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Por um triz

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 24/08/2026 às 10:00:34

A gente costuma contar a própria vida pelo que aconteceu. Pelo que deu certo, pelos lugares a que fomos, pelas pessoas que chegaram, pelas escolhas que viraram histórias. É assim que organizamos nossas lembranças, a partir da primeira viagem, do primeiro emprego, do amor que ficou, da casa que conseguimos, do sonho que finalmente saiu do papel. Mas existe uma parte da nossa história que quase nunca entra nessa contabilidade: todas aquelas coisas que não aconteceram.

Falo dos pormenores que, por algum motivo, ficaram pelo caminho. Da viagem que não compramos, daquele curso que não fizemos, da cidade para a qual nunca nos mudamos bem como das conversas que adiamos tantas vezes que - quando percebemos - já não fazia mais sentido. Falo, ainda, do convite que recusamos, daquela mensagem que escrevemos e jamais enviamos, e também da pessoa que poderia ter sido importante, mas acabou sendo apenas uma possibilidade.

É curioso como conseguimos sentir saudade do que nunca tivemos. Às vezes me pego imaginando como teria sido determinada versão da minha vida se eu tivesse feito uma escolha diferente. Se tivesse dito sim em vez de não, se tivesse ido embora quando ainda era fácil. Se tivesse ficado quando ainda havia alguma coisa para salvar, ou se tivesse insistido um pouco mais. E se tivesse desistido um pouco antes… A imaginação é uma espécie de máquina do tempo bastante eficiente para produzir nostalgia de lugares onde nunca estivemos.

A questão é que quase sempre somos generosos demais com as vidas que não vivemos já que, em nossa imaginação, aquela outra versão de nós costuma estar melhor, mais feliz, mais corajosa, mais realizada. Esquecemos que estamos romantizando uma hipótese. Não sabemos como teria sido. Talvez o “quase” que hoje parece tão bonito fosse, na prática, um enorme erro, mas também existem coisas que não aconteceram e pelas quais somos gratos sem perceber. Pessoas que não conhecemos o suficiente para amar, portas que não se abriram, oportunidades que perdemos e que - anos depois - entendemos que talvez não fossem oportunidades coisíssima nenhuma. Há recusas que só parecem ruins no momento em que acontecem, e há despedidas que doem porque ainda não sabemos que algumas ausências são, sorrateiramente, uma forma de proteção.

A vida não entrega explicações com a mesma velocidade com que entrega acontecimentos. Às vezes, precisamos de anos para entender que determinada situação não ter concretizado foi tão importante quanto outra ter acontecido. E quem sabe seja essa uma das partes mais difíceis de amadurecer: aceitar que nem tudo terá conclusão, que certas histórias terminarão antes de começar direito e que certas perguntas vão continuar sem resposta porque simplesmente não existe resposta escondida em algum lugar esperando por nós.

Percebo que somos feitos não apenas das decisões que tomamos, mas também das que não tomamos. Dos encontros que tivemos e dos que perdemos por alguns minutos, alguns quilômetros ou alguma falta de coragem. Somos feitos das portas que atravessamos e das que deixamos fechadas. Das oportunidades que abraçamos e das que passaram diante de nós enquanto estávamos ocupados demais tentando descobrir se eram realmente nossas.

No fundo, viver é conviver com uma coleção de possibilidades abandonadas pelo caminho. Algumas ainda despertam curiosidade. Outras provocam uma pontada de saudade. E existem aquelas que, quando lembramos, nos fazem pensar: ainda bem.

Pode ser que a paz venha quando entendemos que não precisamos viver todas as vidas que imaginamos para considerar que vivemos bem. Uma vida não é menor porque algumas coisas ficaram pelo caminho. Ela é apenas diferente daquela que imaginamos. A bem da verdade não existe apenas uma forma certa de a vida acontecer.

Há histórias que começam, há histórias que terminam, há histórias que esperamos por anos. E há histórias que nunca chegam a ser vividas.

Tudo isso também é vida.

Até o próximo texto!

@portal.eurio

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