a consultas do Sistema Único de Saúde (SUS), em Queimados e Nova Iguaçu, por causa dos atrasos dos ônibus. Em algumas ocasiões, precisou pagar transporte particular para realizar exames e voltar para casa. Nesta segunda-feira (26), relatou que uma amiga também percorreu o caminho debaixo de chuva pela estrada para comparecer a uma consulta médica.

As dificuldades interferem ainda nas pequenas vendas realizadas por Fernanda. Com limitações para carregar compras e mercadorias, ela depende da ajuda de outras pessoas. Os atrasos também comprometem seus deslocamentos. Em uma viagem recente a Queimados, pretendia retornar às 18h30, mas só conseguiu sair às 19h30, chegando a Jaceruba depois das 20h.

As condições das estradas prejudicam também a circulação dos coletivos. Marcelo conta que registrou um veículo que ficou atolado na lama devido às más condições da via e contou com a ajuda dos passageiros para remover o veículo.

José Rodrigues Neto, presidente da Associação de Moradores de Jaceruba, afirma que a falta de regularidade no transporte já prejudicava a população antes da interdição. Ele estima que a localidade tenha aproximadamente 2.300 habitantes e destaca as dificuldades enfrentadas por quem depende da linha para Engenheiro Pedreira, especialmente para buscar atendimento médico em Japeri.

Neto também reclama da conservação da RJ-113 e das vias internas do bairro. Situada em uma região de Mata Atlântica, Jaceruba abriga uma Área de Proteção Ambiental (APA) municipal, próxima à Reserva Biológica do Tinguá.

Em resposta à reportagem, o Detro-RJ informou que a fiscalização de 19 de outubro também identificou a utilização de um ponto final improvisado, sem autorização, e não encontrou permissões para a redução dos horários previstos. Diante das irregularidades, o departamento anunciou que notificaria administrativamente Linave e Fazeni.

De acordo com o órgão, o trajeto alternativo pelas estradas da Pedra Lisa e do Cemitério possui aproximadamente 8,4 quilômetros, contra 3,5 quilômetros do trecho original. Durante a vistoria, os técnicos identificaram melhorias nas vias, com aplicação de brita e pó de pedra, mas constataram que ainda não há pavimentação definitiva.

Segundo Marcelo, as empresas alegam que as condições das estradas e o aumento do percurso dificultam a circulação dos ônibus pelo desvio.

O Detro-RJ informou ainda que estuda reduzir os intervalos da linha 750I, com aumento da oferta de ônibus para Engenheiro Pedreira. O departamento também encaminhou um ofício ao DER-RJ solicitando informações sobre a previsão de conclusão das obras e a liberação da ponte. Não foram apresentados prazos para essas medidas.

A Prefeitura de Nova Iguaçu informou que a manutenção da Estrada do Cemitério e das vias internas de Jaceruba é realizada pela Secretaria Municipal de Serviços Públicos (SEMSERP), responsável pelo fornecimento de materiais e mão de obra, com apoio de máquinas do DER-RJ.

Segundo o município, os serviços incluem drenagem superficial, recuperação da base das vias, aplicação de material seco, nivelamento e compactação. A administração municipal afirma, porém, que as chuvas frequentes têm impedido a continuidade das intervenções.

Em esclarecimento à reportagem, a assessoria explicou que o fornecimento de material foi temporariamente interrompido porque sua aplicação em condições inadequadas poderia comprometer o serviço. Para a execução dos trabalhos, são necessários pelo menos dois dias consecutivos sem chuva. A Prefeitura afirma que acompanha as condições climáticas para programar a recuperação dos trechos mais críticos, mas não informou uma data para a retomada.

Marcelo contesta a regularidade da manutenção e afirma que a comunidade já encaminhou ofícios solicitando melhorias. Segundo ele, o DER-RJ teria disponibilizado uma máquina e a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), um caminhão, para auxiliar na recuperação das estradas, mas os trabalhos dependeriam do fornecimento de material pela Prefeitura.

A administração municipal sustenta que disponibiliza os recursos necessários à manutenção e atribui a interrupção atual às condições climáticas. Também esclareceu que a definição do itinerário alternativo das linhas intermunicipais compete ao Detro-RJ, enquanto a recuperação da ponte é de responsabilidade do DER-RJ.

Responsável pela RJ-113, o DER-RJ informou que o projeto de recuperação da ponte de ferro de Jaceruba está concluído e que o orçamento está sendo finalizado para a abertura de uma licitação emergencial. O órgão afirma que pretende executar a obra no menor prazo possível, mas não apresentou previsão para o início dos trabalhos nem para a liberação da estrutura.

Segundo o departamento, a interdição para ônibus e caminhões foi sinalizada por razões de segurança. O DER-RJ ressaltou que as estradas utilizadas como desvio são municipais e que cabe à Prefeitura de Nova Iguaçu adotar medidas para minimizar os transtornos enfrentados pela população.

Apesar da restrição, Fernanda afirma ter presenciado a passagem de caminhões de entrega e tratores pela ponte. A reportagem não conseguiu confirmar de forma independente as circunstâncias desses episódios nem se houve descumprimento das restrições estabelecidas.

As empresas Linave e Fazeni foram procuradas para esclarecer o descumprimento do trajeto alternativo, os horários de operação e as reclamações sobre as condições dos coletivos. Até o fechamento da reportagem, nenhuma delas havia encaminhado resposta. O espaço continua aberto.

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