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Não se faz supermercado com fome

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 21/09/2026 às 13:26:43

Existe uma sabedoria popular que diz que não se deve fazer supermercado com fome. É um conselho simples, quase banal, mas que faz bastante sentido quando a gente percebe o estrago que uma ida ao mercado pode causar de estômago vazio.

Com fome, a gente compra o que não precisa. O chocolate que não estava na lista, o biscoito que ninguém pediu, o queijo que vai estragar na geladeira. Tudo parece urgente. A gente entra para comprar leite e sai com uma pequena coleção de decisões questionáveis.

Talvez algumas decisões da vida funcionem assim também. A diferença é que ninguém nos ensina a reconhecer quando estamos emocionalmente famintos.

Há a fome de atenção, de reconhecimento, de companhia, de aprovação. A vontade de fazer parte, de não ficar para trás, de sentir que estamos aproveitando a vida como deveríamos. Quando alguma dessas faltas aperta, qualquer coisa capaz de aliviá-la ganha um valor que talvez não tivesse em outro momento.

É assim que aceitamos trabalhos que não queremos por medo de não aparecer uma oportunidade melhor. Mantemos amizades que já não fazem sentido porque temos dificuldade de admitir que algumas pessoas pertencem a determinadas fases da nossa vida. Compramos coisas de que não precisamos depois de um dia ruim. Dizemos sim a compromissos que nos exaurem porque dizer não parece mais difícil do que suportar mais uma obrigação.

E, claro, também fazemos isso nas relações amorosas. Uma mensagem fora de hora pode parecer saudade, uma atenção ocasional pode parecer interesse, e uma presença que antes consideraríamos insuficiente passa a parecer melhor do que ausência.

O problema não está necessariamente naquilo que escolhemos, mas no estado em que fazemos a escolha. Quando alguma coisa nos falta demais, perdemos um pouco da capacidade de avaliar o que está sendo oferecido. Passamos a prestar mais atenção à exceção do que à regra, ao desconto do que ao preço final. Um único momento bom basta para justificar uma sequência inteira de escolhas que já vinham nos incomodando.

É revelador como somos mais lúcidos quando a história pertence a outra pessoa. Uma amiga conta que aceitou um emprego que detesta porque estava com medo de ficar sem trabalho, e imediatamente enxergamos o desespero por trás da decisão. Um amigo diz que continua frequentando um grupo do qual já não gosta porque não quer se sentir excluído, e percebemos a solidão. Mas, quando somos nós, a coisa muda de figura. A situação ganha contexto, prazo e esperança. “Vai que aparece uma oportunidade”, pensamos. “Depois melhora.” “Não custa nada tentar mais um pouco.” Até que, para justificar o tempo que já investimos, surge o inevitável: “Pelo menos estou tentando.”

Com alguma distância, certas coisas recuperam o tamanho real. O que parecia indispensável pode esperar. Aquilo que parecia uma oportunidade única talvez já não pareça tanto. Até a mensagem que exigia uma resposta imediata pode ficar para amanhã.

A fome não muda necessariamente o que está diante de nós. Muda a maneira como enxergamos aquilo.

Talvez seja por isso que algumas decisões mereçam um intervalo. Não para ignorar o que sentimos, mas para descobrir se ainda escolheríamos a mesma coisa quando a urgência passar. Nem tudo precisa ser resolvido na hora em que incomoda. Algumas oportunidades podem esperar, alguns convites podem ser recusados e certas ausências não precisam ser preenchidas imediatamente.

Talvez uma parte da vida adulta consista justamente em aprender a suportar esse intervalo entre sentir vontade e tomar uma decisão. Não para pensar demais antes de viver, mas para não entregar escolhas importantes ao impulso de uma falta momentânea.

É como voltar ao supermercado depois de ter comido. As mesmas prateleiras estão ali, o chocolate continua bonito, mas já não existe aquela urgência de colocá-lo no carrinho. Você consegue olhar com calma e decidir se realmente quer aquilo ou se, algumas horas antes, só precisava de alguma coisa que aliviasse a fome.

Talvez algumas escolhas mereçam esse mesmo tempo.

Aquilo que parece indispensável no auge da necessidade pode perder o encanto quando já não estamos tentando preencher nada.

Às vezes, não era necessidade. Era fome.

E talvez a gente só precise jantar antes de decidir.

Até o próximo texto!

@portal.eurio

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