Há quem descubra cedo do que gosta. Há quem descubra tarde. Há quem descubra e passe anos fingindo que não descobriu. Não por falta de coragem, mas por excesso de mundo. O mundo tem esse hábito inconveniente de opinar sobre aquilo que deveria caber apenas a quem sente. Opina sobre os amores, sobre os sonhos, sobre os corpos, sobre a roupa, sobre a idade em que se deve casar e até sobre a felicidade, como se existisse um jeito correto de encontrá-la.
Crescemos aprendendo que viver é, em alguma medida, corresponder. Aos pais, aos professores, aos amigos, aos vizinhos, aos desconhecidos que atravessam nossa vida por cinco minutos e ainda assim acreditam ter o direito de emitir um parecer. Existe sempre uma plateia invisível esperando que nossas escolhas façam sentido. E talvez façam. Só não precisam fazer sentido para ela.
Penso em quantas pessoas passam anos ensaiando uma versão aceitável de si mesmas. Não necessariamente uma versão falsa, mas editada. Aparando gestos, suavizando palavras, escondendo entusiasmos, silenciando desejos que parecem grandes demais, estranhos demais, inconvenientes demais. Como se ocupar menos espaço fosse o preço para ser amado.
É um cansaço contido porque há uma diferença colossal entre guardar um segredo e esconder quem se é. Um segredo pesa na memória, o outro pesa no corpo e na alma. Na forma como se sorri, como se evita certas perguntas durante o almoço de domingo, como se aprende a mudar de assunto antes que alguém exija uma explicação que nunca deveria ser necessária.
Talvez seja por isso que algumas pessoas não se lembram exatamente do dia em que ficaram felizes. Lembram-se, antes, do dia em que deixaram de pedir licença. Licença para amar. Para partir. Para ficar. Para mudar de profissão aos quarenta, para morar sozinhas, para construir uma família diferente daquela que imaginaram para elas ou simplesmente para admitir que a vida que as faz respirar aliviadas não se parece em nada com a vida que esperavam delas.
Há uma armadilha sorrateira em acreditar que toda felicidade precisa ser compreendida para ser legítima. Como se a aprovação viesse antes da paz. Como se fosse preciso convencer o mundo para, só então, convencer a si mesmo. Mas a felicidade nunca funcionou assim.
Quem nunca visitou determinada cidade talvez não entenda por que uma rua específica continua morando dentro de alguém. Quem nunca ouviu certa música talvez não compreenda por que ela ainda faz os olhos marejarem. Quem nunca amou daquela maneira dificilmente encontrará palavras para explicar o que ela significa. Nem por isso essas experiências deixam de ser verdadeiras. Nem tudo o que nos transforma consegue ser traduzido.
Hoje desconfio que amadurecer tenha menos a ver com descobrir quem somos e mais com abandonar a necessidade de convencer alguém disso. Há uma paz muito particular em perceber que a felicidade não é um argumento. Ela não precisa vencer debates, conquistar aprovação nem reunir testemunhas. Precisa apenas encontrar um lugar onde possa existir sem pedir desculpas.
Talvez seja esse o verdadeiro alívio da maturidade: compreender que algumas alegrias nasceram para ser vividas, não explicadas. E que a felicidade, como todo idioma íntimo, nunca precisou de tradutor. Apenas de alguém disposto a falá-lo sem medo.
Até o próximo texto!
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