Uma pesquisa publicada no JAMA Network Open, realizada com adolescentes e jovens adultos de 12 a 21 anos nos Estados Unidos, mostrou que 13,1% já haviam recorrido à inteligência artificial generativa em busca de aconselhamento relacionado à saúde mental. Entre os jovens de 18 a 21 anos, esse percentual chegava a 22,2%. Dos que utilizaram a ferramenta, 92,7% consideraram as orientações recebidas úteis em algum grau.
Outro levantamento nacional, publicado em junho de 2026 no JAMA Pediatrics, trouxe novos dados sobre esse comportamento: 19,2% dos adolescentes e jovens adultos entrevistados disseram já ter usado chatbots de inteligência artificial para buscar aconselhamento sobre saúde mental. Um dado chama ainda mais atenção: entre aqueles que recorreram à IA, 63,3% não contaram isso a ninguém.
Mas a pergunta que mais intriga é: por que tantos jovens estão escolhendo contar suas angústias para uma máquina?
Talvez uma parte da resposta esteja justamente na facilidade de falar quando não existe alguém do outro lado olhando, interrompendo, criticando ou julgando. Uma inteligência artificial está disponível a qualquer hora. Não demonstra impaciência, não diz que o problema é bobagem, não compara a dor de quem fala com a experiência de outra pessoa e não responde que "isso vai passar" simplesmente para encerrar o assunto.
Para um jovem que tem medo de ser julgado, exposto ou incompreendido, essa disponibilidade pode trazer uma sensação de segurança. E talvez seja justamente aí que exista algo importante para nós, adultos, observarmos.
Antes de perguntarmos por que um jovem está conversando com uma máquina, talvez seja necessário perguntar se ele sente que pode conversar conosco. Será que estamos realmente disponíveis para ouvir? Ou ouvimos já preparando uma resposta?
Conversar não é apenas trocar palavras. Existe algo na presença humana que nenhuma tecnologia consegue reproduzir completamente: o olhar, o silêncio compartilhado, a percepção de uma mudança no comportamento, o abraço, o desconforto que percebemos na voz e até aquilo que a pessoa não consegue dizer.
O problema começa quando a tecnologia deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar o lugar das relações humanas ou do cuidado profissional. Uma inteligência artificial pode oferecer informações e produzir respostas que parecem acolhedoras, mas não conhece verdadeiramente a história daquela pessoa, não acompanha suas mudanças da mesma forma que um profissional responsável pelo seu cuidado e pode fornecer informações inadequadas ou equivocadas.
Portanto, existe uma reflexão ainda maior por trás desses números. Talvez esse comportamento esteja dizendo alguma coisa sobre a qualidade das nossas próprias conversas.
Vivemos conectados, respondemos mensagens durante todo o dia, acompanhamos a vida de dezenas ou centenas de pessoas pelas redes sociais e, mesmo assim, muitas vezes temos dificuldade de encontrar alguém diante de quem possamos simplesmente dizer: "Eu não estou bem".
Os jovens podem estar encontrando na inteligência artificial aquilo que todos nós procuramos nas relações: um espaço para falar sem medo, organizar pensamentos e sentir que aquilo que estamos dizendo merece atenção.
O desafio não é simplesmente afastar os jovens da tecnologia, mas garantir que, quando desligarem a tela, também encontrem pessoas disponíveis para ouvi-los.
Porque talvez a pergunta mais importante não seja por que eles estão conversando tanto com as máquinas. Talvez seja por que algumas coisas estão ficando tão difíceis de serem ditas entre nós.