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Mesa para uns, decreto para outros

Conexão Milão, Por Daniel Camargo, Jornalista

Em 29/10/2026 às 14:08:14

O Movimento 17 ottobre havia prometido voltar à Piazza Duomo no sábado, 24 de outubro. Na véspera, avisou que as praças anunciadas estavam canceladas e que ninguém do movimento estaria lá. Um movimento que chama as pessoas para a rua e depois avisa que não estará lá. Na Duomo, as lojas cobriram as vitrines com madeira e a Rinascente anunciou que fecharia às 15h. Os comerciantes esperavam saques; quem apareceu foi a polícia.

Milão teve, mesmo assim, seu cortejo. Cerca de 10 mil pessoas saíram em duas manifestações espontâneas, um antifascista e outro pró-Palestina, que se uniram e terminaram na Piazza Leonardo da Vinci, diante do Politecnico, uma das grandes universidades públicas do país e da Europa. Houve tensão com a polícia, mas o dia foi, em geral, pacífico. Em Turim, Bolonha, Roma e Florença, não. No balanço nacional: nove presos, 371 levados a delegacias (110 deles menores) e mais de quatro mil pessoas identificadas.

A resposta do governo já estava pronta. Em 20 de outubro, o Conselho de Ministros aprovou um novo decreto de segurança, em vigor desde o dia 23: criou o crime de violência organizada em manifestações, estendeu a detenção preventiva a menores e previu multas aos pais. Cerca de 500 paraquedistas da Brigata Folgore passaram a patrulhar Milão, na operação Strade Sicure (“ruas seguras”), até o fim do ano. A ideia de dar poder de polícia aos militares caiu depois de uma conversa com o Quirinale, a sede da Presidência da República. Os criminalistas observaram que boa parte do decreto repetia normas já em vigor; o advogado Carlo Taormina foi além, ao dizer que o sistema penal já cobria o necessário e que o novo crime não fazia falta. O ministro da Justiça, Carlo Nordio, defendeu ampliar as prisões para menores, inclusive com setores nos presídios de adultos. Enquanto isso, moradia, trabalho precário e falta de perspectiva para os jovens seguiam sem resposta.

Na mesma semana, o governo atendeu a outro tipo de protesto. Desde 16 de outubro, caminhoneiros bloqueavam estradas no Sul contra o preço do diesel, provocando desabastecimento em algumas regiões. Em 20 de outubro, Salvini recebeu o comitê dos caminhoneiros da Sicília, que suspendeu o bloqueio. Em 22 de outubro, dois dias depois da aprovação do decreto de segurança, o Conselho de Ministros anunciou 175 milhões de euros em auxílios a transportadores, agricultores e pescadores, além da suspensão das parcelas de leasing dos caminhões até março de 2027. Também houve pressão: a autoridade responsável por garantir o direito de greve cobrou medidas para assegurar a retomada das entregas, e o governo ameaçou recorrer à requisição dos motoristas. Mais de mil caminhoneiros foram identificados pela polícia. Havia, porém, uma mesa de negociação: uma nova reunião com o ministro dos Transportes, Matteo Salvini, foi marcada para 27 de outubro. Os bloqueios começaram a ser retirados em boa parte do Sul, embora a situação não tenha se normalizado imediatamente em todos os lugares. Para uns, paraquedistas; para outros, crédito fiscal.

Não chega a ser uma incoerência. É uma diferença de abordagem. O governo combinou repressão e pressão policial nos dois casos, mas também abriu uma via de negociação com uma categoria organizada, capaz de interromper o transporte de mercadorias e apresentar reivindicações concretas. Os caminhoneiros tinham interlocutores e pediam medidas que o Estado podia adotar. Dirá alguém que a diferença é a violência: em Milão houve saques, nas estradas não. A violência pesa, claro. Mas o cortejo do dia 24 foi em geral pacífico e recebeu paraquedistas e detenção preventiva, enquanto bloqueios que paralisaram parte do Sul ganharam uma mesa. O Movimento 17 ottobre se apresenta de outra maneira. Seu lema é: “Non ci rappresenta nessuno. Ci organizziamo” — ninguém nos representa, nós nos organizamos. Em seu primeiro manifesto, o movimento dizia não querer um lugar à mesa de quem lhes tirou a cadeira. A recusa dos interlocutores tradicionais é parte de sua identidade, mas não esclarece como pretendem transformar a mobilização em reivindicações concretas.

Sem interlocutores, a negociação se torna mais difícil. Recusar os canais tradicionais pode ser uma forma de contestar um sistema de representação que os jovens consideram falido. Mas também dificulta a transformação da insatisfação em reivindicações que possam ser atendidas. Sem essa mediação, o conflito corre o risco de ser tratado apenas como caso de polícia.

Depois dos saques e dos vídeos que circularam nas redes, a investigação chegou a um rosto, o do suposto idealizador do movimento. No mesmo sábado, a polícia deteve Youssef Siher, pesquisador e jornalista freelance de 30 anos, italiano de segunda geração, que administrava a página e o canal de Telegram do Movimento 17 ottobre. Ele foi levado ao presídio de San Vittore, acusado de instigação ao crime com agravante de finalidade terrorista e de participação em violência organizada em manifestações, o novo delito criado pelo decreto, em vigor desde o dia anterior e inaplicável a condutas passadas. A acusação não tratava diretamente dos saques, mas da atividade do canal depois deles. Quatro dias depois, a juíza Tiziana Landoni não validou a detenção. Para ela, as mensagens, de tom áspero, evocavam desobediência civil e não incitavam à violência, e os perfis só haviam sido criados na noite de 18 de outubro, depois dos saques. A decisão não é uma absolvição, e a investigação continua.

A primeira-ministra Giorgia Meloni chamou a decisão de “vergonhosa”. Os dirigentes do Tribunal de Milão defenderam a independência da juíza.

A manifestação de 24 de outubro não permite dizer que o Movimento venceu, nem que o governo o neutralizou. A mobilização persiste, fluida e sem dono, e ainda não mostrou se consegue transformar insatisfações diversas em reivindicações que alguém possa atender. Organizar-se é só o começo. Do outro lado, uma resposta não passa a funcionar só porque anuncia penas mais duras ou mais prisões. Os jovens dizem que lhes tiraram a cadeira; o governo oferece, por ora, o caminho da Questura.

A questão em aberto não é apenas se as pessoas voltarão às ruas. É se o governo, a oposição e as instituições serão capazes de responder à falta de perspectiva que as levou até lá, sem ignorar a violência, mas sem reduzir toda a insatisfação a um problema de ordem pública.

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