Todo setembro acontece o evento: o Brasil inteiro decide se importar com a saúde mental. As timelines ficam ensolaradas, os prédios ganham iluminação amarela e é tanta luz que até parece que a depressão se esconde debaixo da cama, assustada. O problema é que a oferta é por tempo limitado. Outubro chega, e junto com ele volta o desprezo habitual por qualquer coisa que envolva dor emocional. A empatia tem prazo de validade: trinta dias corridos.
Setembro amarelo virou tipo liquidação de shopping. “Saúde mental em promoção, aproveite antes que acabe!”. A empresa que adora sugar até a última gota de energia dos funcionários organiza uma palestra com coffee break, e pronto: consciência tranquila até o ano que vem. O banco que te sufoca com taxas e juros aparece dizendo que sua vida é preciosa - claro, desde que você continue pagando. No Instagram, frases de autoajuda são distribuídas como se fossem paracetamol: genéricas, baratas e sem bula. E até as escolas que ignoram o aluno quieto na última carteira organizam palestras sobre autoestima. Que lindo, não?
É um espetáculo. Mas a plateia está cansada. Porque todo mundo já percebeu que o discurso não bate com a prática. Quem diz “fale comigo quando precisar” é o mesmo que some quando a coisa aperta. Quem posta “sua vida importa” é capaz de rir do amigo que faz terapia ou de chamar de preguiça quando alguém confessa não ter forças para levantar da cama. Setembro amarelo é a fantasia de carnaval da saúde mental: bonita no desfile, esquecida na quarta-feira de cinzas.
Não estou negando a importância da campanha. Ela é necessária, urgente, vital. Mas não adianta colorir o calendário se a rotina continua cinza. Não adianta laço no peito se o ouvido permanece fechado. É fácil repetir frases prontas, difícil mesmo é acolher sem julgamento, é entender que saúde mental não cabe em slogan.
O problema é que setembro acaba. E a paciência acaba junto. A vida volta ao modo cinza: pressa, buzina, cobrança, falta de tempo para ouvir. Ninguém mais lembra da fitinha amarela, porque outubro tem campanha do câncer de mama e novembro é sobre câncer de próstata. Viramos seres humanos por temporada, com empatia parcelada em doze meses temáticos e esquecemos que a saúde mental não tem mês fixo, não é pauta de marketing, não é modinha. É trabalho de formiguinha, todos os dias, em cada relação.
O que mata não é o silêncio, é a hipocrisia.
Até o próximo texto!
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