Depois que alguém morre, descobrimos que existem muitas maneiras de continuar convivendo com uma pessoa. Conversamos mentalmente, repetimos conselhos que um dia recebemos, reconhecemos seus gestos nos nossos e, em determinados momentos, chegamos a imaginar o que ela diria se estivesse por perto. Às vezes, esquecemos por um instante que não podemos mais contar as novidades. A lembrança chega antes da realidade, e precisamos reaprender a notícia da partida.
Depois que alguém morre, a saudade ganha intimidades que dificilmente caberiam numa foto. Sentimos falta da voz chamando pelo nosso nome, do jeito de contar uma história, das perguntas repetidas, das opiniões que nem sempre pedimos. Sentimos falta até daquilo que costumávamos achar banal. Quem diria que um dia sentiríamos tanta falta de uma conversa sem assunto?
Depois que alguém morre, a saudade passa a ocupar os espaços mais improváveis. Aparece enquanto fazemos o almoço, quando uma música toca no rádio ou diante de uma notícia que gostaríamos de compartilhar. Às vezes, a primeira reação é procurar o telefone. Só depois lembramos que não existe mais ninguém do outro lado para atender.
Depois que alguém morre, ficam perguntas sem destinatário. Ficamos sabendo de alguma coisa e pensamos em mandar uma mensagem. Acontece algo engraçado e imaginamos a reação que aquela pessoa teria. Encontramos uma dificuldade e procuramos, por instinto, o conselho que costumávamos receber. A razão conhece a despedida, mas os hábitos demoram a aceitá-la.
Depois que alguém morre, a casa também precisa aprender a conviver com a ausência. Os objetos permanecem nos mesmos lugares por algum tempo. Uma roupa guarda o formato de quem a vestia, uma caneca continua no armário, uma foto permanece sobre o móvel. Há quem demore a mexer nessas coisas, não por acreditar que a pessoa voltará, mas porque, durante algum tempo, parece cruel demais reorganizar o mundo como se nada tivesse acontecido.
Depois que alguém morre, as despedidas não terminam no funeral. Elas acontecem meses depois, quando percebemos que já não lembramos exatamente o som da voz, quando chega uma data que antes era comemorada juntos ou quando encontramos um objeto e precisamos decidir o que fazer com ele. Ninguém nos avisa que também será necessário aprender a guardar as coisas, reorganizar os espaços e reconhecer que determinados momentos não voltarão.
Depois que alguém morre, o mundo continua funcionando. As contas vencem, o trânsito permanece, os compromissos não desaparecem. Precisamos trabalhar, estudar, fazer compras e responder mensagens. Em algum momento, voltamos a rir sem culpa, embora ainda existam dias em que a felicidade venha acompanhada da vontade de dividi-la com quem já não pode estar presente.
Depois que alguém morre, não sentimos falta apenas do que vivemos. Sentimos falta do que ainda poderíamos viver. Dos aniversários que não serão comemorados, das conversas que não acontecerão, dos lugares que não conheceremos juntos. Perdemos também uma parte do futuro que havíamos reservado para aquela pessoa, e ninguém nos ensina a fazer o inventário dessas possibilidades.
Depois que alguém morre, as lembranças deixam de ser feitas apenas dos grandes acontecimentos. Passamos a sentir falta das implicâncias, das manias, das opiniões inconvenientes e até das pequenas discussões. Aquilo que antes nos tirava a paciência ganha outro significado quando já não existe a possibilidade de acontecer novamente. Não porque as relações tenham sido perfeitas, mas porque eram nossas, com todas as suas imperfeições.
Dia 2 de novembro foi dia de finados. Os cemitérios receberam flores, os túmulos foram visitados e os nomes gravados em pedra voltaram a ser pronunciados. Há quem levasse orações, quem levasse lágrimas e quem tenha preferido atravessar a data em silêncio. Cada família encontra sua maneira de se aproximar de quem já não pode responder.
Mas a lembrança não obedece ao calendário. Depois que alguém morre, qualquer dia pode carregar o peso de uma despedida. Não apenas os dias de choro, as datas comemorativas ou as visitas ao cemitério, mas também as terças-feiras comuns, quando uma história engraçada fica sem plateia ou quando chegamos em casa com uma novidade que não temos mais para quem contar.
Talvez seja isso que os vivos nunca consigam explicar inteiramente: depois que alguém morre, continuamos encontrando motivos para procurá-lo. Não necessariamente porque ainda não aceitamos a partida, mas porque amar alguém não é uma experiência que termina no instante em que a vida termina.
Depois que alguém morre, a vida continua, mas algumas conversas permanecem inacabadas. E talvez seja essa uma das formas mais dolorosas de compreender a morte: perceber que o nosso amor ainda tem assunto, mesmo quando já não tem interlocutor.
Dedico este texto a Maria Lúcia de Oliveira Domingues e Antônio Martins Domingues.
A vida nunca mais foi a mesma sem vocês. Há tanto que eu gostaria de contar, tantos momentos que ainda queria compartilhar e tantas vezes em que procurei vocês em acontecimentos que já não podemos viver juntos.
Com amor, para sempre.
Até o próximo texto!
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