Outro dia percebi que tenho um costume estranho: vivo guardando coisas para depois. Não falo apenas daquela roupa que compramos e nunca usamos porque estamos esperando uma ocasião especial. Nem do perfume caro que fica esquecido na prateleira porque o dia comum não parece merecê-lo. Falo da felicidade mesmo.
Por muito tempo, tratei a felicidade como uma recompensa. Primeiro, eu precisava resolver algumas pendências. Depois, conquistar certas coisas. Depois, me tornar uma versão melhor de mim mesma. Só então me sentiria autorizada a relaxar e aproveitar a vida.
O problema é que a lista nunca termina. Quando uma preocupação vai embora, outra chega ocupando seu lugar com a maior naturalidade. Quando alcançamos um objetivo, logo inventamos outro. Quando finalmente conseguimos aquilo que tanto queríamos, passamos a desejar alguma coisa além.
A vida adulta tem dessas armadilhas sofisticadas. Ninguém nos proíbe de ser felizes, nós mesmos adiamos. Eu adio quando digo que vou descansar apenas depois de terminar tudo. Quando penso que vou aproveitar mais quando a semana estiver menos corrida. Quando acredito que vou me sentir melhor quando determinada situação se resolver.
Talvez você também faça isso. Talvez todos nós façamos.
Vivemos como quem está sempre se preparando para viver. Como passageiros numa sala de embarque permanente, convencidos de que a verdadeira vida começa no próximo voo. Mas começo a desconfiar que a felicidade não mora no futuro com a frequência que imaginamos porque, quando olho para trás, os momentos que guardo com mais carinho não aconteceram em dias perfeitos. Não surgiram depois de grandes conquistas. Foram momentos simples, quase despretensiosos. Uma conversa que se estendeu além da conta. Um almoço sem pressa. Uma gargalhada inesperada. Um fim de tarde que não prometia nada e, por isso mesmo, entregou tudo.
Nenhum deles pediu que minha vida estivesse organizada. Nenhum deles exigiu que eu me tornasse uma pessoa melhor, mais magra, mais rica, mais bem-sucedida ou mais preparada. Eles simplesmente aconteceram.
Talvez a felicidade seja menos exigente do que nós. Talvez ela não esteja esperando que tudo entre nos eixos. Talvez não se importe com as metas que ainda faltam, com os planos que ainda não deram certo ou com as versões idealizadas que insistimos em perseguir. Talvez ela apareça justamente nos intervalos enquanto tomamos um café.
E talvez o maior desperdício não seja deixar de alcançar nossos sonhos, mas sim passar tanto tempo esperando o momento ideal para ser feliz que acabamos não percebendo que a felicidade, impaciente como quase tudo o que vale a pena, já tinha chegado muito antes.
Até o próximo texto!
@portal.eurio
https://www.instagram.com/annadominguees/
https://www.wattpad.com/user/AnnaDominguees