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Páginas do tempo

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 03/08/2026 às 10:49:48

Sempre achei curioso que uma biblioteca seja um dos poucos lugares onde ninguém parece disputar com o relógio. Você entra, diminui o passo sem perceber e, de repente, aquele mundo lá fora — onde tudo precisa ser urgente, produtivo, imediato — fica do outro lado da porta. Como se alguém tivesse abaixado o volume da pressa. Faz sentido?

Mas não é o silêncio que mais me chama atenção, é o tempo. Porque uma biblioteca desafia a lógica do século XXI: enquanto a internet nos oferece milhões de respostas em menos de um segundo, ela continua acreditando na lentidão. Você procura uma estante, percorre lombadas, tira um livro do lugar, folheia algumas páginas, devolve, experimenta outro. Não há algoritmo tentando adivinhar o que você quer antes mesmo de você saber. Existe apenas o encontro, e encontros importantes raramente gostam de ser apressados.

Talvez por isso eu goste tanto de bibliotecas, elas me lembram que algumas coisas não pioram por esperar. Muito pelo contrário!, há livros que passaram vinte, cinquenta, cem anos aguardando um leitor específico. Imagine a paciência de uma história que nunca se desespera por não ter sido escolhida… Ela simplesmente permanece ali, certa de que um dia alguém vai abrir exatamente aquela página, exatamente naquele momento da vida em que aquelas palavras finalmente farão sentido.

Nós é que desaprendemos a esperar. Queremos respostas antes das perguntas amadurecerem. Queremos relacionamentos sólidos antes de construir intimidade. Queremos chegar antes mesmo de saber para onde estamos indo. Vivemos consultando o relógio como se ele fosse capaz de garantir alguma coisa além da passagem das horas.

No decorrer da vida eu aprendi que o tempo não trabalha para nós. Trabalha em nós.

É diferente. Há uma versão sua que ainda não existe porque falta um livro para ser lido. Falta uma conversa. Falta um erro. Falta uma viagem. Falta um luto atravessado. Falta um amor que ainda nem cruzou seu caminho. E nenhuma dessas coisas responde ao calendário que você desenhou. E as bibliotecas sabem disso há séculos. Elas também ensinam outra lição, talvez a mais bonita de todas: o tempo não apaga tudo.

Entre as páginas de um livro antigo existe a caligrafia de alguém que você nunca conheceu. Um grifo feito a lápis. Uma flor prensada. Um bilhete esquecido. De repente, você divide uma leitura com uma pessoa que talvez tenha vivido décadas antes de você. Que outra invenção humana consegue transformar desconhecidos em companhia? Enquanto o mundo insiste em vender novidades, uma biblioteca continua apostando na permanência. Ela nos lembra que nem tudo precisa ser recente para continuar vivo.

Acho que é por isso que saio de uma biblioteca sempre um pouco mais leve do que entrei. Não porque encontrei todas as respostas, mas porque deixo de sentir que preciso encontrá-las imediatamente.

Existe, sim, conforto em perceber que algumas histórias esperam anos pelo leitor certo. E, quem sabe, os nossos dias também estejam fazendo isso conosco? Talvez a vida não esteja atrasada, talvez ela só esteja – com uma calma que a gente ainda não aprendeu a respeitar – esperando a hora exata de abrir a página seguinte.

Será que o tempo é mesmo o nosso maior inimigo ou apenas o narrador de uma história que insistimos em ler depressa demais? Pense nisso…

Até o próximo texto!

@portal.eurio

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