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Ser feliz dá trabalho!

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 17/08/2026 às 09:40:56

Há uma idade em que a gente começa a perceber que passou tempo demais tentando parecer sensato. Não fazer aquilo porque “não combina”. Não dizer aquilo porque “é cedo demais”. Não ir porque “o que os outros vão pensar?”. Não gostar demais porque gostar demais parece fraqueza. Não se entregar porque, afinal, já aprendemos que tudo pode acabar. E, de tanto evitar o ridículo, acabamos evitando também a felicidade.

Talvez essa seja uma das coisas mais curiosas da vida adulta: passamos anos construindo uma versão de nós mesmos que seja aceitável, coerente, admirável. Bancamos quem somos. Defendemos nossas escolhas. Repetimos que não precisamos de aprovação. Até que aparece alguma coisa — ou alguém — que nos faz querer justamente aquilo que juramos não querer. E então começa a negociação interna. “Será que eu estou me precipitando?” “Será que estou me iludindo?” “Será que vão achar que eu sou boba?” Como se ser feliz exigisse uma autorização prévia. Como se houvesse uma comissão avaliadora responsável por decidir se aquilo que nos alegra é suficientemente razoável para ser vivido.

A verdade é que quase ninguém tem tanta certeza quanto aparenta. A pessoa que passou anos dizendo que jamais mudaria de cidade pode, de repente, sentir vontade de recomeçar em outro lugar. Quem jurou que seguiria determinada carreira pode descobrir que já não se reconhece naquele caminho. Quem sempre precisou ter tudo planejado pode, um dia, querer simplesmente dizer sim a alguma coisa sem saber onde aquilo vai dar. Também podemos nos afastar de amizades que já não fazem sentido, voltar a estudar, começar um projeto, viajar sozinhos, mudar de opinião, experimentar uma versão de nós mesmos que nunca tivemos coragem de apresentar ao mundo. A pessoa que diz que nunca se apaixonaria por alguém assim talvez esteja apaixonada. A que garante que não quer relacionamento talvez esteja esperando alguém chegar. A que passou anos dizendo que gosta da própria solidão pode, em algum domingo à noite, desejar companhia. E não há contradição nenhuma nisso. Somos seres humanos, não manifestos políticos.

Podemos mudar de ideia. Podemos desejar o que antes não desejávamos. Podemos voltar atrás. Podemos descobrir que aquilo que parecia fraqueza era apenas coragem em uma roupa que não reconhecíamos. O problema é que construímos uma identidade tão rígida que, às vezes, precisamos escolher entre continuar sendo coerentes ou começar a ser felizes.

Existe uma espécie de orgulho contido em permanecer infeliz dentro da própria narrativa. “Eu sou assim.” “Eu não faço isso.” “Eu nunca correria atrás.” “Eu não me apego.” “Eu não preciso de ninguém.” Talvez algumas dessas frases sejam verdadeiras. Mas talvez outras sejam apenas mecanismos de defesa que, de tanto serem repetidos, ganharam status de personalidade.

Até que ponto estamos bancando quem somos, e a partir de quando estaremos apenas bancando uma personagem que inventamos para não nos machucar?

Não cabe a mim defender que a gente abandone os próprios limites, aceite qualquer coisa ou confunda felicidade com insistência. Há relações que devem terminar, portas que precisam permanecer fechadas e pessoas que não merecem uma segunda chance. Mas também existem portas que não abrimos por medo de parecer vulneráveis. Existem mensagens que não enviamos, convites que recusamos, afetos que adiamos, viagens que não fazemos, amores que sabotamos antes mesmo que tenham a chance de dar errado.

E talvez a pergunta mais honesta não seja “e se der errado?”, mas “e se der certo?”. Porque também temos medo disso. Temos medo de que dê certo e a nossa vida precise mudar. Medo de gostar e precisar admitir que gostamos. Medo de encontrar alguém que nos faça rever certezas antigas. Medo de realizar um sonho e descobrir que agora será preciso inventar outro.

Ser feliz dá trabalho. Às vezes, dá até mais trabalho do que ser infeliz. A infelicidade conhecida tem rotina, justificativa, discurso pronto. A felicidade exige presença. Exige que a gente pare de ensaiar a vida e finalmente entre em cena.

Talvez amadurecer seja justamente isso: aprender a diferenciar prudência de medo. Perceber que não precisamos abandonar quem somos para viver coisas novas. Podemos continuar sendo nós mesmos e, ainda assim, permitir que a vida nos surpreenda.

No fim, talvez a pergunta seja simples e incômoda: até quando vamos bancar quem somos, se a pessoa que estamos tentando proteger já não é exatamente quem queremos ser?

Porque existe um momento em que preservar a própria identidade deixa de ser amor-próprio e começa a ser medo. E talvez a coragem adulta não esteja em continuar dizendo “eu sou assim”. Talvez esteja em conseguir olhar para si mesma e dizer: “Eu era assim. Hoje eu quero outra coisa.”

E ir.

Sem garantia. Sem plateia. Sem precisar explicar. Só porque, pela primeira vez em muito tempo, alguma coisa dentro da gente parece dizer que pode ser feliz.

Até o próximo texto!

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