Nesta edição, a O2 Play marca presença com quatro filmes brasileiros em diferentes mostras da Première Brasil. São produções bastante distintas entre si, mas que têm algo em comum: cada uma encontra uma maneira própria de falar sobre pessoas, conflitos e experiências que merecem ser vistas.
Maria de Maria, de Luiza Shelling, participa da Competição de Longas-Metragens de Ficção. Ambientado no Brasil de 1940, o filme acompanha uma jovem cangaceira que, depois de perder seu bando e descobrir que está grávida, foge para o Centro-Oeste em busca de um recomeço.
A personagem precisa enfrentar uma natureza hostil e uma sequência de dificuldades enquanto tenta reconstruir a própria vida. É uma narrativa que mistura sobrevivência, deslocamento e resistência em um período marcado por profundas transformações no país.
Já Isabel, de Gabe Klinger, chega à Competição Novos Rumos em sua estreia nacional.
Marina Person interpreta uma sommelière frustrada com a rotina da alta gastronomia paulistana. Seu sonho é deixar o restaurante onde trabalha e abrir o próprio bar de vinhos.
A premissa pode parecer simples, mas existe ali uma questão bastante contemporânea: até que ponto estamos dispostos a abandonar uma segurança conhecida para tentar construir uma vida mais próxima daquilo que realmente queremos?
É uma pergunta que ultrapassa o universo da gastronomia e encontra eco em muita gente.
Na mostra Midnight Movies, a proposta muda completamente de tom.
Privadas de Suas Vidas, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, aposta no cinema de gênero, no absurdo e no provocativo. A história acompanha Malu, que perdeu um dos filhos gêmeos em um acidente, e Gênesis, seu filho adolescente sobrevivente, uma pessoa não binária que exige o reconhecimento de sua identidade.
Quando uma maldição transforma os banheiros do prédio em instrumentos de violência, mãe e filho precisam se unir para impedir uma tragédia.
Com Marco Pigossi, Maria Gladys e Otávio Müller no elenco, o filme mostra como o cinema brasileiro também pode experimentar, incomodar e fugir deliberadamente de formatos mais convencionais.
Entre as produções que chegam ao festival, existe ainda uma obra que conversa diretamente com a memória do Rio de Janeiro.
A Casa de Dona Carlota, curta-metragem dirigido por Lili Fialho e Bruna Linzmeyer, terá sua primeira exibição no Festival do Rio 2026.
E a história é daquelas que provocam uma pergunta inevitável: como conseguimos esquecer uma mulher que ajudou a construir a história do futebol brasileiro?
Dona Carlota Rezende foi dirigente e treinadora do Primavera Atlético Clube, equipe de futebol feminino que funcionava em Pilares, no subúrbio do Rio.
Sua própria casa havia se transformado na sede do clube.
Ali, mulheres treinavam, jogavam futebol, conviviam, festejavam e encontravam uma liberdade que a sociedade brasileira insistia em negar a elas.
Isso acontecia nas décadas de 1930 e 1940, quando o futebol feminino começava a ganhar público e dava sinais de que poderia se profissionalizar.
Carlota estava no centro desse movimento.
Até que veio a repressão.
Em 1941, ela foi presa pela Delegacia de Costumes e a sede do Primavera foi fechada. Poucos meses depois, o governo de Getúlio Vargas publicou o decreto que proibiu às mulheres a prática de esportes considerados incompatíveis com a chamada “natureza feminina”.
O resultado foi uma interrupção que durou cerca de quatro décadas.
O futebol feminino só seria regulamentado novamente em 1982.
É difícil olhar para essa história sem pensar no quanto foi perdido nesse intervalo.
Carreiras foram interrompidas. Clubes desapareceram. Memórias deixaram de ser transmitidas. E muitas das mulheres que ajudaram a construir o futebol feminino brasileiro foram praticamente retiradas dos registros mais conhecidos.
É por isso que A Casa de Dona Carlota me parece tão importante.
O filme não está apenas contando uma história antiga. Está devolvendo uma personagem à história.
E existe uma coincidência especialmente interessante: essa recuperação acontece justamente quando o futebol feminino brasileiro vive uma nova fase de crescimento e reconhecimento.
O Brasil recebe, em 2027, pela primeira vez, uma Copa do Mundo Feminina da FIFA.
Antes de celebrar esse futuro, porém, precisamos conhecer melhor quem abriu caminho para que ele fosse possível.
O curta é dirigido por Lili Fialho e Bruna Linzmeyer, que também atua na produção.
Para Bruna, a relação com o futebol feminino já faz parte de sua trajetória há anos. O encontro com a história de Dona Carlota amplia esse percurso e leva a pesquisa para o cinema.
Lili, por sua vez, já desenvolveu trabalhos dedicados à memória e às histórias de mulheres no esporte.
No papel de Dona Carlota está Ingrid Trigueiro, atriz com mais de três décadas de carreira e participações em produções como Bacurau, Manas e Rebento.
O elenco ainda reúne Bruna Linzmeyer, Tay O’hana, Luisa Mangini, Diego Pallardo e participação especial de Sandra Sá.
Mas, neste caso, os nomes do elenco talvez sejam menos importantes do que a personagem que finalmente ganha o centro da tela.
Porque existe uma dimensão política na escolha do que o cinema registra.
Filmar Dona Carlota é dizer que sua história importa.
É reconhecer que o futebol feminino brasileiro não começou agora, não nasceu com as grandes transmissões televisivas e não surgiu apenas quando passou a movimentar grandes públicos.
Houve mulheres jogando muito antes.
Houve mulheres organizando equipes, treinando, negociando partidas e tentando transformar aquilo em profissão.
E houve também um Estado que decidiu que aquilo não deveria continuar.
Contar essa história é, portanto, mais do que olhar para o passado. É entender o presente.
É nesse ponto que a programação do Festival do Rio ganha uma importância que vai além dos números e das estreias.
Um festival não precisa apenas apresentar aquilo que já conhecemos. Ele também deve nos apresentar personagens que desconhecíamos, histórias que ficaram escondidas e cineastas que estão procurando novas maneiras de contar o Brasil.
A presença de filmes como Maria de Maria, Isabel, Privadas de Suas Vidas e A Casa de Dona Carlota mostra justamente essa diversidade.
Tem drama, ficção histórica, cinema de gênero, documentário, esporte, memória e questões relacionadas à identidade.
E tudo isso cabe dentro de um mesmo festival.
Para quem estiver no Rio entre 1º e 11 de outubro, vale olhar a programação com calma e sair um pouco da zona de conforto.
Às vezes, o filme que não estava no nosso radar é justamente aquele que permanece na cabeça depois que deixamos a sala.
E, quando isso acontece, o festival cumpriu uma de suas melhores funções: fazer com que o cinema continue existindo dentro da gente mesmo depois que a tela se apaga.