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Cresci. Que pena!

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 12/10/2026 às 10:06:08

Quando somos crianças, acreditamos em uma quantidade absurda de coisas. Acreditamos que os adultos sabem o que estão fazendo, que as promessas serão cumpridas, que pedir desculpas significa arrependimento e que gostar de alguém é motivo suficiente para que esse alguém goste da gente também. A vida, no entanto, não demora muito a apresentar suas ressalvas.

Crescer é descobrir que o mundo tem letras miúdas. Que algumas pessoas dizem o que não sentem, prometem o que não pretendem cumprir e sorriem enquanto pensam em outra coisa. É perceber que nem todo abraço acolhe, nem toda gentileza é desinteressada e nem toda pessoa que diz estar ao nosso lado está disposta a ficar quando a situação aperta. Uma hora, a gente aprende. Ou, pelo menos, desenvolve uma desconfiança bastante convincente de que aprendeu.

O curioso é que, depois de algumas decepções, passamos a tratar a ingenuidade como um defeito de caráter. Ninguém quer ser feito de bobo. A expressão, aliás, é bastante reveladora: parece que o maior problema de ser enganado não é a desonestidade de quem engana, mas a suposta falta de inteligência de quem acreditou. A culpa, como tantas vezes acontece, acaba no colo errado.

É preciso desconfiar. Investigar intenções, observar comportamentos, identificar contradições. Aprendemos a não criar expectativas, a não demonstrar interesse demais, a não responder imediatamente, a não parecer disponíveis. Até o afeto, que deveria ser uma das coisas mais espontâneas da vida, ganha manual de instruções. Há quem faça cálculos para não mandar duas mensagens seguidas, quem esconda a própria felicidade para não dar o braço a torcer e quem prefira fingir indiferença a correr o risco de parecer interessado. A vida adulta tem dessas coisas: a gente aprende tanto a se proteger que, às vezes, já nem sabe direito do que está se protegendo.

Não estou defendendo que voltemos a acreditar em qualquer conversa. Seria bonito, mas também seria uma péssima estratégia para lidar com boletos, contratos e algumas pessoas que conhecemos por aí. Existe uma diferença entre confiar e ignorar os sinais, assim como existe uma diferença entre amadurecer e transformar toda experiência ruim em uma regra sobre a humanidade. Nem todo mundo merece a nossa confiança, mas isso não significa que ninguém mereça.

Talvez a infância nos ensine justamente aquilo que a vida adulta insiste em complicar: a capacidade de nos interessarmos por alguma coisa sem perguntar imediatamente o que vamos ganhar com isso. Uma criança desenha porque quer desenhar, inventa histórias porque gosta de inventar histórias, faz amizade porque encontrou alguém de quem gostou. Não precisa calcular a utilidade de cada experiência, nem imaginar como será interpretada pelos outros. Ela simplesmente vai.

Em algum momento, começamos a substituir a espontaneidade pela cautela. Às vezes, com razão. Outras vezes, por medo de repetir uma dor que já conhecemos. E, quando percebemos, estamos tão ocupados tentando não ser enganados, rejeitados ou ridicularizados que deixamos de fazer coisas que gostaríamos de fazer. Não porque não tenhamos vontade, mas porque aprendemos que demonstrar vontade demais é perigoso.

O Dia das Crianças costuma despertar lembranças de brinquedos, brincadeiras e tardes que pareciam não ter fim. Mas talvez também seja uma boa oportunidade para pensar nas coisas que nos ensinaram a abandonar quando crescemos. Não falo de acreditar que tudo vai dar certo, porque a experiência já nos mostrou que nem sempre dá. Falo de não permitir que tudo o que deu errado determine, de antemão, o que ainda pode dar certo.

A menina que fomos provavelmente acreditava em algumas bobagens. Nós também acreditamos, hoje, em outras tantas; apenas ficamos melhores em disfarçá-las. A diferença é que, agora, temos vergonha de admitir que não sabemos, medo de perguntar, receio de demonstrar e uma necessidade quase profissional de parecer que estamos no controle. Vê se pode?!

Não sei se existe uma maneira de atravessar a vida sem perder um pouco da ingenuidade. Desconfio que não. Há coisas que só aprendemos depois de nos decepcionarmos, e há pessoas que nos obrigam a rever a ideia que fazíamos delas. Seria ingenuidade fingir o contrário.

Mas talvez seja possível crescer sem fazer da desconfiança uma personalidade. Aprender a reconhecer uma mentira sem passar a procurar mentiras em toda parte. Entender que algumas pessoas vão embora sem concluir que ninguém fica. Descobrir que nem toda promessa se cumpre sem perder completamente a vontade de acreditar na próxima.

Neste Dia das Crianças, não desejo a ninguém que volte a ser criança. Seria pedir demais, inclusive porque ninguém merece ter que aprender novamente a amarrar os sapatos ou depender de um adulto para comprar um chocolate. Desejo apenas que a gente não confunda maturidade com amargura, prudência com frieza, nem inteligência com a capacidade de nunca acreditar em ninguém.

Porque ser ingênua não é ser idiota. Idiota, talvez, seja precisar provar o tempo inteiro que não somos ingênuos, mesmo quando o preço dessa demonstração é deixar de viver algumas coisas boas.

E, se crescer significa aprender que o mundo nem sempre merece a nossa confiança, espero que também signifique aprender a reconhecer quando ele merece.

Até o próximo texto!

@portal.eurio

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