Outro dia, alguém me disse uma coisa que, em outros tempos, teria rendido uma discussão de pelo menos quarenta minutos. Eu teria explicado meu ponto, recuperado o contexto, corrigido algumas interpretações e, provavelmente, passado o resto do dia reconstruindo mentalmente a conversa, porque aparentemente não bastava discutir: era preciso também vencer a discussão depois que ela já tinha acabado. Sou dessas. Ou era.
Dessa vez, eu apenas ouvi.
Não foi uma epifania, foi experiência, que é um jeito elegante de chamar aquilo que a vida ensina depois de algumas escolhas ruins. Eu ainda tinha o que dizer, sabia exatamente o que responder e continuava achando que estava certa. A novidade foi descobrir que isso não me obrigava a dizer nada.
Durante muito tempo, confundi silêncio com derrota. Se alguém me interpretasse mal, eu explicava. Se fosse injusto comigo, eu argumentava. Se dissesse uma bobagem com convicção, eu sentia uma necessidade quase cívica de corrigir. Eu não queria apenas ser compreendida, queria sair da conversa com o relatório final, a ata assinada e o reconhecimento de que eu tinha razão.
Demorei a perceber que algumas pessoas não querem entender o nosso lado; querem apenas que continuemos falando para terem com quem discutir. E há uma hora em que a gente começa a achar esse entretenimento caro demais.
Talvez porque a vida vá ficando mais cheia, ou porque a paciência vá ficando mais seletiva. Temos problemas de verdade, responsabilidades que não podem ser adiadas e relações que merecem nossa atenção. Gastar uma noite tentando convencer alguém de que fomos mal interpretados começa a parecer um investimento ruim, especialmente quando o retorno é acordar no dia seguinte ainda irritado e, de quebra, descobrir que dormimos mal por causa de uma conversa que nem lembrávamos direito por que começou. Um investimento bastante duvidoso na minha opinião.
Isso não significa aceitar tudo em nome da paz. Há situações em que é preciso se posicionar, estabelecer limites e dizer o que precisa ser dito. A diferença é que começamos a perceber quando estamos defendendo algo importante e quando estamos apenas defendendo o orgulho de não deixar o outro ter a última palavra. E, convenhamos, há algo de infantil em transformar cada divergência numa disputa pelo troféu de adulto mais correto da sala.
Também aprendemos que algumas pessoas terão uma versão equivocada de nós, por mais que expliquemos. E talvez seja libertador perceber que não precisamos administrar a opinião de todo mundo. A certa altura, fazer assessoria de imprensa da própria vida fica cansativo.
Foi por isso que, naquela conversa, eu apenas ouvi. Não porque tivesse ficado sem resposta, mas porque, pela primeira vez, a resposta me pareceu menos importante do que o meu sossego.
Talvez seja isso que acontece com a gente depois de algumas experiências: continuamos sabendo exatamente o que gostaríamos de dizer, mas já não sentimos necessidade de dizer tudo.
E existe uma liberdade enorme em descobrir que podemos sair de uma discussão sem vencer, sem convencer e, principalmente, sem levar o assunto para casa.
Naquela noite, eu não tive a última palavra. E, pela primeira vez, isso não me pareceu uma derrota.
Até o próximo texto!
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