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A vida adulta que espere!

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 08/09/2026 às 12:10:58

Fui ao Rock in Rio no último domingo. Não era a primeira vez, o que significa que eu já sabia mais ou menos o que me esperava: a Cidade do Rock, a multidão, as filas, os preços que fazem a gente rever temporariamente todos os nossos conceitos sobre economia e, em algum momento da noite, a descoberta de que nossos pés têm limites que desconhecíamos.

A diferença é que, da primeira vez, eu chegava preocupada em não perder nada. E nesta eu estava preocupada em não perder a lombar.

É curioso como a gente muda sem perceber. Houve uma época em que sair para um festival significava apenas escolher uma roupa, pegar o ingresso e ir. O corpo parecia um detalhe. Podia passar horas em pé, andar quilômetros, dormir pouco, comer qualquer coisa e ainda acordar no dia seguinte com disposição para contar a história.

Agora, existe uma preparação prévia. O tênis precisa ser confortável, a bolsa precisa comportar uma garrafinha de água, o carregador de celular é item de primeira necessidade e a capa de chuva não era exatamente uma precaução: era praticamente parte do ingresso. A previsão de muita chuva já era conhecida por todo mundo. Não havia surpresa, mistério ou possibilidade de alegar inocência. Nós sabíamos que provavelmente passaríamos horas debaixo d’água e, ainda assim, fomos.

Antes de sair, fiz um pacto tácito com o meu corpo: você aguenta até o final e eu prometo que amanhã não marco absolutamente nada.

O corpo não respondeu, mas entendi aquilo como um sim. Então fui. Daí veio a chuva exatamente como havia sido anunciado. Não era aquela chuva que pega alguém desprevenido. Era uma chuva anunciada, esperada, comentada e, ainda assim, recebida com uma certa indignação. Como se tivéssemos sido pessoalmente enganados pelo clima.

Em poucos minutos, a capa de chuva, que havia parecido uma demonstração de preparo e maturidade, começou a revelar suas limitações. O cabelo perdeu a batalha, a roupa ficou pesada e o tênis começou a armazenar água. A maquiagem, quando existe, pede para não ser envolvida na história. E a gente segue.

Aquela multidão inteira parece estabelecer um acordo com a chuva: já chegamos até aqui, agora vamos até o fim. E talvez seja essa uma das coisas mais bonitas de um festival. A disposição para suportar algum desconforto em nome de uma coisa que, por algumas horas, faz tudo parecer justificável.

A gente enfrenta fila. Fica espremido. Anda mais do que deveria. Paga caro por uma comida que, fora dali, provavelmente consideraria um desaforo. E, em algum momento, começa a calcular mentalmente quanto tempo ainda consegue esperar para ir ao banheiro. E continua feliz talvez porque, no meio daquela confusão, ninguém esteja muito preocupado em parecer interessante. Há adultos de capa de chuva colorida, cabelos desfeitos, roupas molhadas e vozes desafinadas cantando com uma convicção que nenhum deles teria coragem de demonstrar em outro lugar. Ninguém parece estar tentando construir uma imagem. Naquele momento, não importa muito quem você é, o que faz, quantos anos tem ou como costuma se apresentar para o mundo. Você só está ali.

Fiquei pensando que talvez seja isso que nos atrai tanto nesses lugares. A vida adulta é cheia de pequenas performances. A gente escolhe a roupa certa, a foto certa, a palavra certa. Aprende a parecer bem mesmo nos dias em que não está. Até o espontâneo, às vezes, vem cuidadosamente ensaiado. E de repente está todo mundo molhado, está todo mundo cansado, está todo mundo um pouco ridículo. E é justamente aí que a noite fica melhor porque, quando não há mais nada para preservar, sobra a experiência. A vida adulta pode esperar um pouco.

Voltei para casa cansada, molhada e com a sensação de que meus pés tinham vivido uma experiência que não haviam autorizado. Na segunda-feira, o corpo apresentou a conta, e eu, como uma adulta responsável, fingi surpresa.

Ainda assim, faria tudo outra vez.

Só levaria uma capa de chuva melhor.

Ou talvez duas.

Até o próximo texto!

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